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'Eram símbolos satânicos', diz pastor amigo de casal morto por filho, no ES

Número 6, que simbolizaria a imperfeição, foi encontrado nas portas - Divulgação/Polícia Militar ES
Número 6, que simbolizaria a imperfeição, foi encontrado nas portas Imagem: Divulgação/Polícia Militar ES

Marcus Rocha

Colaboração para o UOL, em Vitória

05/08/2021 04h00Atualizada em 05/08/2021 13h11

Cruzes invertidas, pentagrama e a sequência de três vezes o número seis. Todos esses símbolos foram encontrados e fotografados dentro da casa do casal Paulo de Oliveira César e Raquel Henriger Cesar, que teria sido morto pelo filho, na madrugada de ontem, no Espírito Santo. O pastor da família e também amigo pessoal Simonton Araújo alega que todos esses seriam símbolos satânicos. No local também foi encontrado a inscrição de um versículo bíblico.

"A cruz invertida é uma forma de deboche para com Deus, zombando de Jesus por ter morrido nela. Ela é ligada ao satanismo. O número 6, é tido como o número da imperfeição - o 7 é o número perfeito, onde Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou", afirma o pastor.

Ele explica que um pentagrama, por exemplo, é usado para fazer uma ligação do homem com uma força sobrenatural. Simbolizando, nas cinco pontas da estrela, o espírito com o ar, água, terra e fogo.

Na mesa que fica na sala do apartamento, foi escrito o versículo bíblico que fica no livro de apocalipse 12:12. "Festejais ó céus, o diabo desceu até vós. Pouco tempo lhe resta". Essa página da Bíblia também foi rasgada. O pastor Simonton explica: "esse versículo mostra satanás perdendo sua força e lançado na Terra. Isso é mostrado nos finais do tempo. Ele está se revoltando".

Simonton é o fundador da igreja Missão Praia da Costa, também em Vila Velha. Ele disse que o jovem Guilherme Heringer Cesar, de 22 anos, sempre pareceu ser um bom menino. Participava dos cultos, ensinos bíblicos e ajudava os amigos até mesmo para chegar à igreja.

A morte da família, principalmente do seu amigo e também pastor, Paulo de Oliveira Cesar, 68, foi um choque. "Eu perdi um amigo. Um grande amigo. Ele, a mulher e o filho eram ótimas pessoas. A ficha ainda não caiu. A igreja chora hoje. É um momento muito difícil para todos que conheciam ele", contou Araújo.

Cena do crime - Divulgação/Polícia Militar ES - Divulgação/Polícia Militar ES
Cena do crime tinha cruzes vermelhas e páginas da Bíblia queimadas
Imagem: Divulgação/Polícia Militar ES

Filha do casal não acreditou na morte da família

O pastor Simonton foi quem ligou para a filha do casal que mora no Canadá, há três anos, para avisar sobre o duplo assassinato seguido de suposto suicídio. No primeiro momento, a também médica legista, Renata Heringer, não acreditou que tinha perdido mãe, pai e o irmão.

"Ela achou que era uma brincadeira, achou que era mentira. Ela não acreditou que tinha acontecido isso. Liguei logo cedo para avisá-la sobre a situação e foi muito difícil. Ela precisou tomar um remédio. Estava sem condições de falar", contou o pastor.

Segundo o líder religioso, os corpos da família já foram identificados por tias da médica. Agora, os parentes aguardam a chegada dela, prevista para os próximos dias, para fazer a cerimônia de sepultamento que deve ser celebrada no Parque da Paz, também em Vila Velha.

Mãe e filho da família Heringer - Reprodução - Reprodução
Guilherme ao lado da mãe Raquel Heringer Cesar
Imagem: Reprodução

Vocação para medicina

O jovem suspeito do crime, Guilherme Heringer Cesar cursava o segundo ano de medicina, em uma universidade particular em Vila Velha. Segundo o pastor amigo da família, essa era a maior vocação do jovem.

"Ele ia na igreja, mas tinha a vocação para medicina e não para assumir ministério igual ao pai. Ele era apaixonado pela medicina. Se dedicava bastante e tinha uma carreira pela frente. A gente pergunta o por que disso tudo", diz com a voz embargada Simonton Araújo.

Em um perfil numa rede social, milhares de pessoas lamentaram o episódio e as mortes dos três integrantes da família. Uma parente revoltada com toda a tragédia chegou a pedir ajuda para que as pessoas denunciassem a conta dele.

"Nos ajudem denunciando a conta do Gui. Façam pela família", disse Júlia Henriger. O pedido era para evitar que usuários agredissem a família com palavras e postagens nas redes sociais. Até o fechamento dessa matéria, a conta ainda estava ativa.

Pânico satânico

Casos como o do Espírito Santo e o de Lázaro, morto pela polícia em Goiás, podem gerar inclinações que tendem a uma expressão chamada "pânico satânico", fenômeno visto em larga escala nos Estados Unidos, em casos de serial killers que seriam influenciados por temas obscuros.

Na verdade, poucos casos têm documentação que comprove que ligações espirituais, e investigações policiais que são dominadas pelo "pânico satânico" muitas vezes prejudicam investigações, seguindo linhas que amenizam a culpa de quem praticou o crime e dificultam saber as reais causas por trás das motivações destas pessoas.

O que é? O pânico satânico tem origem na expressão "pânico moral", criada pelo sociólogo e criminologista britânico Stanley Cohen (1942-2013) no livro "Folk Devils and Moral Panics" (demônios folclóricos e pânico moral, em tradução livre). Os "demônios" apresentados no título seriam pessoas, figuras ou objetos considerados pela opinião pública como a razão de todos os males, explica o sociólogo Francis Moraes de Almeida.

Mas o que é o "pânico moral"? É a crença — quase sempre com pouca base na realidade — em um grande mal que ameaça o bem-estar da sociedade. "Quando surge um tópico que traz ansiedade social, identifica-se um bode expiatório. Sua participação no problema é então apresentada de modo desproporcional, recebendo uma atenção excessiva em relação à ameaça que ele representa", explica Almeida, professor de ciências sociais na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). O pânico satânico é um tipo específico de pânico moral, centrado na crença em rituais e cultos satanistas e na certeza de que o Mal, encarnado, está por trás de algum crime. "Geralmente está relacionado a relatos de abusos sexuais a crianças por supostos cultos satânicos. Morte de crianças é uma variação", afirmou no Twitter o jornalista Ivan Mizanzuk, criador do podcast "Projeto Humanos", cuja temporada de maior sucesso investigou o caso Evandro (Mizanzuk também participa da produção da série da Globoplay).

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