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Defesa de réus de chacina tenta desacreditar mães de vítimas, diz defensora

Zilda Maria de Paula (à esq.), líder das mães de Osasco e Barueri, conversa com Josiane Amaral, filha da vítima Joseval Silva - Marcelo Oliveira/UOL
Zilda Maria de Paula (à esq.), líder das mães de Osasco e Barueri, conversa com Josiane Amaral, filha da vítima Joseval Silva Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

25/02/2021 14h56Atualizada em 26/02/2021 10h26

A defesa do ex-policial militar Victor Cristilder e do guarda civil municipal de Barueri Sergio Manhanhã juntou ao processo um vídeo e 122 páginas de prints de postagens publicadas em uma rede social pela líder das mães das vítimas da chacina de Osasco e Barueri, a aposentada Zilda Maria de Paula, 67.

Para a defensora pública Maíra Coraci, que atua como assistente de acusação e defende os interesses das mães das vítimas no processo, a defesa dos réus tenta desqualificar o testemunho de Zilda no novo júri da chacina, ocorrida em agosto de 2015, que está em andamento nesta semana no Fórum de Osasco.

"Os advogados estão tentando desacreditar a dona Zilda por ela ter apoio das Mães de Maio, organização que ele tenta desqualificar ao usar no processo um vídeo antigo em que uma promotora acusa sem provas o movimento de ligação com o tráfico de drogas", disse a defensora ao UOL.

O Mães de Maio é um movimento que reúne as mães das mais de 500 vítimas dos "crimes de maio" assassinatos praticados pelo PCC contra agentes de Estado e por agentes de Estado contra civis como revide às mortes de policiais e bombeiros após atentados da facção criminosa em maio de 2006.

Aposentada criou movimento pela memória e justiça para vítimas da chacina

Dona Zilda, como é conhecida a aposentada, é mãe de Fernando de Paula, morto aos 34 anos, no bar do Juvenal, em Osasco, local que concentrou a maior quantidade de vítimas fatais da chacina.

Fernando era seu único filho, e Zilda reuniu as mães de vítimas do bairro Munhoz Júnior, e através de mobilização social e apoio de outras entidades, como a Geledés e o movimento Mães de Maio, ela busca por justiça e pela memória das vítimas da chacina com outras mães, viúvas e filhos dos 17 mortos e 7 sobreviventes da chacina de Osasco e Barueri.

As 122 páginas de prints de postagens de Zilda no Facebook e o vídeo integram 20 mil páginas de documentos que foram juntadas pela defesa dos réus desde que Cristilder foi absolvido em outro júri, em Carapicuíba. Os posts mostram Zilda com jornalistas, pedindo o apoio de autoridades participando de atos. Numa foto (abaixo), ela está com a bandeira das Mães de Maio.

O advogado João Carlos Campanini, que defende Cristilder e Manhanhã, confirmou ao UOL que inseriu as postagens no processo, mas disse que só comentará por que adotou essa estratégia após os debates entre acusação e defesa.

Postagem de Zilda Maria de Paula, líder das mães de Osasco e Barueri, utilizada pela defesa de Cristilder e Manhanhã no julgamento - Reprodução - Reprodução
Postagem de Zilda Maria de Paula, líder das mães de Osasco e Barueri, utilizada pela defesa de Cristilder e Manhanhã no julgamento
Imagem: Reprodução

Para a defensora, o advogado dos réus constrangeu Zilda em plenário e tentou desestabilizá-la ao usar os posts do Facebook quando ela deu seu depoimento aos jurados.

"Só de ter entrado no Facebook dela e tê-la constrangido na frente dos jurados foi muito triste, de fazer pouco de tudo que ela passou, menosprezando a luta dela e deixei isso claro pros jurados durante o depoimento da dona Zilda", afirmou a defensora.

Zilda disse que, independentemente do resultado do júri, ela vai manter a luta das mães das vítimas da chacina.

"Eu fui espremida [pelo advogado] lá dentro, mas faz parte. Nós lutamos com nossas armas e eles com as deles", afirmou ao UOL após prestar seu depoimento na terça-feira (24).

Ela contou que chorou no depoimento, mas por ter revivido a chacina. "A gente revive tudo, foi como se estivesse vendo de novo o corpo do meu filho ali no bar", disse. "Somos apenas um pequeno grupo de mães e testemunhas. Nossa expectativa é por justiça, por todo esse sangue derramado", afirmou

No quarto dia do julgamento em Osasco réus são interrogados e começam debates

O terceiro júri da chacina de Osasco é resultado de um recurso de Cristilder e Manhanhã contra suas condenações pelo crime, nos júris anteriores, em 2018 e 2017, respectivamente. O Tribunal de Justiça de São Paulo entendeu que, em parte, os jurados decidiram de forma contrária aos autos, anulou a condenação de ambos e provocou a realização do novo júri, que começou na última segunda.

Em 2018, Cristilder recebeu uma pena de 119 anos. Em 2017, Manhanhã foi condenado a 110 anos de prisão.

O ex-policial Victor Cristilder, sentado, de muletas, aguarda para ser interrogado no Fórum de Osasco - Divulgação/Tribunal de Justiça de São Paulo - Divulgação/Tribunal de Justiça de São Paulo
O ex-policial Victor Cristilder, sentado, de muletas, aguarda para ser interrogado no Fórum de Osasco. Ao centro, sentado, o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira; de pé, seus defensores
Imagem: Divulgação/Tribunal de Justiça de São Paulo

O quarto e mais longo dia do julgamento durou 12h40. Começou com o interrogatório do ex-PM Cristilder, expulso da corporação em 2019. Em seguida foi ouvido Manhanhã. O ex-PM foi interrogado por quase três horas, das 10h30 às 13h25. Às 14h15 começou o interrogatório de Manhanhã, que terminou às 16h55.

Após os interrogatórios, o júri entrou na fase de debates, que começou às 17h30 e terminou às 23h10.

A réplica e a tréplica dos debates ficaram para o quinto dia de julgamento. Ao final dos debates, o conselho de sentença (jurados) se reunirá para votar os quesitos e apresentar o veredito à juíza, que divulga o resultado e calcula a pena, em caso de condenação. A previsão é que o veredito seja conhecido somente amanhã (26).

A entrada da imprensa no julgamento foi vetada pela juíza Élia Kinosita, que preside o júri, sob a alegação da pandemia de covid-19.

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