Conteúdo publicado há 1 mês

Vídeo de suposta armação e suspeita de corrupção abrem crise na PM de Goiás

Um vídeo da suposta armação após assassinatos cometidos por PMs de Goiás, somado ao avanço de um processo que cita indícios de corrupção envolvendo um grupo de extermínio, abre uma crise institucional na corporação e coloca em xeque a política de segurança pública no estado, apontam especialistas.

O que aconteceu

Uma ação da PM com suposta armação após o assassinato de dois homens foi gravada pelo celular de uma das vítimas sem que os agentes percebessem. Com base nas imagens registradas na tarde de 1º de abril nas proximidades do Setor Jaó, em Goiânia, a Polícia Civil indiciou seis PMs.

Eles respondem por duplo homicídio qualificado por dissimulação e por recurso que impossibilitou a defesa das vítimas. Wandson Reis dos Santos, Allan Kardec Emanuel Franco, Marcos Jordão Francisco Pereira Moreira, Wellington Soares Monteiro, Pablo Henrique Siqueira e Silva e Diogo Eleutério Ferreira estão detidos no presídio militar de Goiânia. Procurada, a defesa dos PMs disse que não iria se manifestar.

Em relatório encaminhado ao Judiciário, a Polícia Civil disse ter "grande dificuldade" em obter respostas da PM e do Instituto de Criminalística para concluir o inquérito. De acordo com o documento obtido pelo UOL, perícias nos celulares dos policiais, nos corpos das vítimas e no local do crime também não haviam sido anexadas ao inquérito antes da notificação judicial, ocorrida no fim de maio.

Delegado relatou entraves na notificação de suspeitos para a reprodução simulada do crime. O objetivo é que os PMs participem do exame, onde são esclarecidas as dúvidas sobre a ação deles na ocorrência que matou Junio José Aquino Leite, 40, e Marines Pereira Gonçalves, 42. Os problemas só foram solucionados após a notificação. A reprodução simulada ocorreu na sexta-feira (7).

Investigadores também não haviam recebido informações sobre as viaturas usadas na abordagem. A Polícia Civil anexou junto ao processo os ofícios não respondidos pela Corregedoria da PM e pelo COD (Comando de Operações de Divisas), unidade de elite da corporação onde atuam os suspeitos.

Há nos autos reiterações de requisições a ambos os órgãos e até comunicações ao comandante-geral da Polícia Militar solicitando providências. Passados quase 60 dias do fato, ainda não foram recebidas diversas informações e perícias requisitadas.
Carlos André Ferreira Alfama, delegado

O que mostra o vídeo

"Abre, ô, desgraça!", ordena um dos PMs. Ele aparece nas imagens no lado externo, em abordagem a pessoas em um veículo.

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Em seguida, é possível ouvir tiros. Nesse momento, o celular cai e ouve-se o som da sirene da PM sendo acionada.

Ação gravada que matou dois suspeitos no dia 1º de abril mostra PM atirando em Goiânia
Ação gravada que matou dois suspeitos no dia 1º de abril mostra PM atirando em Goiânia Imagem: Reprodução

"Mãos na cabeça!", repete um dos PMs. Então, são dados novos disparos. Os policiais atiraram quase 20 vezes durante a abordagem, segundo consta no boletim de ocorrência. Os dois homens mortos não aparecem com armas nas mãos nas imagens.

A Polícia Civil apura se o vídeo mostra PMs simulando armação. Um deles retira a arma de um saco plástico. O outro agente atira, simulando disparar na direção onde estava o PM no momento da abordagem.

Junio José Aquino Leite, um dos mortos na ação, era informante da própria PM. Ele havia delatado policiais por extorsão quando foi preso em 2020, segundo as investigações.

A Secretaria de Segurança Pública de Goiás se limitou a confirmar as prisões dos agentes.

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O que dizem os especialistas

Não existe um mecanismo claro de controle dessas ações da PM. Foi necessário que surgisse uma gravação acidental para desmontar o discurso de uma das PMs mais violentas do país, que se orgulha da forma dura como age. Esse vídeo passa a seguinte mensagem: 'não necessariamente é verdade a versão que os PMs apresentam nas ocorrências'.
Dijaci David de Oliveira, coordenador de pesquisas sobre criminalidade e violência da Universidade Federal de Goiás

A letalidade policial em Goiás tem apoio de uma parcela da população, que repete o discurso de que 'bandido bom é bandido morto'. Esse tipo de caso não costuma ser bem investigado, legitimando essas mortes. Quando há um caso como o desse vídeo, o discurso é de que foi exceção. Na verdade, são só os policiais que foram pegos. Antes, eram tidos como heróis.
Bartira Miranda, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

O que a gente tem escutado das famílias de mortos pela PM é de que essas pessoas têm sido mortas quando já estavam rendidas. A PM de Goiás é desnecessariamente letal e tem alterado a cena do crime, subtraindo armas do local antes da chegada da perícia. Isso compromete a credibilidade da própria instituição.
Diego Mendes, advogado do coletivo Mães pela Paz contra a Violência Policial

Outro homicídio e 'confraria da morte'

Dois dos PMs presos também respondem a um processo por homicídio em Rio Verde (GO), em novembro de 2023. O tenente Wandson e o sargento Marcos Jordão faziam patrulhamento quando tentaram abordar um suspeito, que teria atirado contra eles, segundo alegaram em boletim de ocorrência para justificar a ação. Os PMs então atiraram no homem, que morreu no local.

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PMs de Goiás nutre "cultura de crimes" até em treinamentos. Um vídeo mostra uma formação do COD com agentes citando assassinatos de suspeitos e buscas por testemunhas.

Matar o bandido, acende uma vela. Bota ele na mala (...). E a testemunha aponta o caçador (...). Eu tô de viatura caçando esse covarde. Se eu pego, eu atiro.
Um dos trechos de música em preparação do COD da PM de Goiás

Conforme o MP, policiais militares são investigados por uma série de ações com mortes em circunstâncias suspeitas. Outra investigação do MP de Goiás indica que grupo de extermínio unidade da PM movimentou quase R$ 12 milhões em 4 anos, quantia incompatível com a renda dos policiais, diz a Promotoria. O UOL não localizou a defesa deles.

Informação consta em decisão judicial de setembro de 2023 que decretou a prisão de dez agentes supostos integrantes da chamada "confraria da morte". Eles estão presos por suspeita de oito assassinatos de testemunhas de crimes que teriam sido cometidos pelos próprios PMs em 2021. Eles são suspeitos de envolvimento no assassinato do empresário Fabio Escobar, que desencadeou uma série de mortes de testemunhas cometidas pela "confraria da morte", aponta o MP.

Outros oito policiais do COD são investigados pela Polícia Civil de Goiás por suspeita de matar três jovens e um adolescente e simular troca de tiros para justificar a ação. Médico disse em depoimento ter sido coagido pelos PMs a falsificar laudo dizendo que os suspeitos só morreram no hospital. Caso ocorreu em maio de 2022, em Rio Verde (GO).

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