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3 meses

Ronnie Lessa é alvo de operação da PF contra tráfico de armas

O policial militar Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle Franco - Marcelo Theobald/Agência O Globo
O policial militar Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle Franco Imagem: Marcelo Theobald/Agência O Globo

Igor Mello e Beatriz Gomes

Do UOL, no Rio, e colaboração para o UOL, em São Paulo

15/03/2022 07h30Atualizada em 16/03/2022 11h13

A PF (Polícia Federal) deflagrou hoje uma operação para desarticular um grupo criminoso responsável por tráfico internacional de armas com envio dos itens dos Estados Unidos para o Brasil. O policial militar reformado Ronnie Lessa, réu pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018, foi um dos alvos da ação.

De acordo com fontes ligadas à investigação, Lessa foi alvo de um dos mandados expedidos pela Justiça, cumprido na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS), onde ele está preso. Questionada pelo UOL, a defesa de Lessa declarou na manhã de hoje que ainda "não teve acesso ao conteúdo desse mandado de prisão".

A ação da PF é realizada em conjunto com o MPF (Ministério Público Federal), Ministério Público Estadual, Gaeco/RJ e apoio da Unidade de Polícia Pacificadora — UPP Macacos, e ocorre simultaneamente no Brasil e no estado da Flórida, nos EUA. O órgão afirmou que ao chegar ao Brasil, os armamentos eram posteriormente distribuídos para traficantes, milicianos e assassinos de aluguel.

Segundo o órgão, aproximadamente 50 policiais, membros do Gaeco/MPF e agentes norte-americanos cumprem sete mandados de prisão preventiva e cinco de busca e apreensão na operação Florida Heat — nomeada em referência ao estado onde "as armas eram enviadas ao Brasil pelo grupo criminoso".

Os mandados foram expedidos pela 1ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro e são cumpridos pelos agentes no Rio de Janeiro, Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde Lessa está preso, e em Miami, nos Estados Unidos, com cooperação da Agência de Investigações de Segurança Interna (Homeland Security Investigations - HSI) da Embaixada dos Estados Unidos.

"As investigações, que já duram cerca de dois anos, desvendaram a existência de um grupo responsável pela aquisição de armas de fogo, peças, acessórios e munições nos EUA e, posterior, envio ao Brasil", disse a PF.

Polícia Federal realiza a Operação Florida Heat - Divulgação/PF - Divulgação/PF
Polícia Federal realiza a Operação Florida Heat
Imagem: Divulgação/PF

O UOL tenta contato com a PF. Em caso de respostas, a nota será atualizada com os posicionamentos.

Chegada dos armamentos ao Brasil

A entrada dos armamentos em território brasileiro ocorria, segundo o órgão, através de rotas marítimas (com contêineres) e aéreas (por encomendas postais), e passava pelos estados do Amazonas, São Paulo e Santa Catarina, com o objetivo de chegar a uma casa no bairro de Vila Isabel, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro.

"Na maioria das vezes, o material era acondicionado dentro de equipamentos como máquinas de soldas e impressoras, despachados juntamente a outros itens como telefones, equipamentos eletrônicos, suplementos alimentares, roupas e calçados."

A PF ainda afirmou que quando o armamento chegava ao destino, em Vila Isabel, os itens eram "retirados pelos integrantes da célula no Rio de Janeiro — responsável pela usinagem e montagem do armamento, com auxílio de impressoras 3D (Ghost Gunner) —, que eram posteriormente distribuídos para traficantes, milicianos e assassinos de aluguel".

O envio do dinheiro para a compra dos armamentos era realizado do Brasil para os EUA por meio de doleiros.

Durante as investigações, foi apurado que um brasileiro, dono de uma churrascaria na cidade norte-americana de Boston, em Massachusetts, recebia uma parcela do dinheiro enviado do Brasil e repassava aos compradores dos armamentos que viviam nos EUA.

O bando investia o dinheiro adquirido com o tráfico de armas em imóveis residenciais, criptomoedas, ações, veículos e embarcações de luxo. Além das medidas judiciais já citadas, foi decretado o sequestro de bens, avaliados em cerca de R$ 10 milhões. Ao longo da investigação, foram apreendidos milhares de armas, peças, acessórios e munições de diversos calibres, tanto no Brasil, quanto nos EUA"
Nota da Polícia Federal

O órgão comentou a colaboração entre autoridades brasileiras e norte-americanas e classificou a cooperação como responsável por "otimizar os resultados alcançados contra o grupo criminoso".

Os investigados poderão responder pelos crimes de tráfico internacional de armas, organização criminosa e lavagem de capitais.

Investigação no Rio de Janeiro

Após a apreensão de 117 fuzis incompletos na casa de um amigo de Lessa durante as investigações do caso Marielle, a Polícia Civil do Rio abriu um inquérito para apurar o envolvimento do policial reformado com o tráfico internacional de armas.

A investigação conduzida pela Desarme (Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos) concluiu que Lessa, com o auxílio de uma filha que morava nos Estados Unidos, traficava componentes de armas para o Brasil ao menos desde 2014.

De acordo com o inquérito, Lessa adquiria peças de armas de grosso calibre em sites de países como China e Nova Zelândia. O material era entregue para sua filha, nos Estados Unidos. Em seguida, ela remetia os componentes de armamentos para o Brasil, escondidos em caixas de outros produtos, como peças de metal. No Rio, Lessa usava oficinas improvisadas para montar o armamento. Na mesma operação em que os 117 fuzis foram apreendidos um desses locais usados por ele foi encontrado.

O inquérito foi remetido pelo MP-RJ para o MPF, já que o tráfico internacional de armas é um crime federal.

Lessa, sua esposa e outras duas pessoas também são réus por lavagem de dinheiro. De acordo com o MP-RJ, o policial reformado usava outras os três como laranjas para adquirir bens de luxo com recursos sem origem comprovada. Os promotores afirmam que apenas em contas em seu próprio nome Ronnie Lessa movimentou mais de R$ 5,7 milhões entre 2014 e 2019 —no mesmo período, ele recebeu apenas R$ 416 mil como PM.

Segundo o MP, os recursos serviram para que Lessa comprasse uma casa na orla da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio —o PM morava no condomínio Vivendas da Barra, o mesmo em que vivia o presidente Jair Bolsonaro (PL) até ser eleito. Lessa também comprou casas em Angra dos Reis e Mangaratiba, na Costa Verde do Rio, além de uma lancha e diversos carros de luxo. Os promotores dizem que o dinheiro é oriundo de atividades criminosas como tráfico de armas, assassinatos por encomenda e do jogo do bicho.

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