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Polícia Civil indicia ex-padre por violência sexual contra 3 monges em MG

Maria Carolina Trevisan e José Dacau

Colunista do UOL e do UOL, em São Paulo

19/01/2022 15h22

A Polícia Civil de Minas Gerais indiciou hoje o ex-padre Ernani Maia dos Reis pelo crime de violência sexual mediante fraude contra três monges do Mosteiro da Santíssima Trindade, na cidade de Monte Sião, entre os anos de 2011 e 2018.

O inquérito policial foi aberto a pedido do MP-MG (Ministério Público de Minas Gerais), com base nas reportagens e no documentário "Nosso Pai", realizados pelo núcleo investigativo do UOL e MOV, a produtora de vídeos do UOL.

O trabalho jornalístico revelou, com exclusividade, as denúncias de assédio moral e sexual contra o ex-padre. Ele foi dispensado da Igreja Católica em decisão do papa Francisco.

Ex-padre negou as acusações

Ernani negou as acusações ao delegado de Monte Sião, Daniel Leme Amaral, em depoimento prestado no dia 7 de dezembro de 2021, alegando que as relações foram consentidas, entre homens adultos e não configurariam abuso de sua parte. Ele afirmou ter ficado "surpreso" com as acusações feitas pelos ex-monges.

A investigação conduzida pelo delegado Daniel Leme Amaral concluiu que o ex-padre cometeu contra três vítimas o crime previsto no artigo 215 do Código Penal brasileiro: "ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima." A pena prevista é de dois a seis anos de reclusão.

A reportagem ligou para o celular do ex-padre, mas ninguém atendeu. A reportagem entrou em contato também com o advogado João Humberto Alves. Ele afirmou que a defesa "pretende se manifestar apenas nos autos".

O relatório será encaminhado ao MP-MG, que decidirá pelo arquivamento ou oferecimento da denúncia à Justiça. Caso a denúncia seja aceita pela Justiça, será instaurada uma ação penal e, nesse caso, Ernani passará de indiciado a réu.

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O ex-padre Ernani Maia dos Reis
Imagem: Reprodução Internet

Relembre o caso

O caso foi revelado pela série de reportagens do UOL e pelo documentário "Nosso pai", publicados a partir do dia 30 de setembro de 2021. A investigação jornalística ouviu mais de 40 pessoas, entre vítimas, testemunhas da igreja e especialistas em direito penal, canônico e psicanálise.

Em uma dinâmica de abuso de poder, o padre Ernani usava seu lugar de líder espiritual para conquistar a confiança dos integrantes do mosteiro, se colocava como "um pai" com a intenção de envolvê-los pelo lado afetivo e oferecia "sessões de psicanálise" em que as próprias vítimas eram os pacientes.

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Antiga sede do Mosteiro Santíssima Trindade, em Monte Sião (MG)
Imagem: Reprodução

Relatos dos crimes sexuais atribuídos a Ernani chegaram ao conhecimento da Igreja Católica por meio de investigações internas, mas o padre só foi afastado depois que ele mesmo pediu para sair do mosteiro, em agosto de 2018, alegando "cansaço" e "crise vocacional".

Dos 40 entrevistados, 19 afirmaram ser vítimas do ex-padre Ernani: oito homens, com idades entre 20 e 43 anos, acusam o religioso de ter cometido crimes sexuais. E 11 pessoas, de assédio moral, dizem que sofreram constrangimentos e agressões verbais — dez eram mulheres.

O papa Francisco desligou Ernani Maia dos Reis da Igreja Católica no dia seguinte à publicação da reportagem. A nota assinada pelo arcebispo informava que o ex-padre Ernani Maia dos Reis pediu afastamento da comunidade em 2018, perdendo automaticamente os direitos próprios do estado clerical. Exortou também fieis a não solicitarem sacramentos do ex-padre.

O arcebispo de Pouso Alegre (MG), dom José Luiz Majella Delgado, informou em comunicado que o papa Francisco "dispensou Ernani Maia dos Reis do celibato e de todas as demais obrigações inerentes ao estado clerical e decorrentes das Sagradas Ordens".

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