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'É triste criar a filha sozinha', diz viúva de catador morto por militares

13.out.2021 - Dayana Horrara e a filha acompanham o julgamento dos 12 militares acusados de matar seu marido, o catador Luciano Macedo - Ruben Berta/UOL
13.out.2021 - Dayana Horrara e a filha acompanham o julgamento dos 12 militares acusados de matar seu marido, o catador Luciano Macedo Imagem: Ruben Berta/UOL

Ruben Berta

Do UOL, no Rio

13/10/2021 13h55

Com 2 anos de idade completados em 27 de julho, Aylla Vitória só conhece o pai, o catador de material reciclável Luciano Macedo, por fotos, como a que está estampada na camiseta da mãe Dayana Horrara.

As duas foram hoje à sessão de julgamento dos 12 militares acusados da morte de Luciano, que foi atingido quando tentou socorrer o músico Evaldo dos Santos Rosa em abril de 2019 no bairro de Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro.

Quando o catador foi morto, Dayana estava grávida de cinco meses. O nome dado à filha era o que o pai queria.

"O que me dá mais tristeza é quando vou com a minha filha no parque e ela olha as crianças com os pais. Eu vejo nos olhos da minha filha a tristeza de não ter um pai", contou Dayana, muito emocionada.

Ela disse que atualmente mora em Santa Cruz, na zona oeste do Rio, somente com a filha e sobrevive do que ganha do Bolsa Família e de alguns bicos.

"Eu tento nem lembrar [da morte do marido], mas às vezes vem um filme na minha cabeça. Sinto desânimo, tristeza."

O corpo de Evaldo foi atingido por nove tiros, e seu carro, por 62 —ao todo foram 257 disparos de fuzil e pistola. Na tarde daquele domingo, ele seguia de carro junto com a família para um chá de bebê quando foram alvejados pelos militares.

O catador viu a cena e tentou ajudar a família, mas também acabou sendo baleado. Ele foi socorrido, mas morreu 11 dias após o crime. Na época, os militares disseram que confundiram o carro da família com o de criminosos.

Dayana estava com Luciano no momento em que ele foi atingido. Os militares chegaram a afirmar que o catador estava com uma arma, que ela teria escondido dentro de uma comunidade próxima, o que foi considerado pelo Ministério Público Militar como uma afronta à memória da vítima.

"Muitas pessoas não acreditam que ele foi ajudar o Evaldo. Vieram me perguntar se meu marido estava armado. Mas nem perco meu tempo mais respondendo", afirmou Dayana.

Ela disse ainda que, em momento nenhum, recebeu ajuda do Estado e que a filha tem sido seu principal motivo para seguir a vida. "É muito triste criar uma filha sozinha, mas é ela quem me dá forças."

Dayana se emocionou quando viu uma reprodução de seu depoimento, em um vídeo passado durante o julgamento pelo Ministério Público Militar. Luciana Nogueira, viúva de Evaldo, também chorou muito e chegou a ser atendida fora do auditório onde acontece a sessão.

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