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15 dias

Personagem da semana: Morte de Henry expõe relações de poder de Jairinho

8.abr.2021 - Dr. Jairinho é conduzido algemado após prisão no Rio - VITOR BRUGGER/AM PRESS & IMAGES/ESTADÃO CONTEÚDO
8.abr.2021 - Dr. Jairinho é conduzido algemado após prisão no Rio Imagem: VITOR BRUGGER/AM PRESS & IMAGES/ESTADÃO CONTEÚDO

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

10/04/2021 04h00

Com as mãos algemadas e a cabeça erguida, o vereador Dr. Jairinho dá cerca de 20 passos enquanto é conduzido por um inspetor em meio a jornalistas ao deixar a carceragem da Divisão de Capturas e Polícia Interestadual (Polinter), no Jacarezinho, zona norte do Rio. Já no banco traseiro de uma viatura da Polícia Civil, não esboça reação, enquanto cinegrafistas e fotógrafos encostam as lentes no vidro para registrar a cena.

O assassinato do menino Henry Borel em 8 de março revelou uma teia de relações de poder do parlamentar de 43 anos no âmbito da política e dentro de casa. Preso na quinta-feira (8) com a namorada Monique Medeiros, mãe do menino, em decorrência da investigação em que é suspeito da autoria do crime, ele tentou se beneficiar da sua influência política para atrapalhar as investigações, segundo a Polícia Civil.

Jairinho entrou em contato com um alto executivo da área de Saúde —que relatou o fato à polícia— para buscar a liberação do corpo de Henry sem exame no IML (Instituto Médico Legal).

"O fato de não querer fazer perícia quando tudo indica, apontado pelos médicos, que essa perícia teria que ser feita, isso denota preocupação de se livrar do corpo para que [ele] não pudesse ser periciado", disse ao UOL o promotor de Justiça Marcos Kac.

O vereador ligou até para Cláudio Castro (PSC), governador em exercício no Rio, sob o pretexto de "acelerar a burocracia".

A apuração policial também mostra que Jairinho exercia poder —e medo— na intimidade. Para a polícia, mensagens enviadas pela babá de Henry a Monique no dia 12 de fevereiro revelam uma rotina de agressões relatadas pelo próprio menino.

Mais do que isso: indica também alguém que intimidava não apenas Henry no apartamento na Barra da Tijuca, zona oeste carioca, onde morava com Monique e o menino desde novembro de 2020.

"Estou apavorada", escreve a mãe do menino para Thayná de Oliveira Ferreira, a babá do menino. "Bate na porta", orienta. A funcionária acabava de relatar à mãe de Henry, via WhatsApp, que Jairinho estava fechado no quarto com a criança.

"Fico com medo do Jairinho não gostar da invasão", responde a babá. Ao deixar o quarto, Henry relatou que o padrasto havia lhe dado uma rasteira e um chute. Leia as mensagens na íntegra.

Entre as lacunas da investigação, está o porquê de a mãe não ter denunciado o namorado pelas agressões contra o filho reveladas pela babá.

7.abr.2021 - Câmera de segurança mostra casal e Henry em elevador de prédio - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
7.abr.2021 - Câmera de segurança mostra casal e Henry em elevador de prédio
Imagem: Reprodução/TV Globo

Relação de dependência, diz Christian Dunker

A pedido do UOL, o psicanalista Christian Dunker analisou o vídeo gravado horas antes do crime, no elevador do prédio onde o casal morava na Barra da Tijuca. Nas imagens reveladas pela TV Globo, Jairinho passa as mãos nas costas e cabeça da criança, que estava no colo da mãe.

"É a mensagem clássica da disposição dos corpos. Há um constrangimento. Parece que a mãe não está à vontade com a situação. Pode ser um processo de intimidação, de medo. A mãe não está falando com o namorado [Jairinho]. Por que não?", observa Dunker.

O psicanalista comentou o poder que Jairinho exercia dentro de casa. "Essa situação está clara e é típica. É a relação amorosa sendo atravessada por uma relação de poder, de dependência, de submissão, de intimidação."

