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Aluna trans é impedida de usar banheiro feminino e denuncia escola em PE

Michelly Almeida, de 17 anos, se arrumava para atividade sobre religiões quando foi abordada por segurança  - Arquivo Pessoal
Michelly Almeida, de 17 anos, se arrumava para atividade sobre religiões quando foi abordada por segurança Imagem: Arquivo Pessoal

Ed Rodrigues

Colaboração para o UOL, no Recife

29/10/2021 19h26Atualizada em 29/10/2021 19h26

Uma estudante trans, de 17 anos, denunciou ter sido vítima de transfobia dentro da escola pública onde estuda, em Itapissuma, na Região Metropolitana do Recife. Michelly Almeida disse que foi impedida de utilizar o banheiro feminino da unidade de ensino sob a justificativa de que é biologicamente um homem. Alunos amigos da adolescente chamaram a atenção para o possível caso de discrimnação em um protesto ontem.

O caso ocorreu nas dependências da Erem (Escola de Referência em Ensino Médio) Euridice Cadaval Gomes, na última quarta-feira (27). A garota, que cursa o 3º ano, contou ao UOL que chegou no centro de ensino, onde participaria de evento sobre religiões, no qual três grupos se apresentariam representando a igreja evangélica, o catolicismo e o candomblé. Como diz fazer desde o 1º ano, foi ao banheiro feminino se trocar para dar início à sua apresentação.

Segundo Michelly, ela foi instruída por funcionário administrativo a sair do banheiro, sob o argumento de que a estudante é homem e não poderia estar ali. Aos gritos, e sob os olhares de dezenas de pessoas, ela foi encaminhada à sala do diretor.

Eu sempre uso o banheiro feminino, desde que entrei. Na gestão anterior, não houve problema. As colegas não se sentem incomodadas. O funcionário ficou dizendo que sou homem e que não está certo entrar naquele banheiro. E repeti várias vezes que sou mulher e ele me chamando de homem, aos gritos.

De acordo com a estudante, o diretor tentou "conscientizá-la" de seu "erro".

"Repeti, mais uma vez, que sou uma mulher trans, mas ele também disse que biologicamente eu sou homem e que estava fazendo uma coisa errada. O diretor é evangélico. Além desses absurdos que ouvi, ainda me suspendeu das atividades e impediu o grupo representante do Candomblé de se apresentar. Isso é intolerância religiosa", ressaltou Michelly.

A adolescente contou que, ao sair da sala, caiu no choro. Ela, junto com a família, está avaliando se levará o caso à Justiça. "Já estou sendo auxiliada juridicamente e estamos vendo como proceder", destacou.

O caso provocou revolta nos colegas de Michelly, que realizaram um ato na escola. Ontem, os estudantes levaram cartazes pedindo que o direito da estudante trans a ter acesso ao banheiro feminino seja respeitado.

O UOL tentou contato com o diretor por meio dos telefones da unidade de ensino, mas não conseguiu contato. Procurada, a Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco informou ter tomado conhecimento das denúncias ocorridas na Erem e que abriu um processo de investigação administrativa dos fatos.

"Uma comissão da regional está acompanhando o caso e apurando com todos os envolvidos. Além disso, a gestão da unidade de ensino marcou uma reunião com o conselho escolar e os pais/responsáveis para tratar sobre estes assuntos na próxima quarta-feira (3)", acrescentou o comunicado.

Para Rildo Veras, presidente do Movimento LGBTQIA+ Leões do Norte, a falta de respeito à diversidade ainda é uma situação corriqueira no ambiente escolar.

A escola ainda não entende a diversidade de gênero. Mesmo a Secretaria de Educação tendo uma Gerência de Direitos Humanos, mesmo depois de várias formações feitas com professores. E essa escola, em vez de combater, acaba muitas vezes reproduzindo as discriminações.

"Os nomes sociais não são respeitados pelos professores, que alegam seguir o nome de batismo, que consta na ficha. Vamos provocar mais uma vez a Secretaria de Educação para a gente refletir ainda mais sobre esses abusos. Precisamos de ações mais efetivas e mais constantes", argumentou.

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