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Bolsonarista que matou petista foi preso em 2018 por xingar policiais no RJ

Bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranho ao lado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro (PL) - Reprodução
Bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranho ao lado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro (PL) Imagem: Reprodução

Weudson Ribeiro

Colaboração para o UOL, em Brasília

11/07/2022 18h20

O policial penal bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranho que matou a tiros o guarda municipal filiado ao PT Marcelo Aloizio Arruda na noite de sábado (9), em Foz do Iguaçu, precisou ser algemado e detido, em 2018, após ofender a honra de ex-colegas da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Um processo, aberto por crime de desacato, foi arquivado na Justiça do Paraná.

Documento a que o UOL teve acesso mostra que, em junho de 2018, um sargento e um capitão da PM registraram boletim de ocorrência na Polícia Civil do Rio de Janeiro após terem sido insultados por Guaranho durante uma abordagem. "Jorge Guaranho se aproximou dos policiais militares, identificou-se como ex-PM e atual policial federal. Em seguida, passou a ofender o capitão da PM, xingando-o de 'oficial de merda, capitão de merda', e chamou o sargento de 'praça baba-ovo e praça de merda', e mandou que os mesmos fossem embora do local", diz a peça.

Guaranho trabalhou na PMRJ por cerca de dois anos antes de se tornar policial penal federal. Ao UOL, a corporação afirmou que o ex-militar não foi alvo de processos internos e que não há registros de conduta violenta por parte dele dentro da instituição. "O referido homem fez parte da PMRJ por menos de dois anos e, aparentemente, saiu da corporação por ter passado em outro concurso público", afirmou o órgão em nota.

Intolerância motivou crime no Paraná, diz mãe

Mãe de Guaranho, a comerciante Dalvalice Rosa diz acreditar que a intolerância política foi o que motivou o filho a matar a tiros o guarda municipal Marcelo Aloizio Arruda. "Estamos sem chão. O que aconteceu tem a ver com extremismo e intolerância política. Eles não se conheciam, e nada mais explica essa tragédia", afirmou Dalvalice ao UOL.

O crime ocorreu dentro da Aresf (Associação Recreativa Esportiva Segurança Física), clube em que Arruda comemorava o aniversário de 50 anos numa festa temática com símbolos do PT e imagens do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ao UOL, testemunhas dizem que Guaranho se deslocou ao local após um jantar com a esposa e um bebê de cerca de 3 meses.

A mãe do policial penal afirma que o filho tocou músicas de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL) enquanto fazia uma ronda de carro pelo clube, do qual ele seria sócio. O UOL tenta contato com a direção da Aresf. Segundo registros da Polícia Civil, Guaranho fez ainda ameaças de morte a pessoas que participavam da festa de Arruda. Do banco de trás, a mulher do bolsonarista teria pedido ao marido para que parasse com as provocações e fosse embora. Eles deixaram o local após Arruda jogar pedras no veículo de Guaranho, que reagiu apontando uma arma em direção ao guarda municipal petista.

Segundo imagens de câmeras de segurança, cerca de 20 minutos depois, o policial bolsonarista retornou sozinho à Aresf. Nesse momento, a mulher de Arruda, Pâmela Suellen Silva, se identificou como policial civil. Foi quando Guaranho começou a atirar no petista.

"Se eu estivesse lá, teria tentado impedir que isso acontecesse. Mal consigo imaginar a dor da outra família. Não se discute sobre religião, futebol, e politica... Ninguém ganhou nada com essa provocação, só houve perdedores", afirma a mãe do bolsonarista.

Estado grave: Guaranho levou 3 tiros, um no rosto

Ferido, o guarda municipal petista revidou os tiros que havia recebido do bolsonarista. Ao UOL, Dalvalice afirmou que o filho foi atingido no rosto e nas duas pernas. De acordo com ela, o policial penal sofreu ainda um edema na cabeça provocado por chutes desferidos por homens presentes no local em que ele havia disparado contra Arruda. A Polícia Civil investiga se as agressões contribuíram para a gravidade do estado de Guaranho.

Bolsonaro repreende Guaranho e critica esquerda

O presidente Bolsonaro se pronunciou sobre o assassinato na noite de domingo. "Independente das apurações, republico essa mensagem de 2018: Dispensamos qualquer tipo de apoio de quem pratica violência contra opositores. A esse tipo de gente, peço que por coerência mude de lado e apoie a esquerda, que acumula um histórico inegável de episódios violentos", escreveu.

Guaranho usa as redes sociais principalmente para defender o mandatário, se diz contra o aborto e drogas e afirma que armas são sinônimo de defesa. Em junho de 2021, ele aparece numa foto ao lado do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). "Vamos fortalecer a direita", escreveu em abril deste ano.

Prisão decretada e delegada trocada

O governo do Paraná informou na manhã de hoje a saída da delegada Iane Cardoso do comando da investigação sobre o assassinato do guarda municipal Marcelo Arruda. Ela foi substituída pela delegada Camila Cecconello, que chefia a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa, sediada em Curitiba (PR). A mudança ocorreu depois de a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) dizer ter recebido relatos de que Iane Cardoso fez postagens contra o PT em 2016.

A Justiça decretou a prisão preventiva do agente penitenciário Jorge Guaranho, que matou o guarda municipal petista. A informação é do Ministério Público do Paraná. O promotor Tiago Lisboa disse, em entrevista a jornalistas, que um juiz plantonista aceitou o pedido de conversão da prisão em flagrante para prisão preventiva na noite de ontem.

O Ministério Público informou que tanto a arma de Guaranho quanto a de Arruda eram institucionais, ou seja, de uso ligado à profissão. O órgão afirmou que apura se o crime teve motivação política. Para o promotor do caso, a investigação deve ser "de fácil resolução", mas é preciso esclarecer a razão pela qual Guaranho estava no local. De acordo com o MP, o agente seria membro de uma associação na região, vizinha de onde aconteceu o caso.