Mudança de vida de Monique

A relação de Jairinho e Monique fez com que a professora tivesse uma mudança social. Quando conheceu o parlamentar, em agosto de 2020, ela era diretora na Escola Municipal Ariena Vianna da Silva, em Senador Camará, zona oeste do Rio, e morava em Bangu com os pais.

Ela e o filho Henry se mudaram para um apartamento luxuoso do parlamentar três meses após o começo do namoro.

Indicada ao TCM (Tribunal de Contas do Município) pelo próprio namorado, ela passou a receber um salário de cerca de R$ 14 mil. Após ser presa, Monique foi exonerada do cargo e voltou para o órgão de origem —a Prefeitura do Rio.

Ex de Jairinho depõe

A polícia também investiga o histórico violento de Jairinho. A dentista Ana Carolina Netto, ex-mulher do vereador, prestou depoimento de ao menos cinco horas ontem (9) na 16ª DP (Barra).

Em janeiro de 2014, ela chegou a registrar uma ocorrência relatando ter sofrido agressões por parte do parlamentar. Ana Carolina tentou retirar a queixa, mas o laudo de corpo de delito confirma a violência. Como ela não deu prosseguimento à acusação, o caso foi arquivado.

Segundo a polícia, novos laudos devem ser concluídos nos próximos dias. Os investigadores irão analisar o conteúdo de dois celulares jogados pela janela por Jairinho e Monique no momento em que foram presos na casa de uma tia do parlamentar em Bangu, zona oeste carioca.

Por que babá mentiu?, questiona polícia

Segundo a polícia, a babá mentiu em depoimento ao descrever a relação familiar como harmoniosa e ao omitir o episódio de agressão em 12 de fevereiro. Ela é esperada para nova oitiva em que deve esclarecer o motivo.

O caso embasou o pedido de prisão temporária da mãe e do padrasto da criança, suspeitos de atrapalhar a apuração e de intimidar testemunhas.

Ainda que Jairinho e Monique estejam sendo investigados por homicídio duplamente qualificado —com emprego de tortura e recursos que impossibilitaram a defesa da vítima—, a polícia admite que os detalhes do assassinato nunca sejam conhecidos. Contudo, os investigadores entendem que há elementos suficientes para incriminar mãe e padrasto da vítima com base nas provas já colhidas.

A defesa do casal alega ilegalidade na coleta de provas e sustenta a tese de que havia uma relação familiar harmônica.

Herança de poder

Jairo Souza Santos Júnior, que herdou do pai o nome e o reduto político em Bangu, foi citado cinco vezes como chefe de uma milícia na região em um estudo conduzido entre 2007 e 2008 pelo Laboratório de Análise da Violência da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), segundo reportagem da Folha de S.Paulo.

Pai dele, o ex-deputado estadual e policial militar da reserva Coronel Jairo foi citado na CPI das Milícias —mas não chegou a ser indiciado por falta de provas. Ligado ao ex-governador Sérgio Cabral, foi um dos dez deputados presos por um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e loteamento de cargos públicos pela Operação Furna da Onça, em novembro de 2018.

De Crivella a Paes

Em uma live em outubro de 2020, Jairinho apareceu ao lado do ex-prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) para pedir votos em meio ao período eleitoral.

"A gente tem que dar o exemplo. E isso vai levando pros nossos filhos. O povo da zona oeste conhece o nosso trabalho. Sabe que os nossos valores e as nossas direções são de retidão", disse o parlamentar, que era líder do governo Crivella na Câmara dos Vereadores.

Descrito como observador, avesso a debates e bem articulado, mudou de lado e trabalhou a favor da candidatura de Eduardo Paes (DEM), eleito em 2020.

Jairinho ingressou na política em 2004. Com apenas 27 anos, foi o candidato mais votado com 24 mil votos pelo PSC (Partido Social Cristão). De lá para cá, foram cinco mandatos na Câmara Municipal do Rio. Na quinta-feira (8), o Solidariedade informou sua expulsão sumária da legenda.

O PSOL entrou na Justiça com ação que pede seu afastamento imediato da Câmara Municipal até a conclusão do Caso Henry.