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Jovem negro é baleado na cabeça por PM à paisana em ida a mercado em SP

Thiago Aparecido Duarte de Souza, de 20 anos, foi baleado na cabeça por um policial militar à paisana que alegou legítima defesa. Segundo a família, jovem iria comprar leite em mercado - Arquivo pessoal
Thiago Aparecido Duarte de Souza, de 20 anos, foi baleado na cabeça por um policial militar à paisana que alegou legítima defesa. Segundo a família, jovem iria comprar leite em mercado Imagem: Arquivo pessoal

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

11/04/2021 18h10

Um jovem negro com atraso intelectual foi baleado na cabeça por um policial militar à paisana enquanto estava a caminho de um mercado no Jardim Arantes, zona leste de São Paulo, onde compraria pão e leite na manhã desta quinta-feira (8), contam familiares.

Segundo testemunhas, Thiago Aparecido Duarte de Souza, de 20 anos, foi atingido por um disparo à queima-roupa após dizer que estava desarmado e se negar a deitar no chão. Contudo o caso foi registrado na delegacia pelo próprio atirador, o cabo Dênis Augusto Soares, 37, que alegou legítima defesa ao dizer que a vítima tentou sacar um revólver calibre 38.

Thiago está internado em estado grave no Hospital Geral de São Mateus sob custódia policial, já que foi preso sob a acusação de porte ilegal de arma de fogo. Uma arma foi apreendida e encaminhada ao 49º DP (São Mateus), que investiga o caso. Mas testemunhas negam que a arma tenha sido apreendida com Thiago.

O caso está sendo acompanhado pela Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio, movimento social de resistência a ações violentas em áreas periféricas, que recolheu vídeos da ação —o conteúdo foi encaminhado ao MP e à Defensoria Pública. Ao menos três testemunhas identificadas no local serão ouvidas nos próximos dias.

"As pessoas nas regiões vulnerabilizadas costumam se calar, por medo da opressão da polícia. A presença da Rede possibilita que essas pessoas que testemunharam a violência transformem o medo em resistência, a partir de uma relação de confiança", explica Marisa Feffermann, psicóloga e articuladora do movimento.

Nesta segunda-feira (12), representantes do movimento irão relatar o caso junto à corregedoria da Polícia Militar de São Paulo.

O desembargador plantonista Alberto Filho autorizou hoje o pedido de visita feito pelos pais de Thiago ao hospital onde o jovem está internado.

Como foi o caso

Thiago caminhava ao lado de um outro jovem quando foi abordado pelo PM à paisana, que ordenou que os dois se rendessem. Segundo testemunhas, o amigo de Thiago se deitou no chão. Mas Thiago seguiu em pé.

Um policial saiu gritando, de dentro do mercado: 'perdeu, ladrão'. O Thiago, por ter dificuldade de entender as coisas, ficou de pé, falando: 'eu não fiz nada, só vou entrar no mercado pra comprar o leite", contou a diarista Queli Duarte, 40, mãe do jovem baleado.

Em seguida, contam testemunhas, o policial à paisana o puxou pelo braço. Thiago, então, teria levantado a camisa para mostrar que não estava armado. "Aí, o policial colocou a arma no rosto dele. Por reflexo, ele tentou tirar a arma do rosto dele e o policial efetuou o disparo", relatou Queli. "O meu filho se assustou e o policial disparou pra matar mesmo. Eu só quero justiça", desabafou.

Policiais militares então chegaram no local informando que dois homens armados tinham rendido um motorista para roubar um veículo nas imediações. As informações foram incluídas na ocorrência. O jovem que caminhava ao lado de Thiago foi autuado por suspeita de participação no roubo do carro.

O que diz a SSP

Procurada pelo UOL, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) disse que está analisando as imagens coletadas no local e a conduta dos policiais envolvidos na ação.

"Todas as circunstâncias relativas aos fatos são investigadas por meio de inquérito", informou, por meio de nota.

Na ocasião, um homem de 27 anos foi autuado por roubo de veículo e outro de 20 anos, por porte ilegal de arma de fogo, na última quinta-feira, no bairro Iguatemi. Diligências e oitivas estão em andamento para o cabal esclarecimento dos fatos.

A reportagem não conseguiu localizar o policial militar à paisana para que ele pudesse dar a sua versão sobre o episódio.

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