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1 mês
RS: Ex-fiscal diz à polícia que uso de violência era permitido no Carrefour

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

23/11/2020 19h35Atualizada em 24/11/2020 10h40

Um ex-fiscal afirmou à polícia que a gerência da unidade do Carrefour na zona norte de Porto Alegre autorizava o "emprego de violência" em clientes que "estavam causando problemas". Foi lá que o homem negro João Alberto Silveira Freitas, 40, morreu após ser espancado por dois seguranças do estabelecimento — Magno Braz Borges e o policial militar temporário Giovane Gaspar da Silva — na última quinta-feira (19). Os dois homens estão presos.

O UOL apurou que, de acordo com o depoimento, o uso da violência ocorria também para que suspeitos confessassem "furto ou confusão ocorrida no interior do estabelecimento", segundo o homem de 34 anos.

Segundo o ex-fiscal, nesta unidade do Carrefour há uma sala sem câmeras de segurança próxima de onde Beto, como era conhecida a vítima, foi agredido. Ele disse que é "usual a prática dos seguranças do local de imobilizar suspeitos e levar até a referida sala para que nada fosse gravado pelo sistema de segurança".

O ex-fiscal trabalhou na unidade por dois meses, no final do ano passado. O homem afirmou que "era comum, ao desconfiarem de algum furto de bens, serem tomadas providências sob a orientação da gerência da segurança e da líder da loja que na época que o declarante trabalhava era a sra Adriana", segundo trecho de depoimento à polícia.

Segundo o ex-funcionário, as providências consistiam em "constrangimento dos clientes suspeitos através de acompanhamento dentro da loja por fiscais e mensagens de rádio em volume alto para que todos que estivessem próximos ouvissem e a pessoa se sentisse desconfortável a ponto de devolver eventual mercadoria furtada".

Em nota enviada ao UOL, "o Carrefour informa que todos os seus funcionários e prestadores de serviços de empresas de segurança passam por um rigoroso treinamento para que atuem com total respeito e cordialidade com os nossos clientes".

A rede de supermercados afirma que "atua apenas com empresas homologadas pela Polícia Federal e exige de todos os seus fornecedores o cumprimento de seu Código de Conduta, que norteia quanto aos protocolos exigidos pela empresa".

"O Carrefour ressalta ainda que realiza periódicas auditorias junto às empresas terceiras, treinamentos com todos os profissionais que atuam na área, abrangendo a valorização da diversidade. A empresa reitera que qualquer atuação em desacordo com os padrões estabelecidos é rigorosamente investigados e punidos, de acordo com o caso", finaliza a nota oficial da rede de supermercados.

Entenda o caso

Beto foi morto na última quinta-feira (19) no Carrefour da zona norte de Porto Alegre. Segundo a esposa dele, Milena Borges Alves, 43, o casal foi ao supermercado para comprar ingredientes para um pudim de pão e adquirir verduras. Gastaram cerca de R$ 60. Ela conta que ficaram poucos minutos no Carrefour e que Beto saiu na frente em direção ao estacionamento. Ao chegar ao local, Milena se deparou com o marido se debatendo no chão. Ele chegou a pedir ajuda, mas a esposa foi impedida de chegar perto dele.

Ontem, UOL teve acesso ao vídeo que mostra as agressões no estacionamento. A gravação começa com Beto desferindo um soco no PM temporário, que é seguida por chutes, pontapés e socos do segurança e do PM temporário.

A maior parte das imagens mostra a imobilização com uso da perna flexionada do segurança sobre as costas de Beto. O uso da "técnica" pode ter se estendido por mais tempo além dos 4 minutos, já que o vídeo foi cortado. Nos Estados Unidos, George Floyd foi mantido por 7 minutos e 46 segundos com o joelho do policial sobre o pescoço dele, segundo os promotores de Minnesota. No sábado, UOL havia mostrado imagens do momento de Beto no caixa, antes de descer para o estacionamento com os seguranças.

A morte de Beto gerou protestos em Porto Alegre e em outras partes do país. Na capital gaúcha, um grupo de 50 pessoas conseguiu acessar o pátio do mercado, mas recuar após atuação da Brigada Militar. Uma pessoa conseguiu invadir e pichou a fachada do prédio. Outros colocaram fogo em materiais.

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