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'Não quero morrer', foi a última mensagem de professora com covid

Jenny era professora de Língua Portuguesa e deixou mensagem final em grupo de professores de escola - Rafael Matos Ataíde/Arquivo pessoal
Jenny era professora de Língua Portuguesa e deixou mensagem final em grupo de professores de escola Imagem: Rafael Matos Ataíde/Arquivo pessoal

Jean Sfakianakis

Colaboração para o UOL, em São Paulo

09/04/2021 16h12

A professora Jenny Teixeira Guimarães, de 33 anos, morreu após uma parada cardíaca causada por complicações da covid-19, na quarta-feira (7), em Goiânia (GO).

Antes de ser intubada, ela desabafou com amigos em um grupo de WhatsApp sobre seus medos com a doença: "Eu não quero morrer", escreveu a jovem, naquela que foi sua última mensagem antes de ser sedada.

Rafael Matos Ataíde, de 35 anos, namorado de Jenny com quem ela teve duas filhas, opinou que a morte do pai da professora no domingo de Páscoa, também por conta da covid, foi o maior motivo para ela não ter forças para lutar contra a doença.

"No domingo de Páscoa ela piorou muito, ela tem uma dependência emocional muito intensa com o pai, confiava demais nele, quando o pai dela morreu, ela desesperou. A saturação dela caiu", contou ele em entrevista ao UOL.

"Depois que ela foi intubada a saturação já melhorou, mas na madrugada o coração dela não aguentou", disse Rafael, que também contraiu covid, mas não apresentou sintomas.

Segundo pessoas próximas, Jenny era uma das professoras mais queridas da escola onde lecionava Língua Portuguesa.

"A Jenny era uma pessoa muito comunicativa, muito preocupada com os colegas, ela tinha uma boa relação com os alunos, se preocupava com o aprendizado, ajudava a fazer inscrições para o Enem, tinha amor pela profissão mesmo, disse Márcio Carvalho, coordenador do Colégio Estadual Professor Wilmar Gonçalves.

Além da mensagem dizendo que não queria morrer, momentos antes, a professora disse que não estava conseguindo levantar para ir ao banheiro porque não tinha força para respirar sem a ajuda de aparelhos. A declaração foi feita no grupo de professores da escola. A reportagem não obteve autorização para publicar o print.

Rafael Matos Ataíde tem duas filhas com Jenny - Rafael Matos Ataíde/Arquivo pessoal - Rafael Matos Ataíde/Arquivo pessoal
Rafael Matos Ataíde tem duas filhas com Jenny
Imagem: Rafael Matos Ataíde/Arquivo pessoal

"Ficamos muito tristes, ela manifestava sempre a indignação com essa situação que estamos vivendo, o fato de não termos vacina, ela compartilha uma lista de profissionais de educação que estão morrendo. Inclusive, ela foi a centésima da lista a morrer", concluiu o colega de Jenny, mencionando o número de profissionais de educação mortos pelo vírus em Goiás.

Os dados mencionados pelo diretor sobre os professores mortos são repassados em um grupo online, e editados por uma professora, mas não possuem envolvimento com a prefeitura de Goiânia, que é a responsável pelas estatísticas do coronavírus.

Rafael não sabe exatamente onde a mãe de suas filhas contraiu a doença, mas disse que cerca de duas semanas antes da morte, ela começou a sentir alguns incômodos. "Comprei alguns remédios, mas não chegamos a ir ao hospital. Mas ela começou a piorar e depois precisamos ir", disse.

A filha mais velha, Elizabete, de 7 anos, compreende que não irá mais ver a mãe, mas a menor, Rebeca, de apenas 4, ainda tem dificuldades para entender a situação.

"Somos muito religiosos, minha filha chega em mim e diz que a mamãe está no céu...", detalha Rafael.

Entre soluços e tentativas de completar a frase, ele faz um pedido: "Importante falar para as pessoas que é uma doença social, nós ficamos preocupados, doentes, as pessoas não entendem a gravidade, as pessoas não compreendem, isso é importante, manter o distanciamento, focar", concluiu.