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'Guardando 13º para caminhão-pipa': Falta d'água afeta 20 bairros no RJ

1º.dez.2020 - Sem água, louça suja se acumula na casa de Priscila Saito em Nova Iguaçu - Priscila Saito/Arquivo Pessoal
1º.dez.2020 - Sem água, louça suja se acumula na casa de Priscila Saito em Nova Iguaçu Imagem: Priscila Saito/Arquivo Pessoal

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

02/12/2020 04h00

Moradores das zonas norte, oeste e da região central do Rio e de cidades da Baixada Fluminense sofrem há 15 dias com falta d'água. O problema afeta ao menos 20 bairros da capital, além de Nilópolis e Nova Iguaçu, segundo levantamento feito pelo UOL.

O restabelecimento pode levar 20 dias, estima a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos). Em meio à pandemia do novo coronavírus, moradores relatam gastos com caminhões-pipa e banho com água mineral. O problema ocorre porque um motor da Elevatória do Lameirão —que distribui água para a capital e Nilópolis— apresentou defeito, o que levou à redução da capacidade de abastecimento.

Morador do Parque Anchieta, na zona norte, Thiago Azevedo, 32, disse que dividirá com cinco vizinhos os custos de carros-pipa. Após duas semanas com as torneiras secas, o promotor de merchandising disse ter gasto R$ 200 com quatro caminhões de água.

Caiu a primeira parcela do 13º salário e já guardamos para caminhão-pipa. São 15 dias sem água e a conta da Cedae chegou aqui para ser paga em janeiro. Valor de R$ 600. Eu tenho uma bebê de cinco meses e não posso ficar sem água

Thiago Azevedo, morador do Parque Anchieta

A família está usando água mineral para cozinhar, enquanto o que tem na caixa d'água é dedicado à higiene pessoal e limpeza. "Quando fazemos número 1 [xixi] deixamos lá, nem damos descarga toda hora", contou.

De acordo com Azevedo, essa é a segunda crise de água que vivencia no bairro onde mora há 15 anos —a primeira ocorreu também em 2020, quando a Cedae atribuiu ao composto orgânico geosmina o fornecimento de água com cor e sabor alterados.

A fotógrafa Alini Motta, 29, diz que a falta d'água, além de prejudicar o dia a dia, compromete a renda da família. Ela tem um estúdio em casa, onde fotografa grávidas e crianças.

"Essa falta d'água está atrapalhando meu atendimento. Como posso receber meus clientes sem garantir a higiene? Ainda mais em um período de pandemia? Eu não consigo trabalhar."

Também moradora do Parque Anchieta, ela afirma que a última vez que tomou banho em casa foi em 15 de novembro. Desde então, vai até o imóvel do pai em um bairro vizinho.

"Eu chego a colocar o relógio para despertar durante a madrugada para conferir as bicas. Esperança de entrar alguma água e conseguir armazenar um pouco, mas não cai uma gota", diz ela, que está em fase de amamentação de um bebê de três meses.

Em Realengo, na zona oeste, Nilce Auxiliadora, 54, disse que os dois filhos adolescentes tomam banho com água mineral e utilizam lenço umedecido ao longo dia. Também há 15 dias sem água, ela fala em "falta de humanidade" e "vontade de chorar todos os dias" ante o desabastecimento.

"Uma garrafa de água mineral de 1,5 litro para cada um tomar banho. Ao longo do dia, usamos lenço com álcool 70º para higienizar as mãos. Escovar os dentes só de manhã e à noite para economizar água", relata.

No bairro Rosa dos Ventos, em Nova Iguaçu, Priscila Saito, 39, afirma que, em razão da falta d'água, precisa comprar quentinhas. Desempregada, ela diz que não sabe como dar conta da nova despesa. "Compro duas quentinhas: para mim, meu filho que vai fazer quatro anos e meu pai que é idoso. A gente come metade da quentinha no almoço e a outra metade na janta."

O que diz a Cedae

A Cedae informou que um dos motores da Elevatória do Lameirão, no bairro de Santíssimo, zona oeste do Rio, apresentou defeito e precisou ser removido para reparo. Por isso, a galeria passou a operar com capacidade de abastecimento de 75%, o que compromete a distribuição de água para a capital e Nilópolis.

Segundo a companhia, a galeria fica a 64 m abaixo do nível da rua —o equivalente a um prédio de 20 andares— e o motor, que precisou ser retirado, pesa 35 toneladas.

"O serviço é complexo e pode durar cerca de 20 dias. Lamentamos muito os transtornos causados. Estamos trabalhando sem parar para normalizar o abastecimento de água", diz a Cedae.

A água é captada no rio Guandu e bombeada para a estação de mesmo nome, onde passa por tratamento. Os 3,5 bilhões de litros diários produzidos na ETA-Guandu fluem para dois subsistemas —o Marapicu e o Lameirão. Este último recebe 50% da água tratada no Guandu que é responsável pelo abastecimento da capital e Nilópolis.

Para minimizar os impactos da redução no Rio e Nilópolis, a empresa faz manobras de revezamento de água, o que justifica a falta de água em municípios não abastecidos pela Elevatória do Lameirão.

Áreas afetadas

A Cedae publicou em seu site um mapa das áreas potencialmente afetadas, com atualização diária (https://www.cedae.com.br/economizeagua).

Ontem, as localidades destacadas foram 20 bairros da zona oeste do Rio, um na zona norte, além de quatro cidades da Baixada Fluminense.

São eles: Santa Cruz, Campo Grande, Santíssimo, Senador Camará, Senador Vasconcelos, Vargem Grande, Vargem Pequena, Pontal do Recreio, Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca, Camorim, Curicia, Cidade de Deus, Pechincha, Freguesia, Gardênia Azul, Itanhangá, Barrinha, Joá, na zona oeste, e também o bairro da Tijuca, na zona norte.

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