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Mulher em trabalho de parto é deixada só por 1h30 em hospital e perde bebê

Priscila Barbosa, 20, perdeu a filha após 12 horas de trabalho de parto que foi induzido pela equipe médica - Arquivo pessoal
Priscila Barbosa, 20, perdeu a filha após 12 horas de trabalho de parto que foi induzido pela equipe médica Imagem: Arquivo pessoal

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

22/06/2022 19h23

Após uma gravidez normal e com pré-natal em dia, a jovem Priscila Barbosa, 20, deixou o Hospital Municipal Mariska Ribeiro, em Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro, sem a filha nos braços. O bebê morreu após 12 horas de trabalho de parto, que foi induzido pela equipe médica da unidade.

Priscila, que estava na 40ª semana de gestação, contou ao UOL que foi internada no hospital, no último dia 8, em decorrência de pressão alta. No dia 10, começou o processo de indução do parto normal, que terminou somente no dia 11 com uma cesariana e com o nascimento da filha Alice, já sem sinais vitais.

A jovem relatou as horas seguidas de sofrimento, dores e pedidos de cesárea negados. Segundo ela, quando finalmente a médica e a mãe dela, que a acompanhava, conseguiram ver a cabeça do bebê encaixando no canal vaginal, a médica se ausentou e demorou mais de 1h30 para voltar ao quarto. A gestante e a mãe ficaram sozinhas, sem qualquer acompanhamento médico.

Ela disse: 'já volto' e esse 'já volto' demorou mais de 1h30. Só fui para o centro cirúrgico quando ela colocou dois aparelhos e não conseguiu mais ouvir os batimentos cardíacos da minha filha. Alice nasceu, mas já sem vida. Senti a mão da minha mãe gelada e tremendo. Foi nesse momento que ela viu a Alice sair e os médicos tentando reanimar. Minha mãe viu tudo.

Priscila tem certeza que, se não fosse o atendimento médico oferecido, ela teria voltado para casa com a filha.

"Eu passei por mais de quatro médicos. Todos negaram meu pedido de cesárea. Essa última médica chegou a dizer que eu só tinha 20 anos e era muito jovem para ficar com uma cicatriz enorme na barriga. Foi um atendimento precário dessa última doutora".

Foi a mãe de Priscila quem contou à jovem sobre o falecimento da bebê. Medicada com calmantes, ela disse que chegou a acordar em uma enfermaria ao lado de uma outra mãe, que estava com um recém-nascido no colo.

"Quando vi aquilo comecei a chorar desesperada. Só depois me botaram num quarto isolada".

Ela conta ainda que a família não foi procurada pela equipe médica para explicar as causas da morte da criança.

O UOL teve acesso à certidão de óbito da bebê Alice. No documento, o motivo indicado foi aspiração de líquido mecônio (as primeiras fezes do recém-nascido) e duas paradas cardíacas.

É uma dor que nunca vai passar. Nunca vou esquecer.

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio não respondeu sobre o questionamento da reportagem sobre o que justificou a necessidade da médica se ausentar durante o atendimento e a falta de acompanhamento da paciente por cerca de 90 minutos.

A instituição, no entanto, se pronunciou e lamentou o falecimento do bebê, informando que as circunstâncias dos óbitos estão sendo investigadas, "como é feito habitualmente em todos os óbitos neonatais ocorridos na rede".

A SMS destacou ainda que utiliza os protocolos preconizados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que recomenda o uso da cesariana quando os benefícios são superiores aos riscos, já que se trata de um procedimento cirúrgico.

"Durante o período de internação há a avaliação médica constante para adoção do melhor protocolo hospitalar, que pode ser revisto de acordo com o quadro de saúde do bebê e da paciente".

O caso foi registrado na 34ª DP (Bangu). Segundo a Polícia Civil, profissionais que prestaram atendimento médico serão chamados para prestar depoimento. A unidade apura a denúncia de negligência.

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