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Conteúdo publicado há
1 mês

Jovem de 16 anos pediu para o ex respeitar término antes de morrer; ouça

Heloísa Barrense

Do UOL, em São Paulo

18/06/2021 13h12Atualizada em 18/06/2021 15h38

Thalya Hellen Moreira, a adolescente de 16 anos que foi encontrada morta na terça-feira (15) na zona oeste de São Paulo, na casa do ex-namorado, Thayan Alves, de 24 anos, pediu para que ele respeitasse a sua decisão do término do namoro em áudio enviado pelo celular da mãe.

Os dois estavam em um relacionamento há cerca de um ano e Thalya havia terminado com o homem dias antes da sua morte. Ele foi preso em flagrante e é investigado por feminicídio, violência doméstica e porte ilegal de arma de fogo com numeração raspada.

A mensagem de voz foi enviada no dia 11 de junho, quatro dias antes da morte da adolescente.

Mensagem - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Adolescente de 16 anos pediu para que ex-namorado respeitasse a decisão do término
Imagem: Arquivo pessoal

No áudio, obtido pelo UOL, Thalya pede para que o ex-namorado pare de enviar mensagens e afirma que não terminou a relação "à toa".

"Não fica mandando mensagem, eu já falei para você. Não tem nada de inimigo, não. Minhas coisas, tudo o que eu faço, eu uso Deus no meio. Eu não terminei com você à toa não, tá bom? Se Deus está mandando eu terminar, eu terminei. Não vem querer meter Deus, inimigo, essas coisas no meio não porque nada tem a ver com nada."

A jovem ainda diz que está "decidida" com o fim do relacionamento e pede para que Thayan respeite a sua decisão.

Eu não quero mais, eu já falei. Eu não estou te desprezando nem nada, eu estou decidida e pronto. Não quer dizer que uns dias atrás, meses atrás, eu não te amei. Eu te amo até hoje, mas eu não quero, sou uma pessoa decidida, entendeu? Eu quero pensar em mim agora, você tem que entender isso. É a minha escolha, tem que respeitar. Você é obrigado a respeitar. Eu não sou obrigada a viver o que você quer.

Em resposta, Thayan disse: "Eu sei disso, meu. Você não é obrigada a nada."

Ao UOL, o irmão de Thalya, Jeferson Moreira Alves, de 22 anos, contou que a adolescente visitou os avós na segunda-feira (14) e afirmou para a avó que Thayan havia dito que "se ela não ficasse com ele, não ia ficar com ninguém".

"Ele disse que ia matar os dois, ela e ele", contou Jeferson.

O primo dos irmãos, que estava na casa dos avós no momento, relatou que os dois já estavam discutindo momentos antes. "Ela foi no quarto falar com eles [avós], brincar com eles, e o Thaylan começou a mandar áudio", disse o irmão.

Jeferson contou ontem ao UOL que a adolescente queixava-se com frequência do seu relacionamento.

"A minha irmã reclamava muito para mim que ela se sentia sufocada, que ele prendia ela, não deixava ter contato com os amigos", disse. "Ele só deixava ela trancada e a minha irmã disse que não queria isso. Ela estava se distanciando da família, dos amigos. Trabalhava de segunda a sábado e ele tinha ciúmes até do trabalho dela."

Recentemente, Thalya havia conseguido um trabalho como manicure em um salão de beleza e, com o salário, queria ajudar a pagar as contas da casa e conseguir, futuramente, uma vaga em uma faculdade de odontologia. Segundo a mãe, Elissandra Moreira, de 37 anos, o sonho da filha era ser dentista.

"A minha irmã agiu por inocência. Ela foi conversar para ajudar, não sabia se ia ter um possível retorno eles dois, mas o que eu tenho para pedir é Justiça pela minha irmã", afirmou Jeferson.

O dia do crime

Na terça (15), o pai e a madrasta de Thayan Alves passaram na casa de Thalya para levá-la para conversar com o ex-namorado. No momento em que o carro chegou, Jeferson e a mãe não estavam em casa.

"Foi questão de minutos. Chegamos em casa, fomos fazer o jantar. Foi o tempo da minha mãe sentar na escada e a mulher ligar falando que aconteceu uma tragédia e desligar na nossa cara", afirmou Jeferson.

Antes do crime, Elissandra tentou impedir o encontro e afirmou que chegou a mandar mensagens para Thalya, mas desconfiou do tom das respostas.

"A minha filha falou para eu não ficar falando com ela, coisa que ela nunca tinha dito antes. Ela sempre passava as mensagens com carinho. Eu tenho certeza que não foi ela que escreveu", disse, em entrevista ao UOL.

Em nota, a SSP informou que o pai de Thayan disse que não sabia que o filho portava uma arma em casa.

Provas no celular

celular - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Família de adolescente acredita que celular pode ter provas sobre o crime
Imagem: Arquivo pessoal

A família agora busca tentar desbloquear o celular da adolescente, já que eles acreditam que o aparelho possua mais provas sobre o crime.

"A gente precisa de acesso às redes sociais, coisa que a polícia não nos deu suporte. Eles disseram que era algo que a gente deveria saber, porque é particular. Nos devolveram o aparelho e não quiseram desbloquear", informou Jeferson.

O irmão de Thalya ainda diz que, com o impacto, o aparelho foi danificado e que marcas de sangue podem ser vistas na tela. "É uma prova, deveria ter ficado com eles", defende.

O caso foi registrado pela 4ª DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), que autuou Thayan em flagrante.

Feminicídio é uma coisa que acontece muito. A gente acha que nunca vai acontecer na nossa família, que nunca vai chegar, mas infelizmente estava próximo. A minha irmã era uma menina tão doce, tão sensível, ingênua... Ela agiu por achar que estava segura com o pai e a madrasta [de Thaylan] e eles a levaram para a morte."

As investigações do crime seguem por meio de inquérito policial. Segundo a SSP-SP, a autoridade policial solicitou a prisão preventiva, que foi decretada pela Justiça.

O UOL entrou em contato com a SSP-SP para pedir um posicionamento a respeito do aparelho telefônico e foi informado que "outros detalhes não serão passados para preservar o trabalho policial."

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