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Temor de onda de covid faz capitais do Nordeste reverem planos de Réveillon

Festa de 2020 em Fortaleza reuniu 1,2 milhão de pessoas na praia de Iracema  - Prefeitura de Fortaleza
Festa de 2020 em Fortaleza reuniu 1,2 milhão de pessoas na praia de Iracema Imagem: Prefeitura de Fortaleza

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

25/11/2021 04h00

Com a volta do turismo a todo o vapor neste ano, as maiores capitais do Nordeste planejaram realizar novamente as tradicionais festas de Réveillon na praia, com fogos e atrações. Algumas chegaram a lançar editais para contratar empresas e artistas para a virada de ano.

Entretanto, a alta no número de casos na Europa após a reabertura e a vacinação ainda aquém de índices confiáveis fizeram as prefeituras recuarem e deixarem em aberto a realização dos eventos, com uma tendência a permitir apenas festas particulares menores.

Segundo o UOL apurou, há um temor de que o Réveillon se torne responsável por uma alta acelerada de casos, como na Alemanha, que tem índices de vacinação parecidos com os do Brasil.

No Ceará, o governador Camilo Santana (PT) foi o primeiro a se pronunciar, no domingo, contrário às festividades da virada de ano. Em publicação em suas redes sociais, disse que "eventos festivos, com grandes aglomerações e bebida, necessitariam de absoluto controle, com todas as pessoas comprovadamente vacinadas, além dos protocolos sanitários seguidos, para minimizar os riscos de contágio".

"Onde não houver controle, não pode haver festa", completou.

O prefeito de Fortaleza, Sarto (PDT) —que é aliado do governador—, não descarta a festa, mas afirmou, na segunda-feira, que a prioridade no momento é avançar na vacinação e que não há qualquer definição sobre o Réveillon.

"A gente submete a decisão de realização de grandes eventos, como Réveillon, Pré-Carnaval etc., ao comitê técnico, que é formado pelo governador, secretários de Saúde, Ministério Público Estadual e Federal, Tribunal de Justiça, Assembleia Legislativa e pelos infectologistas e epidemiologistas, que passam 24 horas do dia estudando especificamente a questão da covid", disse.

O recuo, porém, ocorreu neste mês. Segundo apurou o UOL, a ideia inicial da prefeitura era fazer a festa parecida com as realizadas antes da pandemia. Alguns modelos chegaram a ser pensados e propostos. Mas o receio foi que o aumento de casos na Europa seja um prenúncio do que pode ocorrer na cidade.

Em 2020, por exemplo, a festa na orla de Iracema reuniu 1,2 milhão de pessoas, a maior aglomeração da região Nordeste na data.

Editais em Maceió e no Recife

No Recife, editais foram lançados para contratação dos serviços necessários para o Réveillon, mas, por precaução, foram feitos três tipos de planejamento, que variam de tamanho de acordo com a liberação das medidas sanitárias da época.

Os editais, porém, deixam claro que a prefeitura não irá desembolsar recursos até ter certeza da realização da festa e só haverá pagamento de qualquer serviço após ele ser efetivamente realizado.

Se houver festa, a tendência é que ela seja menor do que as realizadas antes da pandemia. O secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo, afirmou que ainda não vê segurança para uma festa aberta de Réveillon.

"Não há segurança para eventos que gerem grandes aglomerações. Ainda temos mais de 600 mil pernambucanos que estão com a segunda dose atrasada, que estão correndo maior risco de se contaminar gravemente com a covid", disse no último dia 18.

O prefeito João Campos (PSB) anunciou recentemente que pensa em uma festa mais adiante, no Carnaval, e propôs uma união das cinco prefeituras que realizam os maiores carnavais de rua do país (Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, além do Recife) para que decidam critérios unificados e anunciem, juntas, as ações para o Carnaval.

Em Maceió, a Fundação Municipal de Ação Cultural informou ao UOL que "está se preparando para a realização do Réveillon 2022 de Maceió, com a retomada das atrações e atividades, que fazem parte do calendário de eventos do Brasil".

"Estão sendo programados sete palcos espalhados pela cidade na Jatiúca, Ponta Verde, Pajuçara, Jacintinho, Vergel do Lago, Ipioca e no Benedito Bentes. E 100% das apresentações serão realizadas por artistas locais de gêneros musicais diversos, selecionados por edital", diz o órgão.

