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Cabeleireiro é investigado por dizer 'não contratar preto, gorda e viado'

Diego Beserra Ernesto enviou áudio de desculpas admitindo falas preconceituosas, mas disse que não teve intenção de ofender vítimas - Reprodução
Diego Beserra Ernesto enviou áudio de desculpas admitindo falas preconceituosas, mas disse que não teve intenção de ofender vítimas Imagem: Reprodução

Do UOL, em São Paulo

08/02/2023 17h03Atualizada em 09/02/2023 08h19

Um cabeleireiro é investigado por injúria após gravar áudios ofendendo negros, homossexuais e pessoas acima do peso. Diego Beserra Ernesto, dono de um salão em Perdizes, na capital paulista, enviou as mensagens para Jeferson Dornelas, 49, que sublocava uma parte do comércio para atender suas clientes.

Jeferson, que é um homem negro, conta que uma profissional escolhida para uma vaga de assistente de cabeleireiro recusou o emprego um dia depois de ser aprovada. Ele lamentou o "não" em conversa com o colega, mas se surpreendeu com as respostas preconceituosas. Semanas depois, ao contar para a mulher sobre o caso, descobriu que ela recusou o trabalho já devido ao comportamento de Diego.

Eu coloquei uma regra para mim, eu não te enxergo dessa forma, não se ofenda, mas eu não contrato gordo, eu não contrato petista e eu não contrato preto, você está entendendo? No caso da mulher tem duas coisas: gorda e preta. Ela não cuida nem do próprio corpo, como vai ter responsabilidade na vida? Não tem."
Diego Beserra, cabeleireiro

Em conversa com Jeferson, que estava de costas para o colega durante a entrevista, a assistente de cabeleireiro contou que no dia da entrevista o dono do salão "fez caras feias"e "a olhou com desprezo". Nos áudios enviados ao colega, o próprio Diego não escondeu desprezo pela aparência da mulher e aproveitou para tecer comentários homofóbicos.

"Às vezes essas meninas que usam cabelos curtos são feministas, a gente não sabe, nã o estou generalizando, mas tem uma grande probabilidade, e feminista é um saco, você não pode falar nada. Esqueci de falar, mano, eu não contrato mais 'veado', principalmente 'veado', mas nem f*dendo, só se a pessoa estiver mentindo", afirmou ele.

Dono do salão ainda ironizou ex-funcionário que se disse "escravizado". Segundo Jeferson, os funcionários costumavam a trabalhar em jornadas das 8h às 23h, por um salário fixo, sem hora extra.

" Eu não conheço ela, mas, por exemplo, o Rodrigo virou para mim e falou: você está me escravizando, estou cansado de ser escravo. Ele é tipo moreno, entendeu? E eu já tive outro auxiliar também, negro, e tive problema. Não me interprete mal, mas essa é minha linha de raciocínio hoje".

Após a repercussão do áudio, Diego pediu desculpas. O caso foi inicialmente divulgado nas redes sociais de Jeferson, que abriu um Boletim de Ocorrência em 23 de janeiro, cerca de dez dias depois de receber as mensagens. O cabeleireiro diz que conviveu com o dono do salão por cerca de um ano e que já tinha ouvido comentários inapropriados, preferindo aconselhá-lo. Agora, a relação foi rompida e o profissional já trabalha em outro local.

"Estou te mandando esse áudio para me retratar para você e para pedir desculpas, de coração, se você se sentiu ofendido de alguma forma e também para todas as pessoas que tiveram acesso aos áudios da conversa paralela que eu tive com você. Já trabalhei com várias pessoas e todo mundo que me conhece sabe do meu caráter. Infelizmente, eu tive algumas falas preconceituosas, racistas, que acabaram magoando algumas pessoas, essa nunca foi a minha intenção, estou extremamente arrependido", alegou o suspeito em áudio enviado no mês passado.

Advogado de Diego disse que Jeferson "extraiu parte do áudio" para divulgá-lo por "interesses". Em nota ao UOL, Miguel Silva diz que assumiu a defesa do investigado apenas ontem e que "ainda está analisando o caso", mas defende que o cliente "em nenhum momento ofendeu Jeferson" e que suposto motivo para os áudios serem compartilhados será apurado.

As vítimas do caso estiveram ontem na delegacia para depor. Em nota, a Secretaria de Segurança Pública informou que um inquérito também foi instaurado pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. Novos depoimentos foram agendados para a próxima semana.