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Delegada presa blindou carro com empresa ligada a suspeito do jogo do bicho

A delegada Adriana Belém no Camarote do King, na Marquês de Sapucaí - Reprodução/Instagram
A delegada Adriana Belém no Camarote do King, na Marquês de Sapucaí Imagem: Reprodução/Instagram

Ruben Berta

Do UOL, no Rio

13/05/2022 04h00

Um dia antes de ser presa pelo MP-RJ (Ministério Público do Rio) em operação contra uma rede de apoio a jogos de azar, a delegada licenciada Adriana Belém presenteou o filho com um carro blindado por uma empresa ligada a um suspeito de contravenção. O serviço custa entre R$ 60 mil e R$ 90 mil, segundo valores de mercado.

Em postagem no Instagram em que mostrou o carro, Belém marcou a MG Tech Blindagem. A empresa pertence a Lilian Cristina Martins Maia, irmã de João Carlos Martins Maia, conhecido como Joãozinho King. Segundo o MP-RJ, ele é "popularmente conhecido por seu envolvimento com o jogo do bicho".

O UOL enviou e-mail para a MG Tech Blindagem questionando a forma como o serviço foi pago, mas não obteve retorno. A reportagem entrou em contato com Joãozinho King por WhatsApp, mas ele não respondeu. Procurada, a advogada Luciana Pires, que defende Adriana, não quis se manifestar.

King não aparece como investigado na ação movida pelo MP-RJ. Os promotores mencionam, contudo, a relação de Adriana com Lilian Maia —segundo o MP-RJ, a delegada tem "laços de amizade com a irmã e sócia do suspeito de operar ilegalmente pontos de jogos de azar, atividade que deveria ser reprimida por ela na condição de integrante da Polícia Civil".

A denúncia à Justiça contém fotos de Adriana com Lilian Maia e também da delegada frequentando o Camarote do King na Marquês de Sapucaí no Carnaval deste ano.

"Temos que esta delegada de polícia e seus familiares possuem intensos laços de relacionamentos sociais com pessoas altamente suspeitas de envolvimento em atividades delitivas, o que sequer é objeto de tentativa de ocultação, mas é compartilhado com ampla publicidade em redes sociais."

Apesar de a MG Tech Blindagem estar atualmente apenas no nome de Lilian Maia, a empresa teve Joãozinho King oficialmente entre os sócios entre 2008 e 2012.

A MG Tech figura na lista de patrocinadores do Camarote do King, que é promovido há vários anos por João Carlos no Sambódromo.

Assim como Adriana Belém, que tem atualmente mais de 170 mil seguidores no Instagram, João é popular na rede social, com 100 mil seguidores.

Ele se apresenta como "criador e idealizador do 'Camarote do King' e da famosa festa 'Feijoada do King' com 11 anos de tradição". Os eventos costumam contar com celebridades.

Em seu perfil, João Carlos divulga fotos e vídeos de viagens ao exterior e de refeições em restaurantes de luxo.

Em 2011, ele foi processado pela morte do policial civil Marcelo Bittencourt Luz em uma boate no Rio, mas foi absolvido sob a alegação de legítima defesa.

O carro que Adriana deu para o filho é um Jeep Compass, que custa cerca de R$ 130 mil. O presente é de fevereiro, mas apenas nesta semana, na véspera da Operação do MP-RJ, a delegada anunciou a blindagem do veículo no Instagram.

"Agora não vou mais andar de bicicleta, estou habilitado. E é tudo graças à minha mamãe linda do meu coração", disse o filho de Adriana em um dos vídeos.

Em consulta pública no site do Detran do Rio (Departamento de Trânsito do Estado do Rio de Janeiro), é possível ver somente o primeiro nome do proprietário do carro: Richard. O veículo foi fabricado em 2021, mas é modelo 2022.

A defesa da delegada não esclareceu se o serviço de blindagem foi feito de forma gratuita.

No pedido de revogação da prisão de Adriana, os advogados dela mencionam a publicidade no Instagram como uma das justificativas para o R$ 1,8 milhão em espécie encontrado em sua casa na Barra da Tijuca.

A defesa cita como "exemplo da demonstração de licitude do valor apreendido" "uma simples e rápida análise das redes sociais da delegada, atualmente com mais de 160 mil seguidores, também monetizada".

Adriana Belém está presa no Instituto Penal Oscar Stevenson, em Benfica, zona norte do Rio.

Ela é acusada pelo MP-RJ de fazer parte de uma rede de apoio ao bicheiro Rogério de Andrade, que teria facilitado a devolução de máquinas caça-níqueis apreendidas em uma casa de jogos clandestina em 2018.

Segundo a investigação, o PM reformado Ronnie Lessa, réu pela morte da vereadora Marielle Franco, associou-se a Rogério de Andrade para administrar o bingo. O MP-RJ diz que Adriana e outros dois policiais encontraram-se em um restaurante na Barra da Tijuca para negociar a liberação dos caça-níqueis apreendidos que estavam sob a guarda da 16ª DP, à época chefiada por ela.

Em depoimento à Corregedoria da Polícia Civil no ano passado, a delegada confirmou ter se encontrado com Lessa na presença de outros dois policiais na padaria Concha Doce, na Barra da Tijuca.

Segundo ela, a reunião de curta duração foi para falar sobre uma investigação de um caso em que Lessa foi baleado. Ela negou que, na ocasião, assuntos sobre a prática de contravenção tenham sido abordados.

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