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"Faço terapia até hoje", diz vítima de golpe da sedução; perdeu R$ 30 mil

Iracema de Cássia, vítima de golpe virtual - Arquivo pessoal
Iracema de Cássia, vítima de golpe virtual Imagem: Arquivo pessoal

André Aram

Colaboração para o UOL, em Niterói (RJ)

03/01/2021 04h00

A cozinheira industrial Iracema de Cássia, 54, era uma mulher de muitos sonhos, dentre eles, fazer um curso de culinária na França e também casar-se, ter uma família. Há pouco mais de um ano, ela imaginou ter encontrado o grande amor de sua vida pela internet, o namoro virtual perfeito se tornou um pesadelo quando ela se viu vítima de um golpe popular com origens no norte da África, que já enganou milhares de mulheres no Brasil: o golpe da sedução.

No passado, a prima de Iracema havia se casado com um polonês e vivia fora do país há anos, o que colaborou para que a mineira acreditasse que tudo aquilo pudesse ser real.

É sempre doloroso quando tenho que tocar nesse assunto, ainda vou ao psicólogo, mas temos que ter força para seguir em frente
Iracema de Cássia

A mineira relata que tudo começou quando recebeu, por meio do Facebook, um pedido de amizade de uma pessoa que seria um americano na faixa dos 50 anos chamado Charles Harris, que dizia ser de Boston.

O papo evoluiu do Facebook para o Whatsapp, logo nas primeiras conversas, Iracema se recorda dele ter perguntado quais eram os sonhos dela, uma tática comum dos scammers (fraudadores em tradução livre), que iludem mulheres enfatizando aquilo que elas sonham realizar: casar-se, constituir uma família e ter um futuro juntos.

Na ocasião, a mineira estava morando na casa da irmã em Conselheiro Lafaiete, em Minas Gerais, em que ajudava a cuidar da mãe com câncer, e aguardava uma decisão da Justiça envolvendo uma indenização trabalhista.

As conversas virtuais se tornaram longas e diárias, o americano se dizia militar em missão no Afeganistão, enviou fotos, porém nunca vídeo chamada.

"Após muitas conversas, ele confessou que havia gostado muito de mim e queria vir para o Brasil, mas que estava em missão estrangeira, e que precisava se casar de novo para ter férias. Aceitei o pedido feliz, ele disse então que enviaria uma encomenda para o Brasil, que seria as nossas alianças e uma quantia para comprar uma casa para gente. Aceitei, até porque ele havia dito que viria por uma empresa de confiança chamada Skynet Expresse".

Seria o início de um pesadelo na vida da mineira que a assombra até hoje.

Uma bola de neve em taxas

Os fatos foram acontecendo de forma simultânea, quando a família da mineira descobriu o relacionamento virtual e tentou alertá-la, ela já estava apaixonada.

Paralelo a isso, a ação na Justiça havia saído, e Iracema havia acabado de receber em torno de R$ 30 mil. A suposta encomenda havia sido enviada para ela: "ele me enviou o código de rastreamento, e eu fui acompanhando o trajeto dela, até que um dia chegou o aviso que o pacote estava já na alfândega e que para liberá-lo, teria que pagar uma tarifa".

Troca de mensagens entre Iracema e o golpista - Reprodução - Reprodução
Troca de mensagens entre Iracema e o golpista
Imagem: Reprodução

A taxa para liberar a encomenda retida no aeroporto de São Paulo logo se tornou uma sucessão de encargos sem fim, indo de R$ 3.000 a R$ 10 mil, enquanto isso, o estado de saúde da mãe de Iracema piorava, fazendo com que ela desse um basta nos pagamentos contínuo das taxas intermináveis e usasse o dinheiro para o tratamento.

De acordo com o psicanalista Gregor Osipoff, na maioria das vezes, não existe uma conexão visual, por câmera e, por estar envolvida demais, a vítima esquece da importância de se conhecer pessoalmente a outra pessoa.

"Estes golpistas vão se envolvendo, atraindo e fazendo com que a vítima vá se enrolando cada vez mais nessa teia do amor. Ela realmente acredita que isso é uma compensação da vida e fica surda e cega para as opiniões e alertas dos familiares e amigos, que em troca de uma efetiva atenção e promessa de um amor puro e verdadeiro, aceitam com naturalidade", explica Osipoff.

Iracema relata as pressões que sofreu quando cessou o pagamento das taxas: "foi aí que começou o inferno no Whatsapp, ele dizia que tinha que retirar a encomenda da alfândega, pois havia documentos dele também, mas eu respondia que não tinha mais dinheiro. Ele enviava fotos da Polícia Federal abrindo a (suposta) encomenda, áudios aos berros em inglês pedindo para não deixar a mala com eles, que a filha dele estava em um internato e queria me conhecer, e uma mulher chamada Cristina, me ligava todos os dias me cobrando e dizendo que havia entregue meu caso para Polícia Federal. Foi um inferno, quase fiquei doida", conta a cozinheira.

Ao saber sobre o estado de saúde da mãe de Iracema, o golpista afirmou que poderia levá-la para um hospital nos Estados Unidos, onde ela teria melhores tratamentos e poderia ser curada.

Iludida com a promessa de que o militar americano viria para o Brasil para resolver a pendência da encomenda e buscar médicos para a sua mãe, a mineira mais uma vez cedeu a lábia, e transferiu quase R$ 5.000 para a passagem aérea dele, dessa vez a quantia foi para uma conta bancária em Los Angeles, segundo ela.

"Parecia tão verdadeiro por causa do rastreamento do pacote, que até a minha irmã começou a acreditar, meu irmão desconfiou que seria um golpe, mas eu não quis acreditar, eu queria salvar a minha mãe".

