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Mirtes: 'Estou revoltada porque pai do Miguel não pôde entrar na audiência'

Mirtes Renata Souza, mãe do menino Miguel Otávio, de 5 anos, que morreu ao cair de um prédio de luxo no Centro do Recife - Reprodução/TV Globo
Mirtes Renata Souza, mãe do menino Miguel Otávio, de 5 anos, que morreu ao cair de um prédio de luxo no Centro do Recife Imagem: Reprodução/TV Globo

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

03/12/2020 18h31Atualizada em 03/12/2020 21h53

Mirtes Renata de Souza Santana, mãe do menino Miguel, afirmou estar revoltada porque o pai da criança, Paulo Inocêncio da Silva, foi impedido de acompanhar a audiência de instrução sobre o processo da morte do garoto, realizada hoje na 1ª Vara de Crimes Contra a Criança e o Adolescente da Capital, no Cica (Centro Integrado da Criança e do Adolescente), na área central do Recife.

Miguel morreu ao cair do 9º andar de um dos prédios de um condomínio de luxo na capital pernambucana, no dia 2 de junho. Mirtes era empregada doméstica e conta que saiu para levar o cachorro dos patrões para passear. Ela deixou o filho sob os cuidados da então patroa, Sarí Mariana Gaspar Côrte Real, primeira-dama do município de Tamandaré (PE). Sarí deixou a criança sozinha no elevador. Segundo a perícia policial, Miguel saiu do 5º para o 9º andar e, de lá, escalou uma janela e caiu. O inquérito policial foi finalizado em 1º de julho.

Mirtes conversou com a reportagem do UOL com exclusividade, após ser ouvida hoje pelo juiz José Renato Bizerra, titular da 1ª Vara de Crimes Contra a Criança e o Adolescente da capital.

"Estou revoltada porque o pai de Miguel não pôde entrar, mas o pai e a mãe de Sérgio [Hacker] entraram", relatou Mirtes, citando Sérgio Hacker (PSB), prefeito do município e marido de Sarí. Hacker tentou se reeleger prefeito nas eleições deste ano, mas perdeu.

Mirtes questionou o porquê de os pais do prefeito Hacker terem tido acesso ao Cica, enquanto Paulo Inocêncio teve a entrada negada. Segundo ela, os pais de Hacker e sogros de Sarí se mantiveram o tempo todo acompanhando a audiência. O advogado de Mirtes explicou que a audiência não era restrita, mas o acesso estava sendo controlado por conta da pandemia da covid-19.

A assessoria de comunicação do TJPE (Tribunal de Justiça de Pernambuco) informou ao UOL que só foi permitida a entrada no fórum das partes e advogados do processo. "O pai de Miguel não foi arrolado como testemunhas, não participou da audiência. Não confirmamos a entrada dos pais de nenhuma parte nas dependências do prédio, a não ser aquelas arroladas como testemunhas", disse em nota.

Ré por abandono de incapaz

Sarí se tornou ré pelo crime de abandono de incapaz com resultado morte, com dois agravantes, que são crime cometido contra criança e em meio a calamidade pública, que é a pandemia do novo coronavírus.

Mirtes disse que sua ex-patroa estava Cica hoje, mas não teve contato com ela, pois ficaram em salas separadas. A avó de Miguel, Martha Alves Santana, acompanhava a filha, pois é uma das testemunhas arroladas pela acusação.

A mãe de Miguel contou que prestou depoimento ainda no período da manhã e que a ouvida durou cerca de 30 minutos. "Para mim, [o depoimento] foi tranquilo. Só falei a verdade, e nada além da verdade", disse ao UOL, nesta tarde.

Sarí não depôs hoje

Foi concluída no final da tarde de hoje, no Cica, a primeira audiência de instrução do caso Miguel. Ao contrário do que se previa, Sarí Côrte Real não foi interrogada hoje. O TJPE irá marcar uma nova data para a oitiva da ré. Além dela, falta falar em juízo uma testemunha de defesa.

Foram convocadas nove testemunhas de acusação, indicadas pelo MPPE (Ministério Público de Pernambuco). Mas somente oito foram ouvidas na 1ª Vara de Crimes contra a Criança e o Adolescente da Capital, localizada dentro do Cica. O MPPE desistiu da nona testemunha, que seria ouvida por meio de videoconferência. A defesa concordou com a retirada.

Da defesa, foram arroladas nove. Quatro foram ouvidas em juízo nesta quinta-feira e outras quatro irão depor por carta precatória - segundo o TJPE, isso acontece quando há "testemunhas ou partes processuais que residem em outra comarca, de cidades ou estados diferentes". A nona, que também é testemunha de acusação, irá depor presencialmente como defesa na mesma data do interrogatório de Sarí.

Antes de iniciar a audiência, familiares, amigos e pessoas ligadas a movimentos sociais e direitos humanos realizaram uma manifestação pacífica na frente do Cica. A Polícia Militar enviou 16 policiais para ficar no local para conter possíveis tumultos.

Em entrevista ao programa Fantástico, da rede Globo, em julho, Sarí Côrte Real disse ser alvo de perseguição e afirmou ter medo de ser linchada.

"Terríveis [os dias]. Vivo no psiquiatra, preciso de remédio para dormir. As pessoas me julgaram antes mesmo de a Justiça me julgar, não tive nem tempo de me defender. Hoje eu não posso sair na rua, tenho medo de ser linchada. Não posso correr, não posso fazer nada. Eu, hoje, estou numa prisão dentro da minha casa", relatou.

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