Entretanto, na mesma nota, o órgão ressalta "que a realização das festas dependerá da situação sanitária do país com relação à covid-19 e dos decretos dos protocolos sanitários que estarão vigentes no período".

Mais populosa capital do Nordeste, Salvador chegou a levantar a hipótese de ter festividades neste ano, mas adiou uma definição. "A Prefeitura de Salvador segue em diálogo com todos os atores envolvidos nos festejos do Réveillon e Carnaval, atenta ao cenário da covid-19 na cidade. A definição sobre a realização ou não destes eventos na capital baiana deverá ser divulgada ainda neste mês de novembro", informou ao UOL.

Interior terá festas particulares

Sem garantia de eventos públicos, as festas privadas estão confirmadas e devem lotar cidades do interior do litoral nordestino. Destinos como Tibau do Sul (RN), Jericoacoara (CE), São Miguel dos Milagres (AL), Porto Seguro (BA) e Porto de Galinhas (PE) já estão com ingressos praticamente esgotados devido à alta procura. No ano passado, eles não foram permitidos.

Em Pipa, no município de Tibau do Sul, por exemplo, o Réveillon Lets Pipa deve durar seis dias, atraindo milhares de pessoas. Na paradisíaca alagoana São Miguel, há várias festas programadas no famoso Réveillon dos Milagres.

Na Bahia, moradores de Caraíva, em Porto Seguro, se uniram para tentar limitar as festas de fim de ano por conta de grandes aglomerações previstas.

"Caraíva é um lugar com estrutura frágil e população tradicional. Como aqui virou um refúgio até durante a pandemia, Caraíva virou um local de festas, e temos festas quase todo dia", diz Lucas Borges, presidente da Associação dos Nativos de Caraíva.

Por conta disso, eles protestaram e levaram à prefeitura a ideia de limitar o número de participantes —e conseguiram. "Agora, as festas agora só podem ir até a meia-noite [com exceção do Réveillon, que vai até as 4h] e ter até 850 pessoas", afirma Borges.

"Não era como a gente queria, mas foi um passo muito importante. Precisamos só ver como vai ser a fiscalização da prefeitura", completa.

Ainda sem segurança

A epidemiologista Glória Teixeira, do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e participante da Rede do Covida, afirma que o cenário atual não é propício para grandes aglomerações. "A rigor não temos segurança nenhuma para a realização dessas festas agora em dezembro", diz.

Ela cita, por exemplo, que a Bahia apresentou uma pequena elevação no número de casos e internações de covid-19 nos últimos dias.

É uma situação que nos deixa preocupados. É preciso muita cautela, o vírus ainda está presente na população, e aglomerações facilitam a transmissão."
Glória Teixeira, epidemiologista

A especialista ainda alerta que, no caso de grandes eventos como o Réveillon no litoral do Nordeste, vêm pessoas de várias partes do país e do mundo. "Essa mistura de pessoas pode ajudar a surgir novas cepas ou pode ajudar a trazer novas variantes", diz.

Para ela, caso festas de Réveillon ocorram, elas devem ter cuidados redobrados e não devem reunir número exagerado de pessoas. "Os eventos deveriam, se forem realmente realizados, devem ter certificado de vacinação, máscara e serem muito limitados. Temos de ter cuidado com a população, e solicito isso aos governantes", finaliza.

SP e Rio

Na capital fluminense, a prefeitura de Eduardo Paes (PSD) já planeja o Réveillon com três palcos na praia de Copacabana para atrair ao menos 2 milhões de pessoas com queima de fogos e "obrigatoriamente uma atração de renome internacional".

Também estão previstas festas no Flamengo (zona sul), Parque Madureira (zona norte), em outros sete bairros e na Ilha de Paquetá. Pela primeira vez, haveria palcos em Bangu e no Boulevard Olímpico, no Centro. Para esses eventos, a expectativa é de 1 milhão de pessoas.

Para o Carnaval, já começaram a ser vendidos os ingressos para os desfiles das escolas de samba. Segundo a Riotur, 506 blocos estão inscritos para fazer 620 desfiles na cidade.

Em São Paulo, o epidemiologista Paulo Menezes, coordenador do Comitê Científico, que auxilia o governo de São Paulo nas decisões sobre a pandemia, disse ser cedo para pensar em aglomerações.

Ao menos 70 cidades do interior de São Paulo já cancelaram o Carnaval para o ano que vem.

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