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Ficção ou realidade? Texto sobre furto de livro confunde jornal e escritora

Livros que teriam sido roubados (mas não foram) da livraria - Reprodução/Instagram @livrariajenipabobh
Livros que teriam sido roubados (mas não foram) da livraria Imagem: Reprodução/Instagram @livrariajenipabobh

Do UOL, em São Paulo

02/04/2023 07h19

Ter o controle das coisas é uma aspiração humana. A história de um furto ordinário numa livraria de Belo Horizonte reforça que esta ambição é inatingível. Uma ação de bandidos pé de chinelo foi transformada em crônica pela vítima. Um jornalão tomou a ficção ao pé da letra e publicou matéria. Citada, uma escritora renomada reverberou a história. E a situação escapou do controle.

A sucessão de fatos se deu da seguinte maneira:

Primeiro ato

A Livraria Jenipapo, de Belo Horizonte, fez um evento literário na terça à noite (28). Eram 21h18 quando o casal de donos passou a chave na loja.

De madrugada, ladrões invadiram a livraria. Antes de serem escorraçados pelo alarme, fizeram a limpa no caixa e levaram o que mais havia de valor no local: notebook, celular, uma caixa de som e bonés.

Furto no Brasil é fato corriqueiro. A situação foi adiante por causa de um exercício literário espirituoso que converteu uma situação chata em gracejo.

Segundo ato

O dono da livraria, Fred Pinho, 43 anos, usa os acontecimentos da Jenipapo como matéria-prima literária. Com uma queda pela ironia, Fred temperou a história real do furto com elementos de fantasia

Na versão literária da história, os ladrões também furtaram os títulos "Tudo pode ser roubado" e "Direito à vadiagem". Os livros existem de verdade. A citação era uma referência bem-humorada do livreiro-cronista ao furto.

Fred também incluiu entre a lista de furtos "Canto eu e a montanha dança", de Irene Solà, que "borra divisas entre o real e a fábula", segundo a contra-capa. O título será discutido na próxima sessão do clube de leituras da livraria.

Dono de caligrafia bonita, Fred redigiu a crônica a mão, com caneta hidrográfica preta, e postou no Instagram.

Terceiro ato

De olho na audiência, a imprensa aprendeu a identificar assuntos com potencial de viralizar nas redes sociais. Isto deu prosseguimento a história do furto à livraria.

Após a postagem da crônica, a mulher do livreiro-escritor recebeu a ligação de uma repórter de um importante jornal mineiro. Respondeu a perguntas gerais sobre o furto.

A parte do furto dos livros não entrou na entrevista. Mas acabou indo parar no título da matéria na última sexta-feira (31). E chegou ao Twitter.

O jornal mineiro foi procurado, mas não se manifestou sobre o engano entre ficção e realidade.

Quarto ato

O livro "Tudo pode ser roubado" foi escrito por Giovana Madalosso, que tem livros traduzidos para o inglês, espanhol e foi finalista dos prêmios Jabuti e Clarice Lispector.

Madalosso viu a notícia do furto à livraria mineira e repostou a história no Twitter. Seu livro "Tudo pode ser roubado" havia sido, sim, roubado.

Pasmem, isso não é ficção"
Giovana Madalosso, no Twitter, antes de saber que a notícia estava errada

autora - Reprodução Twitter - Reprodução Twitter
Autora tuitou que criminoso levaram seu romance: "Tudo pode ser roubado"
Imagem: Reprodução Twitter

A descoberta da ficção

Sem saber que a matéria estava errada, jornalistas de outros veículos começaram a ligar para a PM de Minas Gerais, na expectativa de reproduzir a grande história do jornal mineiro.

Mas não houve ocorrência de furto de livros em Belo Horizonte na última semana, relatou ao UOL uma sargento da PM que dava plantão na assessoria de imprensa da corporação neste sábado. Acrescentou que, antes, também fora procurada por outros jornalistas.

A ocorrência só foi encontrada pela PM quando o UOL informou endereço e a data do furto à livraria. Com o registro policial em mãos, a sargento constatou que, embora a livraria tivesse sido furtada, não havia menção a nenhum livro entre os objetos levados pelos ladrões.

[Os donos da livraria] devem ter dado falta [dos livros] depois de registrar a ocorrência"
Sargento da PM de Minas Gerais

O caso foi esclarecido apenas quando Fred deu entrevista ao UOL: tudo não passava de um gracejo literário.

A escritora Madaloso soube pelo UOL do engano. Reagiu com o emoji do grito. No final, pasmem, era sim ficção.

Quando vi a notícia, achei meio estranha -- como era possível checar quais livros foram roubados? -- mas, estando num veículo sério, tomei por verdade. Postei a matéria e fiquei impressionada com a quantidade de comentários e com a repercussão em outras páginas. Uma pena que esse larápio [assaltante da livraria] não fosse tão culto quanto esperávamos".
Giovana Madalosso, escritora

Uma breve biografia de Fred

A história acabou, mas a orelha dos livros sempre contém informações sobre o autor.

Dono de livraria em Belo Horizonte, Fred começou a escrever quando era adolescente. Formou-se em História, tornou-se mestre em educação e hoje escreve contos e crônicas — muitas delas baseadas no dia a dia da livraria Jenipapo. Mas diz que não abusa para não invadir a privacidade dos clientes.

Não quero parecer a Bruna Surfistinha dos livreiros, desnudando nossos clientes leitores"
Fred Pinho, dono da livraria e escritor eventual

A história da crônica que confundiu jornal, escritora e até PM tem uma pitada adicional de ironia: as divisas borradas entre o real e a fábula, como no livro de Solà, só se tornaram visíveis —pasmem, diria a escritora, ou a ironia das ironias, para o livreiro— no primeiro de abril, dia da mentira.