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Rubens Valente

PMs admitiram ter estado na fazenda no dia dos desaparecimentos

Destacamento da Polícia Militar em Santa Carmen (MT) - José Medeiros/UOL
Destacamento da Polícia Militar em Santa Carmen (MT) Imagem: José Medeiros/UOL

Rubens Valente e José Medeiros

Colunista do UOL e colaboração para o UOL, em União do Sul (MT)

18/06/2021 04h00

Ouvidos pela Polícia Militar em inquérito aberto pela corporação, dois dos três policiais militares denunciados pelo Ministério Público como responsáveis pelo desaparecimento de seis homens na fazenda Promissão, em União do Sul (MT), reconheceram ter estado na propriedade no mesmo dia dos sumiços, mas negaram ter presenciado algum tiroteio ou cometido algum crime.

Quando intimados a prestar depoimento à Polícia Civil, contudo, os policiais usaram o direito de ficar em silêncio.

Procurado pelo UOL, o comando da PM de Mato Grosso afirmou em nota, na íntegra: "A Corregedoria da Polícia Militar de Mato Grosso relata que a situação envolvendo policiais militares é objeto de investigação pela PMMT, através de Inquérito Policial Militar, que, finalizado, foi encaminhado à Justiça Militar Estadual. Esclarece que os militares investigados encontram-se em atividades internas, à disposição da administração militar para responderem ao devido processo disciplinar".

A reportagem indagou onde os policiais atualmente trabalham, mas não houve resposta.

O UOL esteve no Núcleo da PM de Santa Carmen (MT) para poder ouvir a versão dos policiais denunciados — Evandro dos Santos, 47, João Paulo Marçal de Assunção, 32, e Roberto Carlos Cesaro —, mas nenhum foi localizado. Colegas do PM Marçal de Assunção disseram que ele está trabalhando na unidade e atua no "policiamento comunitário".

A reportagem também foi até o endereço indicado na investigação pelo sargento Santos como seu local de trabalho, um batalhão da PM de Várzea Grande (MT), na região metropolitana de Cuiabá, a 507 km de Santa Carmen. O sargento de plantão, contudo, disse que conhece "todos os sargentos" lotados no local, mas nunca ouviu falar de Santos e negou que ele lá trabalhasse.

O advogado de Santos e de Marçal, Ricardo da Silva Monteiro, disse que o sargento está lotado em uma das companhias vinculadas ao mesmo batalhão. Monteiro disse que seus clientes reiteram não ter cometido nenhum dos crimes pelos quais foram denunciados pelo Ministério Público. Ele disse que os PMs estiveram na fazenda, mas retornaram a Santa Carmen antes do horário indicado por outras testemunhas como o momento do início do tiroteio que antecedeu os desaparecimentos.

A advogada do PM Cesaro, Ana Paula Moura, também disse que seu cliente não cometeu os crimes e que "provará no momento certo", no curso do processo, sua inocência, com a apresentação de supostas provas de que não esteve na fazenda no dia 18 de abril de 2020. Ela disse que Cesaro não foi ouvido na investigação da PM porque está em licença, desde meados do ano passado, para tratamento de saúde. Teria problemas na coluna.

À investigação da Polícia Civil foram anexados os depoimentos que Santos e Marçal prestaram no inquérito policial militar aberto pela PM.

No depoimento prestado em julho em 2020, o sargento Santos reconheceu que foi procurado pelo fazendeiro Agenor Pelissa em 11 de abril de 2020, sete dias antes dos desaparecimentos, para fazer "rondas" nas "fazendas da região e na Promissão". Segundo o PM, a propriedade de um amigo de Pelissa foi assaltada no dia 13 e "os fazendeiros da região estavam bastante assustados com a possibilidade de ocorrer mais roubos nas fazendas da região".

O sargento disse que Pelissa voltou a pedir as rondas nos dias 18 e 19 na Fazenda Promissão, pois a propriedade estaria "sem funcionários" naqueles dias.

Confirmando outro trecho do depoimento do fazendeiro, o sargento disse que esteve com Pelissa em Sinop na manhã do dia 18 e recebeu de suas mãos a Ranger da fazenda, com o objetivo de realizar as supostas "rondas". Mas disse que não recebeu "algum tipo de vantagem em dinheiro ou não para a realização dessas rondas rurais". Porém, apesar de pegá-la com o fazendeiro, disse que a Ranger acabou não sendo usada nas "rondas". Ficou estacionada numa rua em Santa Carmen, disse o PM.

Santos disse que também recebeu "diversos informes através de transeuntes" sobre assaltos às propriedades rurais. Ele citou o nome de um homem como suposto envolvido — o nome citado não está entre os desaparecidos.

