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Transparência é único caminho para o Vaticano, diz jornalista que divulgou cartas secretas do papa

Fernanda Calgaro

Do UOL, em São Paulo

04/03/2013 06h00

Diante das polêmicas de corrupção e escândalos sexuais compilados em um dossiê apontado pela imprensa como catalisador da renúncia de Bento 16, o Vaticano precisa adotar uma postura mais transparente, avalia Gianluigi Nuzzi, autor do livro que abasteceu o escândalo do Vatileaks.

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“A transparência é uma, e a única, estrada da qual não podem abrir mão”, afirmou em entrevista ao UOL por e-mail.

O que não quer dizer que os segredos do relatório de mais de 300 páginas virão a público um dia. Após especulações de que o agora papa emérito revelasse aos cardeais as conclusões do documento, Bento 16 afirmou que pretende entregá-lo apenas ao seu sucessor.

No dossiê, encomendado por ele a três cardeais de confiança, são descritas as lutas internas pelo poder no Vaticano, assim como um esquema de chantagem a clérigos homossexuais. Para Nuzzi, o relatório certamente influenciou na renúncia do pontífice, que se viu isolado e sem forças.

A investigação veio na esteira do Vatileaks, como ficou conhecido o vazamento de documentos confidenciais endereçados a Bento 16 sobre casos de corrupção no Vaticano.

As cartas, vazadas pelo mordomo do então papa, foram reunidas por Nuzzi no livro "Sua Santidade: As Cartas Secretas de Bento 16" (ed. Leya). Após a renúncia de Bento 16, Nuzzi preparou uma versão ampliada, batizada de “Ratzinger was Afraid” (“O papa estava com medo”), disponível pela Amazon.com a partir do próximo dia 15 apenas em inglês e na versão eletrônica.

A parte extra traz os bastidores da renúncia e os encontros que o papa teve depois do Vatileaks, além das razões que fizeram o mordomo tornar pública a correspondência. Veja a seguir os principais trechos da entrevista com Nuzzi.

UOL - Qual a sua opinião sobre o dossiê?
Gianluigi Nuzzi -
Creio que este relatório definitivamente convenceu o papa Bento 16 de que a Igreja precisa de um guia forte e “político”, capaz de levar adiante uma reforma obrigatória de que a Cúria romana necessita.

Acha que a Igreja deve revelar para a sociedade o conteúdo do dossiê? Quais as chances de o Vaticano fazer isso?
A transparência é uma, e a única, estrada da qual não podem abrir mão. Só o conhecimento ajuda, mas entendo que haja o risco de uma “secularização” de certos poderes e funções.

Segundo a imprensa, Bento 16 decidiu renunciar após tomar conhecimento das conclusões do relatório. Concorda?
Certamente, [o dossiê] influenciou [na renúncia], mas ainda é muito cedo para saber o peso que teve na decisão do papa. A influência de um assim chamado “lobby gay” na vida econômica e financeira da Cúria é uma acusação que muitas vezes ecoa dentro da Santa Sé.

Qual o tamanho desse grupo e a influência dele no Vaticano?
É uma discussão muito delicada. Sem provas, você tem que ter cuidado para não entrar no jogo de alguém, caindo nas manipulações habituais.

Que outros grupos atuam dentro do Vaticano e o que está em disputa?
Poder, negócios, interpretações diversas da missão, promoções [na hierarquia], transferências e “individualismos que deturparam o rosto da Igreja”, para repetir as palavras de Bento 16, são os motivos principais que dividem a Cúria, disputada por grupos como Opus Dei e movimentos como os focolares [movimento ecumênico que prega o Evangelho], Comunhão & Libertação [movimento missionário], os grupos chamados “diplomáticos”, ou seja, de monsenhores, bispos e cardeais que cresceram dentro da diplomacia, alemães que orbitam em torno do monsenhor Geor [Gänswein, secretário particular de Ratzinger] e o próprio papa [emérito]... Podemos continuar com os jesuítas, o grupo de poder representado pelo secretário de Estado, Tarcisio Bertone...

Bento 16 disse que entregará o dossiê a seu sucessor para que este decida o que fazer. Acha que ele se sentiu isolado para lidar com a questão?
Estou convencido disso: este papa está sozinho e foi deixado sozinho.

Como essa tensão impactará o conclave?
Todo mundo espera do conclave uma resposta adequada à renúncia de Bento 16, que foi um gesto absolutamente revolucionário.

Qual o impacto que a renúncia do papa e as suspeitas de corrupção e escândalos sexuais terão na imagem da Igreja?
A questão da fé é algo diverso da confiança no Vaticano. A Igreja é de todos; o Vaticano representa, infelizmente, um negócio, "individualismos" que "desfiguram o rosto da Igreja", como muitas vezes nos lembrou o próprio Ratzinger. Tudo dependerá de como o novo papa irá enfrentar a situação. O conclave irá conseguir pegar o bastão deixado por Bento 16 fazendo escolhas revolucionárias? Essa é a grande questão.

Que perfil o próximo papa deve ter? Que desafios ele irá enfrentar?
O desafio mais importante não é o papa, mas o secretário de Estado: se for escolhido um papa filipino, afrodescendente ou sul-americano será fundamental ver como será o secretário de Estado, se será italiano ou alinhado com seu predecessor.

Quais os seus palpites para o conclave?
O jogo está aberto; é imaturo fazer qualquer previsão hoje.

Estudiosos avaliam como grande a possibilidade de o próximo papa ser europeu. Quais seriam as vantagens e desvantagens?
Depende de quão reformador e transparente se tornará o poder no Vaticano. Perdeu-se muito tempo, a Igreja enfrenta desafios muito importantes para ser sufocada por disputas e uma lógica distante do Evangelho.

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