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Cotidiano

Conteúdo publicado há
1 mês

Moradores relatam pânico após explosão em mineradora espalhar fumaça branca

Luciana Cavalcante

Colaboração para o UOL, em Belém

07/12/2021 14h59Atualizada em 07/12/2021 18h10

Os moradores de Vila do Conde, distrito de Barcarena, município da região metropolitana de Belém, relataram momentos de pânico, após a explosão na mineradora Imerys, na noite de ontem, e a formação de uma nuvem de fumaça na área. Segundo a prefeitura local, 49 pessoas foram atendidas com sintomas leves e moderados de desconforto respiratório.

Adenilson Tavares de Melo, 52 anos, foi o primeiro a passar mal em casa, após a explosão. Asmático, ele conta que começou a sentir falta de ar e uma sensação de asfixia.

Comecei a sentir que não conseguia respirar, mas como tenho uma bombinha em casa a minha esposa me deu e eu consegui melhorar.

A filha dele, que está grávida de dois meses, precisou de atendimento médico de urgência. Suiane da Silva Melo, 29 anos, foi atendida na UPA do distrito e teve alta somente às 4h da manhã de hoje. Segundo o pai, ela precisou de oxigênio.

explosão - Twitter/Reprodução - Twitter/Reprodução
Imagem: Twitter/Reprodução

Atacou a garganta dela também, teve falta de ar, pigarro, tosse e ardência na boca, como se estivesse queimando. Pela condição delicada, ela precisou ir para o hospital.

'Não consigo dormir'

Adenilson Tavares é caldeireiro de uma das mineradoras localizadas no bairro industrial e a casa da família fica a poucos metros da Imerys. Ele conta que teve medo pela saúde da família, especialmente dos netos, de 3 e 9 anos, que moram na casa ao lado.

O caldeireiro diz ainda teme que isso possa acontecer de novo.

Desde ontem não consigo dormir, porque a gente não sabe se pode acontecer de novo. A gente, que trabalha com isso há muito tempo, teme. A pior coisa é lutar com o invisível, porque a gente não sabe o que está no ar e o que pode causar. Até porque a empresa não deu mais informações.

Já presidente do centro comunitário de Vila do Conde, Rozemiro Brito, que mora a 200 metros da fábrica da mineradora, relata o susto dos moradores, quando tudo começou, por volta das 20h.

"Eu estava em casa na hora. Foi um Deus nos acuda. Ouvimos um estrondo, como se um transformador tivesse estourado. Mas só fomos perceber o que estava acontecendo quando começou o cheiro forte, parecendo enxofre e a nuvem branca que se formou no céu. Tive que correr para tirar meus dois filhos de casa", revelou o líder comunitário, pai de dois filhos, de 8 e 14 anos.

Pouco tempo depois, segundo conta, os moradores começaram a ir para as ruas assustados com o que estava acontecendo. Muitos deles, incluindo Rozemiro, passando mal. "Muita gente reclamando de irritação nos olhos, na garganta, coceira na pele e até falta de ar".

O presidente do centro comunitário mora no bairro há 20 anos e diz que nunca houve uma situação como essa.

O que tivemos várias vezes foi vazamento de caulim no rio, mas essa nuvem de poeira branca foi a primeira vez.

Mais ocorrências

Esta é a quarta ocorrência de poluição ambiental registrada na fábrica desde 2014. Nas demais foram registrados vazamentos de caulim no igarapé do bairro. Mas a nuvem de poeira branca também afetou o igarapé da região. Pela manhã, moradores fizeram imagens da coloração da água, após o incidente.

O Corpo de Bombeiros foi acionado e conseguiu controlar o incêndio no final da noite. A prefeitura de Barcarena enviou equipes do Samu e mais duas ambulâncias foram encaminhadas ao local para transporte até a UPA do município, que foi preparada para atender as vítimas. Ao todo 49 foram atendidas com sintomas leves e moderados de desconforto respiratório.

O Ministério Público Federal (MPF) enviou recomendação à empresa dando prazo até a tarde de hoje para que dê ampla publicidade dos fatos, riscos e providências já adotadas para garantir a segurança da comunidade local, além de medidas imediatas à proteção do meio ambiente.

O documento estabelece ainda o prazo de 48h, até às 20h30 de amanhã, para a Imerys protocolar junto ao MPF "informação detalhada sobre o incidente, possíveis causas identificadas, providências já adotadas e a serem adotadas quanto aos impactos à saúde e socioambientais decorrentes do incêndio".

O órgão solicitou providências a todos os órgãos de segurança envolvidos na apuração do caso, desde vistorias e perícias à análise de produtos químicos presentes nas águas dos igarapés que tenham sido contaminados.

Em um comunicado divulgado hoje pela Imerys, a mineradora afirmou que registrou um foco de incêndio em um dos galpões da planta de beneficiamento da empresa, em Barcarena. Segundo a empresa, a ocorrência foi controlada ainda na noite de ontem e a sendo a fumaça completamente dissipada em poucas horas.

"O incêndio ocorreu exclusivamente em uma pequena parcela do produto químico Hidrossulfito de Sódio. O Hidrossulfito de Sódio pode provocar irritação temporária do aparelho respiratório, caso seja inalado. As investigações estão em curso com a participação das autoridades locais, sem riscos detectados de novos focos de incêndio. A Imerys está em contato direto com a Prefeitura de Barcarena, auxiliando no que for aplicável e necessário", diz o comunicado.

A Secretaria de Meio Ambiente de Barcarena notificou hoje a Imerys a apresentar a Ficha de Informação de Segurança de Produtos Químicos, o plano de contingência da empresa e o laudo da qualidade do ar. Representantes da prefeitura, órgãos de segurança e meio ambiente estão reunidos com diretores da empresa para discutir o caso e buscar soluções para conter os prejuízos às vítimas e ao meio ambiente. Uma perícia será feita no local do incêndio ainda hoje.

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