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12 meses

'Sensação de morte': mulheres falam sobre uso de veneno de sapo em rituais

Reprodução/Wikimedia Commons
Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/05/2023 00h29

Mulheres que usaram a substância alucinógena retirada de uma toxina do sapo Bufo Alvarius relataram efeitos colaterais e sequelas psicológicas à TV Globo. Os casos aconteceram no Instituto Xamanismo Sete Raios, de São Paulo.

O que se sabe

A substância chamada popularmente como "bufo", inalada em rituais xamânicos e retirada de uma toxina do sapo Bufo Alvarius, é proibida no Brasil. Segundo relatos, ela provoca alucinações e efeitos colaterais graves.

Ouvida pela TV Globo, a advogada e empresária Gabriela Silva diz que passou a frequentar esse tipo de cerimônia espiritual depois da morte do irmão.

Ela pagou R$ 1.300 por uma dose de bufo para ela e para o marido em um ritual em março de 2021. "Foi uma experiência horrível, de morte, de abismo", afirmou a advogada, dizendo que a partir dessa experiência passou a enfrentar crises de pânico e de ansiedade e chegou a ser afastada do trabalho.

Gabriela lidera um grupo de pessoas que dizem ter piorado psicologicamente depois da experiência. O grupo entrou na Justiça contra o instituto de xamanismo que oferece a aplicação do bufo. "Eu estava tendo pensamentos suicidas. Eu tinha altos impulsos, de me jogar da janela. E eu nunca tinha tido nenhum problema psicológico", afirmou uma mulher que não quis se identificar e que participa do grupo.

Demitida após a experiência, a comissária de bordo Franciele Roggia disse que passou a ter medo de andar de avião. "Eu estava em busca de uma cura para minha depressão e minha ansiedade", afirmou à TV Globo.

Elas disseram que, quando pediram ajuda ao instituto, ouviram que "era assim mesmo" e que era necessário "passar a escuridão para encontrar a luz". Segundo Franciele, o instituto orientou que ela parasse de tomar os remédios para a depressão e ansiedade duas semanas antes da experiência.

A advogada do instituto, Cecília Galício, admite a "falha" no cuidado na triagem e no acompanhamento após o uso da substância. "A palavra seria uma falha no acompanhamento desse processo."

Contudo, a defensora alega que as pessoas sabiam no que estavam se envolvendo. "Elas tinham plena ciência de que se tratava de Bufo Alvarius. Porque toda a dinâmica do grupo e do ritual, inclusive essa questão a respeito da substância que veio do México, foi explanada para todas as pessoas, em todos os momentos."

Há um inquérito aberto por tráfico de drogas contra o instituto. A advogada diz que a entidade parou com os rituais envolvendo o bufo. "Eles tinham conhecimento de que a substância era proibida, mas não tinham conhecimento de que essa substância não poderia ser utilizada em rituais religiosos."

Ela também disse que os métodos do instituto mudaram após os episódios negativos. "O grupo vai estar atento ao cuidado, à atenção das pessoas e à maneira como as pessoas podem ser afetadas eventualmente com essas experiências."

O que é o bufo

A substância chegou ao Brasil vindo do México e é retirada de um sapo que vive no deserto, o Bufo Alvarius. A toxina é produzida pelo sapo para se livrar de predadores, mas vem sendo utilizada em cerimônias xamânicas.

Os efeitos psicodélicos do bufo, que são muito intensos, duram cerca de 20 minutos.