PUBLICIDADE
Topo

Cotidiano

Após Praia Grande, sarna humana atinge comunidades em São Vicente (SP)

Desempregada, Luara Rodrigues de Oliveira mostra feridas no braço após se contaminar com sarna humana - Arquivo pessoal
Desempregada, Luara Rodrigues de Oliveira mostra feridas no braço após se contaminar com sarna humana Imagem: Arquivo pessoal

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos (SP)

27/07/2021 19h18

O litoral de São Paulo tem mais uma cidade atingida por um surto de sarna humana. A primeira foi Praia Grande, na comunidade de Nova Mirim, em maio. Agora, é a vez de São Vicente, a cerca de 8 km desse local, afetando Portelinha, Fazendinha e Areal, na área continental da cidade.

Segundo a prefeitura, até hoje, mais de 70 moradores já procuraram atendimento na UBS da Vila Ema, a mais próxima dessas comunidades, para combater a doença.

A sarna humana, também conhecida por escabiose, causa feridas cutâneas com coceira e prurido intenso. É provocada por um ácaro parasita (Sarcoptes scabiei) e se agrava quando os ferimentos são contaminados por infecções secundárias, como as bacterianas.

A doença se prolifera com maior facilidade em ambientes com pouca higiene, sem saneamento básico, sem tratamento de água apropriado e em áreas que concentram um grande número de pessoas. Características comuns às favelas, em diversas partes do Brasil.

Segundo especialistas, é uma das razões para o alastramento rápido da sarna humana entre os moradores das comunidades. Até porque a pandemia de covid agravou a precariedade das condições sanitárias nesses espaços.

Sem trabalho e sem dinheiro, muitos moradores não têm condições de pagar por produtos indicados para a desinfecção de roupas e da casa. Isso sem falar nos remédios, pomadas e loções receitados para o combate à doença.

Cabeça em carne viva

Lucineide da Silva dos Santos, que mora em um barraco de madeira com o marido e seis filhos na comunidade da Portelinha, contou ao UOL que a doença surgiu de repente, há cerca de um mês, e afetou primeiro as crianças.

Vinícius Gabriel, de apenas um ano, e Samuel Ruan, 3, foram os que mais sofreram com o prurido intenso, inchaço e dores provocados pelas feridas. Com o passar dos dias, os oito membros da família contraíram a doença.

O Vinícius pegou na cabeça, ficou em carne viva, cheia de caroços de tanto que ele se coçava. A gente não sabe o que é dormir direito há mais de um mês. Agora que está melhorando um pouco, porque consegui comprar um sabonete próprio para isso.
Lucineide da Silva dos Santos, moradora da Portelinha

"A gente vai no posto, o médico até atende. Mas geralmente esse tipo de produto e os remédios, o postinho não tem para distribuir. Sai do nosso bolso mesmo. E quem é que tem dinheiro para comprar?", questiona ela.

Desempregada, Luara Rodrigues de Oliveira, 22, mora com os dois filhos, Enzo Gabriel, 1, e Davi Rodrigo, 4, em um barraco de três cômodos na comunidade de Fazendinha. Ela e as crianças contraíram a sarna humana há mais de um mês.

Estavam melhorando, graças à ajuda de uma cunhada, que os levou para a casa dela, no bairro Quarentenário.

"Ela estava cuidando da gente, passando um sabonete de enxofre e tudo. Daí a gente veio para casa e a doença voltou pior", relata.

Meus filhos estão cheios de feridas da barriga para baixo. Eu peguei nas mãos, barriga, pernas. Hoje marquei consulta com o médico, espero que consiga um remédio ou alguma coisa para passar.
Luara Rodrigues de Oliveira, desempregada

Desde que a sarna humana começou a se alastrar pela comunidade da Fazendinha, a ajudante de cozinha Raquel Vieira, 30, não deixa mais os filhos Wallace, 12, e Washington, 2, brincarem com outras crianças. Eles estão "de molho" há 15 dias.

Sem poder trabalhar há um ano, por conta de um acidente, ela diz não ter condições de bancar um tratamento completo.

"Nós pegamos sarna há uns dois meses e ficamos indo e voltando do pronto-socorro, até que as feridinhas começaram a sarar. Só que agora meus vizinhos estão todos com sarna, o pessoal da Portelinha, do Areal? O meu pequeno [Washington] está com o bumbum todo cheio de feridas. As crianças são as que pegam primeiro", afirmou.

Ação para evitar escalada de casos

Por meio de nota, a Secretaria de Saúde de São Vicente informou que profissionais da UBS da Vila Ema relataram o atendimento de 73 moradores da comunidade Fazendinha com confirmação para a sarna humana.

"Buscando avaliar as suas reais condições, orientá-los e evitar uma possível escalada de casos, a Secretaria de Saúde estará realizando hoje (27) e sexta-feira (30), uma ação de combate à doença, com médicos e enfermeiros. Os agendamentos já foram realizados", diz o comunicado.

Quem apresentar sintomas deve procurar a unidade de saúde mais próxima de sua residência "a fim de interromper a cadeia de transmissão", diz o órgão. Segundo a secretaria, nenhum outro bairro ou comunidade relatou ocorrências da enfermidade.

Médicos dizem ser imprescindível educar sobre o que é a doença, como ela é transmitida e como combatê-la.

"As vigilâncias sanitárias e epidemiológicas dos municípios devem planejar ações de educação sanitária para informar a população", afirma José Carlos Resende.

Roberto Debski, clínico-geral que atua na saúde pública, diz que dificilmente a sarna humana se alastraria para locais distantes se a população fosse informada de forma apropriada.

"Geralmente, o surto de sarna fica restrito a pequenos grupos, como grupos familiares e comunitários, sendo difícil a transmissão para locais distantes. Por isso é tão importante que as comunidades tenham acesso às informações sobre a doença."

Cotidiano