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Ação do tráfico em caso de sumiço de crianças faz Justiça decretar prisões

Fernando Henrique, 11, Lucas Matheus, 8, e Alexandre da Silva, 10, desapareceram dia 27 de dezembro em Belford Roxo (RJ) - Arquivo Pessoal
Fernando Henrique, 11, Lucas Matheus, 8, e Alexandre da Silva, 10, desapareceram dia 27 de dezembro em Belford Roxo (RJ) Imagem: Arquivo Pessoal

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

16/07/2021 17h04

A Justiça do Rio decretou a prisão preventiva de oito homens suspeitos de envolvimento na tortura de um morador do Castelar, favela de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, que foi acusado injustamente na comunidade de envolvimento no sumiço de três crianças.

Lucas Matheus da Silva, 8, Alexandre da Silva, 10, e Fernando Henrique Ribeiro Soares, 11, desapareceram no dia 27 de dezembro do ano passado e até hoje não foram encontrados. A polícia não tem pistas do paradeiro dos meninos.

Em 11 de janeiro, o morador foi torturado, amarrado e teve um cartaz pendurado no pescoço que dizia "suspeito de desaparecimento das três crianças, pego por moradores do Castelar".

Na ocasião, ele foi entregue à polícia. No entanto, de acordo com a DHBF (Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense), responsável pelas investigações, o homem não tinha qualquer relação com o caso.

Durante o depoimento dele à polícia, um ônibus foi incendiado na rua da delegacia. Segundo a DHBF, a ordem para queimar o veículo partiu de traficantes. Após as agressões, o homem e a família precisaram deixar a favela por medida de segurança.

Entre os que tiveram a prisão preventiva decretada, está José Carlos do Prazeres, conhecido como Piranha. Ele é apontado como chefe do tráfico de drogas do Complexo do Castelar, onde moravam os três garotos, e como o mandante do crime de tortura. Wiler Castro da Silva, chamado de Estala, gerente do tráfico na mesma localidade, também teve a ordem de prisão autorizada.

A prisão preventiva dos suspeitos que foi decretada em 24 de junho pela 1ª Vara Criminal de Belford Roxo, mas só foi relevada agora. Segundo a polícia, a maioria tem relação com o tráfico local. Com exceção de um suspeito que já se encontrava detido, ninguém ainda foi preso.

"No caso dos autos, tem-se a prática de grave crime de tortura, praticado com emprego de armas de fogo diretamente relacionado ao atuar violento da facção criminosa que controla o tráfico de drogas na localidade", diz um trecho da decisão.

Bruno Paes da Silva, tio de dois dos meninos, também foi denunciado à Justiça, mas a prisão preventiva foi revogada no dia 8 e ele responderá ao processo em liberdade. Ele é acusado de ter atraído o morador até o local onde foi espancado pelo grupo.

Investigações sobre o desaparecimento

Lucas, Alexandre e Fernando foram vistos pela última vez na feira de Areia Branca, que fica a 3 km da comunidade do Castelar.

A DHBF trabalha atualmente com duas linhas de investigação sobre o desaparecimento. Uma delas é a participação do tráfico de drogas —a segunda não foi detalhada pela polícia para não atrapalhar as investigações.

A defensora Gislaine Kepe, do núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio, disse hoje ao UOL que "não há qualquer avanço real nas investigações e que a Defensoria Pública se prepara para conversar novamente com o delegado do caso".

As últimas informações repassadas pela polícia à Defensoria foram no dia 1º deste mês, quando o delegado Uriel Alcântara fez uma reunião com os familiares dos garotos e demais representantes para falar sobre o andamento do caso.

No mês passado, em conversa com o UOL, Alcântara disse que o sumiço dos meninos aconteceu de forma "muito discreta" e que faltavam elementos que contribuíssem com a investigação.

Até o momento, a polícia localizou apenas uma imagem dos meninos captada por câmeras de segurança na região. Na gravação, os três aparecem caminhando pela rua Malopia, em um bairro vizinho.

Essa imagem estava em posse da Polícia Civil, mas o trio foi identificado pelo Ministério Público que precisou submeter a gravação a técnicas de melhorias de imagens. A pista apareceu dois meses após o registro de desaparecimento.

No trajeto entre o Castelar e a feira de Areia Branca, a polícia localizou 45 câmeras, porém menos de dez estavam funcionando. Apenas duas testemunhas relataram em depoimentos terem visto o trio na região. As investigações continuam em andamento.

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