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Jacarezinho: Testemunha contradiz policiais sobre socorro a mortos

Pessoa aparentemente em situação de rua tenta se proteger de um caveirão durante a operação da Polícia Civil no Jacarezinho - REGINALDO PIMENTA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO
Pessoa aparentemente em situação de rua tenta se proteger de um caveirão durante a operação da Polícia Civil no Jacarezinho Imagem: REGINALDO PIMENTA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Igor Mello

Do UOL, no Rio

01/07/2021 04h00

O depoimento de uma testemunha sobre duas das 27 mortes cometidas por policiais durante a Operação Exceptios —realizada pela Polícia Civil na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, em 6 de maio— coloca sob suspeita o depoimento dos agentes envolvidos na ocorrência e levanta a possibilidade de fraude processual.

Uma moradora de um local onde dois homens foram baleados afirmou ter visto os suspeitos já mortos em um cômodo da residência. Os policiais, por outro lado, relatam que socorreram ambos com vida —a começar com a prestação dos primeiros socorros a um deles ainda no local, para em seguida levar ambos ao hospital em um caveirão, como são chamados os carros blindados no Rio.

Caso eles tenham simulado o socorro dos homens já mortos para desfazer a cena do crime, podem ser processados por fraude processual. As informações constam em depoimentos e laudos periciais contidos nas investigações da própria Polícia Civil sobre as mortes e aos quais o UOL obteve acesso.

A reportagem enviou uma série de questionamentos sobre a investigação dessas duas mortes à Polícia Civil, mas a corporação se recusou a respondê-las. Em nota, afirmou apenas que "as investigações estão em andamento, acompanhadas pelo Ministério Público, e a Polícia Civil só se pronunciará no final, evitando qualquer antecipação ou especulação".

"Sala banhada de sangue"

Em seu depoimento à Delegacia de Homicídios da Capital, responsável pela investigação das mortes, a testemunha afirmou que ela e a família estavam abrigadas no apartamento de um vizinho, no segundo andar do imóvel. Após ouvir os disparos, ela foi chamada por um dos policiais para acompanhar as buscas em sua residência, que fica no terceiro andar, e viu os dois suspeitos mortos na sala.

Em entrevista ao portal Metrópoles, a mesma moradora confirmou que viu os corpos dos dois homens —identificados como Isaac Pinheiro de Oliveira, de 22 anos, e Richard Gabriel da Silva Ferreira, de 23— já mortos em sua sala.

"Eles [os policiais] pediram para a gente subir para ver como estava a casa, como tudo aconteceu. E os dois corpos estavam aqui na minha sala. Minha sala estava toda banhada de sangue. Sangue na parede, no sofá, tudo. E os dois corpos aqui no chão", relatou ela.

Na entrevista, a moradora conta ainda que um dos mortos já estava ferido quando invadiu sua casa, e que não viu nenhum dos dois armados —os policiais dizem ter apreendido duas pistolas com os suspeitos. Os dois jovens eram alvos de mandados de prisão no processo judicial que motivou a realização da operação Exceptios.

Um era um homem negro. Dados compilados pela Rede de Observatórios de Segurança mostram que mais de 78% das pessoas mortas pelas forças policiais no Rio de Janeiro em 2019 eram negras.

Policiais relataram socorro

Apesar de a moradora — que não conhecia nenhum dos dois jovens — relatar que eles já estavam mortos quando os viu, em nenhum momento o inquérito da Delegacia de Homicídios coloca em dúvida a versão apresentada pelos policiais envolvidos na ocorrência.

Eles dizem que receberam a denúncia de que Isaac e Richard Gabriel faziam os moradores de reféns. Entraram no imóvel em dois grupos separados —um pela porta da frente e outro pela laje, mesmo caminho feito pelos suspeitos anteriormente.

Três policiais entraram no apartamento do 3º andar e dizem terem se deparado com os dois jovens apontando pistolas para os policiais —o que, na versão deles, fez com que os agentes atirassem em legítima defesa.

Declarante Jacarezinho - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

A versão dos policiais, entretanto, contrasta com as informações trazidas nas provas periciais. O laudo de perícia de local diz que "não foi possível afirmar sobre a ocorrência de confronto" no interior do imóvel.

Já os laudos cadavéricos trazem ferimentos que colocam em xeque a versão de que os suspeitos apontavam as armas para os policiais.

Isaac foi atingido por quatro disparos de pistola —dois nas costas e dois no braço direito. Já Richard Gabriel foi baleado cinco vezes — duas delas nas costas. Ele ainda foi atingido em ambos os braços e na lateral esquerda do corpo, próximo ao quadril.

Os ferimentos também levantam dúvidas sobre a versão de que o socorro foi prestado porque os baleados estavam com vida. Isaac, que, segundo o relato de um dos agentes, "a todo momento se comunicava com os policiais", teve ferimentos no pulmão direito, além de dois projéteis cravados em sua coluna.

Já Richard Gabriel sofreu lesões no coração, pulmão direito, baço, fígado, diafragma e alças intestinais.

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