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Porteiro demitido após socorro recebe ofertas de emprego e moverá processo

Juliano é socorrista e deixou a guarita para fazer os primeiros socorros de uma vítima de capotamento - Arquivo pessoal
Juliano é socorrista e deixou a guarita para fazer os primeiros socorros de uma vítima de capotamento Imagem: Arquivo pessoal

Do UOL, em São Paulo

20/03/2022 04h00

O homem que trabalhava como porteiro e foi desligado após deixar a guarita do condomínio para socorrer uma vítima de um acidente de trânsito em Marília, no interior de São Paulo, se prepara para a recolocação profissional após receber quatro ofertas de emprego, desde que sua história ficou conhecida. Juliano Amaro da Silva, 44, também decidiu que vai processar a empresa para a qual trabalhava, que justificou que a demissão se deu pelo fato dele ter ficado ausente por 2h21 após o resgate, deixando o edifício "absolutamente vulnerável".

"Desde que o caso explodiu, recebi umas quatro ofertas de emprego para a área de segurança. Uma delas, inclusive, de um lugar onde eu já trabalhei anteriormente", explicou ele ao UOL. Segundo o profissional, a ajuda também veio de um deputado estadual de São Paulo, que publicou um ofício para as empresas de Marília a fim de ajudá-lo na busca por um novo emprego. No entanto, até o momento, Juliano não conseguiu firmar nenhum contrato.

Ele afirmou que a família do acidentado ainda busca manter contato com ele e que não se arrepende de ter socorrido a vítima de 41 anos. "Faria outra vez", afirmou. Juliano ainda revelou que está muito "agradecido" pela mobilização que surgiu após a repercussão da história. Ele recebeu diversas doações em dinheiro e promessas de cestas básicas. No entanto, disse ainda estar abalado com a situação. "Nunca passei por isso antes. É muita coisa para a minha cabeça e ainda estou chateado com tudo o que aconteceu", diz.

Ao UOL, o porteiro informou que pretende mover uma ação contra a empresa. "Ainda estamos esquematizando uma boa defesa para ele, mas já sabemos que vamos pleitear danos morais", afirmou à reportagem a advogada Rubia Alves Lopes Jardim, que representa Juliano ao lado do advogado Artur Mechedjian.

Rubia afirmou que, no termo de rescisão de Juliano, não havia a informação de que o desligamento era por justa causa. "A empresa chamou ele no escritório e deu essa situação para ele: ou pedir demissão, ou ser demitido por justa causa. E ele não pediu demissão. A gente entende que o motivo, portanto, foi o fato dele ter abandonado o posto para salvar a vida do rapaz e, por isso, vamos pleitear danos morais."

A advogada ainda criticou a nota divulgada pela empresa para explicar a ocorrência. "A empresa não pode divulgar informações sobre o funcionário. Ele está transtornado porque se dispôs a ajudar uma pessoa que corria o risco de morrer e depois a vida dele foi destruída. Além de demitirem um pai de família, que ajudava a manter a casa, ele ainda teve a identidade difamada. E isso no interior é muito ruim porque atrapalha a busca por outro emprego."

Na ocasião, o Grupo IF3 alegou que a demissão teria diversos motivos, incluindo múltiplas advertências verbais, ausência da guarita além do tempo necessário e o que classificou como "condutas inapropriadas". Juliano prestou serviços no Edifício Spot por um total de nove meses e nega ter recebido qualquer advertência, apontando, inclusive, ausência de supervisão no turno da noite.

"Obtivemos alguns depoimentos de moradores do condomínio entristecidos pelo fato dele ter sido demitido. Pelo o que ouvimos, ele era o porteiro mais querido de lá. As pessoas não acreditaram que ele tinha sido demitido por ter prestado socorro no acidente. Não temos nenhuma prova de que ele tinha condutas inapropriadas, nenhum registro. São apenas argumentações", defendeu a advogada Rubia Alves.

A ação ainda não foi protocolada e, segundo a advogada, Juliano ainda está realizando entrevistas e em trâmites de seleção antes de fechar um novo contrato de trabalho.

O UOL entrou em contato com o Grupo IF3 que informou que "não haveria porque constar 'Demissão por Justa Causa' porque a dispensa de fato não foi por justa causa, apesar da falta grave cometida."

"O Grupo IF3 reitera ainda que segue rigorosamente a legislação trabalhista vigente e, portanto, não tem mais nada a declarar sobre os fatos já esclarecidos", informou a empresa em nota.

O caso

Juliano estava jantando na guarita no dia 1º de fevereiro quando, por volta das 23h30, ouviu gritos de crianças e, em seguida, uma pancada muito forte. Ele olhou para a janela de onde estava e viu um carro capotando, passando por cima de outro que estava parado no cruzamento. Com curso de primeiros socorros, ele decidiu ajudar as vítimas, encontrando um motorista, de 41 anos, desacordado no carro.

Ao UOL, ele confirmou que ficou 2h59 no local do acidente já que, após a retirada da vítima pelas autoridades, ele decidiu ajudar os familiares com os encaminhamentos finais, como o chamado do guincho para remoção do veículo. "Eu estava lá para ajudá-los com o procedimento porque eles [pais da vítima] não tinham como fazer. Eles não tinham condições psicológicas para fazer isso. Mas, se olhar nas câmeras de segurança, dá para ver que eu estava a todo tempo próximo à portaria e de olho."

Em nota, o Grupo IF3, responsável pela segurança do condomínio, afirmou que "se o senhor Juliano tivesse prestado socorro, o qual terminou às 00h15, com a saída do Resgate com a vítima, e tivesse retornado ao condomínio, não estaríamos debatendo os fatos". O empreendimento também disse que a decisão da demissão não se deu simplesmente pelo fato de Juliano ter socorrido as vítimas.

A empresa alegou ainda "condutas impróprias" por parte do colaborador e advertências verbais anteriores ao acidente. O ex-funcionário nega desgastes anteriores ou qualquer advertência, acrescentando que todas as intercorrências são registradas em ata oficial do condomínio. "À noite, a gente tem pouco contato com o supervisor e eu nunca recebi uma visita de um noturno."

A família da vítima chegou a entrar em contato com Juliano para agradecer o socorro. A mãe do motorista relatou, em vídeo enviado ao porteiro, que o filho estava sem cinto de segurança e que os primeiros socorros foram cruciais para manter a vida dele. "Meu filho está bem hoje por ter sido socorrido imediatamente naquele momento", disse ela.

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