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4 meses

Filha que viu pai médico ser morto por assaltante em SP: 'atirou pra matar'

Advogada não supera dia do assassinato e tenta se manter inteira durante investigações - Arquivo pessoal
Advogada não supera dia do assassinato e tenta se manter inteira durante investigações Imagem: Arquivo pessoal

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos

09/09/2021 20h30

A advogada Paloma Postigo, de 24 anos, tem lutado para se manter inteira após testemunhar o assassinato do pai, o médico infectologista Rodolfo Henrique Postigo Castro, de 60 anos, vítima de latrocínio, em 31 de julho deste ano. Na ocasião, a família foi ao Guarujá, no litoral de São Paulo, para comemorar a sua formatura no curso de Direito. Em entrevista ao UOL, ela fala sobre o quanto precisou amadurecer desde a tragédia e uma certeza que a atormenta desde o dia do crime sobre um dos crimionosos: "[ele] atirou para matar".

Um dos suspeitos do crime, que estava foragido, foi preso, na noite desta quarta-feira (8), na cidade de Guarujá, 40 dias após o episódio. Ela estava ao lado do pai quando ele foi rendido e morto por dois assaltantes, nas proximidades da praia do Perequê.

A família, que mora em Tatuí, no interior de São Paulo, desceu a serra no dia 31 de julho. Na hora do almoço, decidiram entrar em um restaurante e, por volta das 14h30, saíram e caminhavam a pé na direção da praia, quando foram abordados por dois assaltantes numa moto. O indivíduo que estava na garupa desceu e, armado, começou a ameaçar o médico, gritando para que ele "passasse tudo".

Infectologista - Reprodução/Arquivo Pessoal - Reprodução/Arquivo Pessoal
Médico infectologista era conhecido na cidade de Tatuí e atuava na linha de frente no combate à covid-19
Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

Segundo Paloma, havia um interesse especial do suspeito numa correntinha de ouro que Rodolfo trazia no pescoço, escondida sob um moletom. "Eu estava com o celular na mão, mas a primeira coisa que ele exigiu foi a corrente. Meu pai estava em choque, então eu mesma tive que arrancar do pescoço dele e entregar. Depois ficamos pensando como ele sabia dessa correntinha, que meu pai usa desde jovem. Será que estávamos sendo observados no restaurante?", especula.

A advogada entregou ainda o celular e o relógio que usava. "Meu pai não se movia. Ninguém reagiu ao assalto, fizemos o que ele pedia. Porém, ele mirou bem no peito do meu pai e atirou. Atirou para matar. Eu vi quando meu pai perdeu a consciência e caiu ao chão. Minha mãe, que é enfermeira, e o meu irmão mais novo, que está no primeiro ano de medicina, começaram a se revezar na massagem cardíaca, mas não adiantou. Ele já tinha nos deixado", lembra.

Paloma conta que o pai, um eminente infectologista que trabalhava na linha de frente no combate à covid-19 em hospitais do interior de São Paulo, era peruano. Ele chegou ao Brasil no final da década de 1980, já formado, e teve seu diploma revalidado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). E foi lá, enquanto fazia residência, que conheceu a esposa, Magda, então graduanda em enfermagem.

Com ela, Rodolfo teve três filhos: Camille, hoje com 28 anos, formada em reumatologia; Paloma, com 24, formada em direito; e Pietro, com 17, cursando o primeiro ano de medicina. "Meu pai sempre nos dizia que a maior herança que ele poderia nos deixar era uma boa educação. Ele e minha mãe trabalhavam noite e dia para garantir que a gente pudesse cursar boas escolas e obter uma boa formação".

Pai - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Filha diz que primeira reação ao saber da prisão de suspeito da morte do pai foi chorar bastante, seguida de alívio
Imagem: Arquivo pessoal

40 dias de emoções

Há poucos dias, Paloma soube que foi aprovada nos testes exigidos pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Os exames foram realizados com dificuldade, dias depois de testemunhar a morte do pai. Hoje, ela soube que o suspeito do latrocínio finalmente foi preso pela polícia.

"Quando eu soube que ele tinha sido preso, chorei. Chorei muito. Senti um alívio muito grande. É como se após 40 dias de sofrimento e dor esse capítulo da minha vida estivesse caminhando para um desfecho. Posso dizer que amadureci 40 anos em 40 dias".

Num misto de emoções durante este período, ela conta que oscila entre a dor e a tristeza da perda do pai, a alegria da conquista da carteira da OAB e o alívio de ver sendo cumprida a Justiça. Ela e os familiares vêm sendo acompanhados por um psiquiatra e fazendo sessões de análise para enfrentar o choque.

"Eu não queria mais fazer os exames, pensei em desistir de tudo. Mas eu ouvi uma voz lá dentro, sabe? A voz do meu pai, me incentivando, dizendo para eu insistir que ia dar tudo certo. E fui, mesmo estando meio desligada. Enquanto eu fazia a prova, sentia que não estava 100% ali, era uma sensação estranha. Mas graças a Deus eu fui fazer. Porque consegui passar no exame... eu sinto que o meu pai deve estar orgulhoso agora. Essa é a minha homenagem a ele".

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