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Caso Kathlen: Avó e laudo contradizem PMs em reconstituição, diz OAB-RJ

14.jul.2021 - Família de Kathlen acompanhou reconstituição do crime - Daniele Dutra/UOL
14.jul.2021 - Família de Kathlen acompanhou reconstituição do crime Imagem: Daniele Dutra/UOL

Daniele Dutra

Colaboração para o UOL, no Rio

14/07/2021 21h57

A Comissão de Direitos Humanos da OAB-Rio (Ordem dos Advogados do Brasil) acompanhou hoje a reconstituição da morte da designer de interiores Kathlen Romeu, 24, na comunidade do Barro Branco, no Complexo do Lins, zona norte carioca. Grávida de quatro meses, a jovem foi morta em 8 de junho durante ação policial.

Segundo o advogado Rodrigo Mondego, que integra a comissão da OAB-RJ, a versão dada pelos policiais militares é "totalmente incompatível" com o laudo de necropsia feito pela Polícia Civil.

A avó, que estava com ela no momento em que foi atingida e também participou da reconstituição, e moradores da região dizem que não não havia confronto e que a bala partiu dos policiais militares.

Segundo o laudo, a angulação da bala que atingiu Kathlen tinha uma trajetória de cima para baixo. De acordo com a avó e a OAB, o disparo foi feito do Beco do 14, onde estavam os agentes, segundo testemunhas.

"Pela versão da avó, pela forma que a Kathlen caiu, não existe a possibilidade desse tiro ter vindo de outro lugar, se não do beco. A versão dos policiais militares é totalmente diferente e incompatível com o laudo, com que a avó diz e, até mesmo, há indícios claros que é diferente da perícia", disse Mondego.

Sete de 12 polícias militares envolvidos deram hoje uma versão diferente do laudo e da avó. Segundo a comissão, os agentes relataram que os tiros partiram de outra localidade, e não do beco.

Segundo eles, o disparo veio do outro lado da rua, atingiu a Kathlen por trás e, na hora em que foi atingida, ela teria dado um rodopio e caído de frente. Segundo a versão dos agentes, eles reagiram ao serem atacados por criminosos —testemunhas reforçam contudo que não houve tiroteio, apenas a ação dos PMs.

As investigações sobre o caso estão na Delegacia de Homicídios da Capital e, segundo a Polícia Civil, as armas dos PMs (dez fuzis calibre 7.62, dois fuzis calibre 5.56 e nove pistolas .40) foram apreendidas e encaminhadas para a perícia técnica.

O laudo do IML (Instituto Médico Legal) aponta que a vítima foi atingida por um tiro de fuzil. O projétil atingiu seu tórax e não ficou alojado.

Em nota, a Polícia Militar afirma que os policiais militares continuam afastados do serviço.

Após a reconstituição, moradores e integrantes da Comunidade Black, amigos de Kathlen, fizeram uma manifestação e leram um manifesto.

"A reconstituição do crime é um momento extremamente difícil para família e amigos. Alertamos aos veículos de imprensa sobre o racismo estrutural no formato das notícias sobre o caso da Kathlen Romeu e genocídio do povo negro. Nossa amiga e seu bebê não têm responsabilidade sobre atos de terceiros, por isso, solicitamos que a mídia trate o caso como homicídio, respeitando a memória da nossa Kath. O foco das notícias de hoje precisa ser em apoio à resolução do caso e perguntas aos agentes do Estado que disparam tiros de fuzil em uma área altamente populosa, próximo ao horário de almoço. Como não conseguiram evitar a morte de uma mulher grávida? Por que policiais estavam escondidos dentro de casas na favela? Que tipo de operação foi essa? Houve legalidade? Por que há poucas testemunhas até agora? Qual motivo do medo dessas pessoas de falarem?" diz um dos trechos.

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