O sargento disse que, no dia dos desaparecimentos, primeiro ficou parado por quatro horas, das 10h30 às 14h30, numa rodovia estadual, no "entroncamento dos municípios União do Sul e Santa Carmen", perto da fazenda, tentando ver se esse suposto suspeito passaria por ali. Não passou. À tarde, pediu o apoio do colega PM João Paulo Marçal, que estava de plantão em Santa Carmen.

O sargento reconheceu que não houve "a comunicação do Escalão Superior da PMMT acerca destas diligências na Fazenda Promissão". A propriedade também não pertence à jurisdição da PM em Santa Carmen, onde ele estava lotado, e sim à da PM em União do Sul, conforme reconheceu no depoimento — disse que só soube disso depois.

Santos e Marçal então seguiram para a Promissão, segundo o sargento. Ali ficaram das 16h30 às 20h30, quando foram embora — cerca de uma hora antes do momento em que os seis homens desapareceram, segundo as outras testemunhas. Santos disse, porém, que "ninguém apareceu" na Promissão durante todo o tempo.

Esse trecho colide com o depoimento do caseiro da fazenda Carlos Alberto da Silva Carvalho, 54, conhecido como Paizinho. Ele declarou ter sido rendido, por volta das 13h, por dois homens "de roupa escura, com capuz na cabeça, portando armas longas". Foi então amarrado e levado a um quarto do alojamento, onde os raptores "ligaram o [aparelho] de som e aumentaram o volume".

Chacina fantasma - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

No caminho, Paizinho disse ter cruzado com outro funcionário, Naldinho, um dos seis atualmente desaparecidos e que supostamente também participou da tentativa de roubo. Naldinho também estava rendido e amarrado pelos invasores. Ele não voltou a ver Naldinho depois disso.

Santos disse, porém, que não havia ninguém na fazenda naquela tarde. Ele também declarou que não houve troca de tiros "no período em que estava no local". Disse que dormiu no quartel de Santa Carmen de sábado para domingo.

Argumentou que só ficou sabendo dos desaparecimentos no dia seguinte, 19, após um telefonema de um colega PM que queria saber se ele havia estado na Promissão um dia antes.

Em seu depoimento, o soldado PM João Paulo Marçal de Assunção afirmou que foi procurado pelo sargento Santos no núcleo da PM em Santa Carmen às 10h30 do dia 18. O sargento pediu para ser levado à beira de uma rodovia, onde Assunção deixou-o. Em seguida retornou a Santa Carmen. Ele não soube dizer "o motivo do porquê o sargento PM dos Santos ficou naquele local".

Às 15h, disse Assunção, o sargento tornou a aparecer no núcleo da PM e então "determinou" que o soldado "pegasse a viatura policial de Santa Carmen para a realização de rondas rurais". Disse que ambos ficaram na fazenda Promissão "até o anoitecer (por volta das 20h)", que fizeram dois deslocamentos "da parte interna da fazenda para a parte externa", até o "barracão das máquinas agrícolas", onde haviam estacionado o carro da polícia.

Marçal também disse que não viu ninguém na fazenda e que, quando chegaram, o portão da propriedade estava aberto. Disse que retornou, com Santos, para o quartel de Santa Carmen, onde trocou de turno com outro colega às 8h do domingo. Só depois soube do suposto tiroteio na Fazenda Promissão.

O advogado do fazendeiro Agenor Pelissa, Valdriangelo Samuel Fonseca, disse que o seu cliente foi contatado e não gostaria de falar com a reportagem sobre o assunto e que tudo o que ele disse no depoimento à Polícia Civil segue sendo a sua manifestação oficial. O advogado também preferiu não discutir aspectos da investigação.

Tudo que foi relatado consta do processo. [Não falarei do conteúdo] até para não ser excessivamente empolgado na defesa dele ou extremamente fora de um propósito da realidade dos fatos"
Valdriangelo Samuel Fonseca, advogado de Agenor Pelissa

O advogado afirmou que seu cliente ficou preso "seis ou sete dias", em agosto do ano passado, mas atualmente "não tem nenhuma restrição". Nunca teve antecedentes criminais, segundo o advogado, e respondeu a processo "por suposto crime ambiental, de pequeno potencial" e hoje "não tem condenação nenhuma".

O Ministério Público acusa Pelissa de ter ajudado a modificar a cena do crime, no dia seguinte, o que é rechaçado pela defesa. "Ele não foi denunciado a não ser por fraude processual, que nós entendemos tecnicamente que não ocorreu. O restante foi prontamente não denunciado ou tecnicamente absolvido em tese ou nem julgado."

Sobre o desaparecimento dos seis homens, o advogado disse que ele desconhecia e que só foi tomar conhecimento da informação no decorrer da investigação feita pela Polícia Civil.

"Nós temos também interesse em esclarecer esses fatos e absolver nosso cliente. [...] Os fatos serão esclarecidos processualmente, no processo", disse o advogado.