A mãe de Iracema morreu pouco tempo depois, e ela não tinha nem mesmo dinheiro para o funeral. A mineira estima ter perdido em torno de R$ 32 mil, sendo a maior parte com as infinitas taxas, uma fração foi usada no tratamento da mãe, e por último a passagem aérea cujo dinheiro havia sido emprestado na época por uma vizinha.

Acreditei nele, gostei dele, e ele tinha prometido se casar se eu tirasse ele do sofrimento da guerra. Quando finalmente caí na real, queria me suicidar, foi horrível, mas me apeguei a Deus e tô vivendo. Esse homem me iludiu e destruiu todos os meus sonhos, de ter uma casa, de ter uma família e da minha mãe curada. Foram as promessas que ele fez
Iracema de Cássia

Segundo o psicanalista, esta busca cega virtual passa pela carência, mas não necessariamente é apenas isso: "envolve outros fatores muito importantes como autoestima, possível desilusão anterior e, em outros casos, a procura de uma situação milagrosa, em um momento de fragilidade da mulher, onde o absurdo se torna normal na cabeça dela".

Apesar de ter feito um boletim de ocorrência, Iracema diz não ter dado em nada. Logo depois, ela se mudou para a casa de um tio em outra cidade no norte de Minas Gerais, onde deu continuidade ao tratamento contra a depressão.

Hoje, Iracema trabalha fazendo curau, com o milho que é cedido pela sua cunhada que tem um sítio na região. Apesar de ter perdido o dinheiro no golpe da sedução, ela não perdeu a esperança de se casar.

No ano que vem, ela se prepara para viver ao lado do noivo, que desta vez conheceu pessoalmente este ano na igreja que frequenta, juntos irão viver em Jaíba, município de 38 mil habitantes localizado a 625 km de Belo Horizonte. Iracema não usa mais o Facebook, e dedica as suas outras redes sociais somente para divulgar a venda de curau.

Falsa namorada virtual aplica golpe financeiro na internet

AFP

Como agem os golpistas do amor

Os scammers são operadores da máfia de golpes virtuais sediada na maioria das vezes no norte do continente africano, criam perfis falsos nas redes sociais e aplicativos de namoro (também apps de idiomas) se passando por estrangeiros com boas condições financeiras a procura de um novo amor, sendo comum o argumento que estão em missão de paz em países que estão em conflitos de guerra como Síria e Afeganistão.

Após cativar a vítima, declarando-se apaixonados e propondo relacionamento sério e casamento, entra em prática a segunda parte do plano, que seria a promessa de envio de bens diversos, tais como: dinheiro em espécie, joias, presentes, anéis de noivado etc do exterior por via postal, por isso a artimanha também foi apelidada de 'golpe do pacote'.

A vítima (envolvida emocionalmente) é então informada pelo amante que a encomenda (que não existe) está retida no aeroporto e que para ter acesso a ela, é necessário pagar algumas taxas "alfândegarias", por meio de uma conta corrente de pessoa física.

Uma vez que a vítima deposita o valor solicitado, o golpista alega problemas para a liberação da encomenda, exigindo o pagamento de mais uma taxa para resolver o empecilho, dando início a uma avalanche de incontáveis taxas até esgotar os recursos financeiros da vítima ou ela perceber que caiu em um golpe, mas até isso acontecer, uma alta soma já foi perdida. Durante a etapa da extorsão, o scammer costuma enviar pela internet documentos falsos e prints de transações que supostamente "comprovariam" que o pacote encontra-se no Brasil. Tudo fake.

Para o psiquiatra Lucas Bifano, o criminoso se apresenta como um príncipe encantado, que só existem nos contos de fadas. "Eles, que na maioria das vezes são frios, calculistas e até com certo grau de psicopatia, estabelecem um vínculo afetivo e acaba suprindo as necessidades da vítima. A mulher sente prazer ao conversar com o criminoso e se abre para ele. E a partir daí, começam as chantagens emocionais, físicas, psicológicas, mentais, afetivas e financeiras", alerta Bifano.

Ao contrário de Iracema, a maioria das vítimas preferem esconder da família, temendo as críticas, julgamentos, a vergonha, além de dívidas enormes. "O resultado disso são transtornos pós-traumáticos, inibição feminina com qualquer relação que ela possa ter, por sempre achar que alguém irá abusar dela", conclui o psiquiatra.

O que fazer se for vítima

Ao ser vítima de um Don Juan virtual, ou mesmo desconfiar de suas intenções, bloqueie a pessoa e denuncie para o site ou aplicativo para que o perfil seja averiguado e deletado, caso seja constatado se tratar de um golpista.

Recomenda-se notificar às autoridades policiais para registrar um boletim de ocorrência e reúna prints das conversas, comprovantes de depósitos efetuados para fins de identificação do acusado.

As mulheres não são a única vítima, há também homens que foram enganados por imagens de belas jovens em busca de um grande amor, em que atrás da tela de um computador esconde-se provavelmente alguém do sexo masculino de origem magrebina (região do norte da África).

A empresa SkyNet Worldwide emitiu um comunicado em seu site oficial alertando a respeito do mau uso do termo "Skynet" utilizado pela fictícia 'Skynet Expresse', a mesma que Iracema cita na matéria, e que segundo ela, passou confiança por ter o código de rastreamento do objeto.

Criada em 2011 no Facebook, a página intitulada Crystal Brasil se tornou uma referência quando o assunto é o golpe da sedução, desmascarando scammers, alertando mulheres e ao mesmo tempo servindo como um grupo de apoio para aquelas que foram enganadas, iludidas pelo desejo de ter um amor, onde apenas encontraram desilusão e danos financeiros.

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