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RJ: com ações policiais restringidas na pandemia, tiroteios em favelas caem

Policiais do Bope fazem operação em comunidade do Rio de Janeiro - Reprodução/ Facebook
Policiais do Bope fazem operação em comunidade do Rio de Janeiro Imagem: Reprodução/ Facebook

Igor Mello

Do UOL, no Rio

09/01/2021 12h01

Os moradores de favelas da região metropolitana do Rio de Janeiro conviveram menos vezes com o som de tiros em 2020, apontam dados do Laboratório de Dados sobre Violência Armada Fogo Cruzado, obtidos com exclusividade pelo UOL. A decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de restringir as operações policiais durante a pandemia, e a própria covid-19 fizeram com que o número de registros de disparos de arma de fogo em comunidades caísse 43,5% no ano passado.

A plataforma computou 2.482 registros de disparos de arma de fogo em favelas, contra 4.391 em 2019. Após 4 de junho, quando o ministro Edson Fachin tomou a primeira decisão que restringia operações policiais em comunidades do Rio, houve uma média de pouco mais de 5,4 registros de tiros na Região Metropolitana. Antes da decisão, esse índice chegava a 8,7 confrontos por dia.

O relatório também revela que proporcionalmente o número de tiroteios em áreas dominadas por milícias no Rio de Janeiro caiu em 2020. Durante todo o ano passado, apenas 10% dos confrontos em áreas dominadas por grupos criminosos ocorreram em áreas de milicianos —patamar menor que em 2019, quando esses territórios correspondiam a 17% do total.

Já os tiroteios nos domínios das principais facções de tráfico de drogas se tornaram ainda mais relevantes. Os territórios do CV (Comando Vermelho) concentraram 67% dos tiroteios em 2020, frente a um índice de 53% no ano anterior. Já em comunidades dominadas pelo TCP (Terceiro Comando Puro), o patamar mais que dobrou: de 10% do total em 2019, para 21% em 2020.

Em janeiro de 2019, o UOL revelou no especial A mão invisível da milícia que a ação das polícias Civil e Militar eram decisivas para esse fenômeno: apenas 3% dos tiroteios com participação de agentes de segurança ocorria em áreas de milícia no Rio —esses grupos paramilitares dominam mais de 40% do território da capital.

Para o sociólogo João Trajano Sento-Sé, coordenador do LAV (Laboratório de Análises da Violência) da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o fato de os confrontos armados como um todo terem caído após a decisão do STF não surpreende, e mostra que a ação das polícias no Rio multiplica a violência, em vez de combatê-la.

Segundo Daniel Hirata, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e coordenador do Geni (Grupo de Estudos Novos Ilegalismos), que acompanha a dinâmica dos grupos criminosos no estado, os dados revelam uma ação seletiva sobretudo da Polícia Militar no combate ao crime —cujo foco no CV acaba por favorecer a expansão das milícias.

"Há um padrão muito frequente, com um volume muito grande de operações em áreas do Comando Vermelho. No momento em que aquele território é conquistado pela milícia isso para. É um grande indicador de que há um favorecimento e seletividade bastante evidente das polícias", critica.

Hirata pontua ainda que a pandemia de covid-19 e as medidas de isolamento social implantadas no primeiro semestre também impactam na redução de tiroteios.

"A pandemia tem um impacto sobretudo nos chamados crimes de oportunidade, como determinados tipos de roubo e furto. Se tem menos gente circulando na rua, existem menos oportunidades para esse tipo de crime. E, como consequência, menos casos de latrocínios ou confrontos armados", ressalta.