Desperdício ou fim do colonialismo? Nova Zelândia vota futuro da bandeira

Diego Freire

Colaboração para o UOL, em Auckland (Nova Zelândia)

  • Getty Images

    Você sabe dizer qual das duas bandeiras é a da Nova Zelândia? (resposta no fim do texto)

    Você sabe dizer qual das duas bandeiras é a da Nova Zelândia? (resposta no fim do texto)

"Se vocês soubessem quantas vezes, em eventos internacionais, me fizeram sentar na frente da bandeira da Austrália... não é engraçado, acontece sempre". O desabafo do premiê da Nova Zelândia, John Key, em entrevista a uma rádio local, dá o tom de um debate que ocorre pelo menos desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Há décadas a possibilidade de se mudar a bandeira neozelandesa é tema recorrente --e o momento decisivo chegou, com a etapa final de um referendo que opõe a flâmula atual e uma nova opção escolhida pelo público.

Entre os dias 3 e 24 de março a população enviará cédulas pelo correio para escolher o desenho preferido. A mais votada se tornará o símbolo máximo do país. Caso a nova bandeira seja vencedora, existe a possibilidade de veto da Rainha da Inglaterra e o governo pode decretar período de transição de até um ano antes de "aposentar" a que vigora desde 1902. Nas pesquisas de opinião, o modelo antigo aparece como amplo favorito --segundo dados de fevereiro do Instituto Curia Research, 56% dos entrevistados desejam mantê-lo, enquanto 36% defendem a mudança e outros 8% estão indecisos.

Os argumentos a favor da troca seguem a linha defendida pelo premiê. Dos 53 países da Commonwealth (comunidade formada quase totalmente por ex-colônias inglesas), excetuando o próprio Reino Unido, apenas quatro ainda possuem a bandeira britânica em suas flâmulas: Austrália, Nova Zelândia, Fiji e Tuvalu. Não à toa, o símbolo colonial é constantemente criticado, especialmente no caso de australianos e neozelandeses, que se definem como povos multiculturais.

Por outro lado, tradicionalistas consideram o referendo um desperdício de tempo e dinheiro. O orçamento estimado para todo o processo é de 26 milhões de dólares neozelandeses (equivalente a R$ 70 milhões), incluindo gastos como a alta remuneração dos 12 membros do "Comitê da Bandeira", criado para promover um debate com o público. Formado por acadêmicos, ex-esportistas, empresários e militares, que recebem no mínimo 640 dólares neozelandeses (mais de R$ 1.700) por dia trabalhado, o grupo se tornou motivo de piada ao organizar eventos fracassados, como workshops que atraíram, respectivamente, oito e dez pessoas nas cidades de New Plymouth e Christchurch.

Nova bandeira já tremula no país

"É nojenta a quantidade de dinheiro gasta pelo governo", critica Nic Scott, profissional de mídias sociais que administra a página "Don't Change New Zealand Flag" no Facebook. Carregando no braço uma tatuagem em referência à bandeira atual, ele se orgulha por ter mobilizado mais de 23 mil pessoas na internet: "consegui todos esses 'likes' sem apoio governamental. É revoltante que nosso primeiro-ministro não seja neutro e apoie publicamente um dos lados, além de deixar a nova flâmula tremular em lugares importantes".

Desde a etapa anterior do referendo, quando cinco bandeiras competiram entre si, o governo se dispôs a enviar gratuitamente réplicas de cada uma a estabelecimentos que as exibissem. Como resultado, boa parte do país já está pronto para uma possível mudança. Tal incentivo é visto por Scott como uma decisão em "benefício próprio" de um primeiro-ministro "egocêntrico".

Reprodução/New Zealand Government
Bandeira proposta pelo premiê neozelandês e que deve ser escolhida

Suspeita de fraude

"Estamos longe dos problemas do terceiro mundo, mas vemos crianças indo para a escola sem almoço. Além disso, Christchurch ainda sofre pelo terremoto de 2011, não há dinheiro para fazer a cidade voltar a ser o que era. Como gastar com a bandeira?", questiona Susan Lester, mãe solteira de 27 anos que criou uma petição online contra o referendo. Em um ano, ela conseguiu 54 mil assinaturas.

"Recebi muitos relatos de famílias ligadas à bandeira. O mais marcante foi o de uma menina, cujo pai morreu em combate no Afeganistão, que a chama de 'bandeira do papai', porque o caixão dele foi coberto por ela. E tantos que morreram lutando por essas cores? A maioria não quer a mudança, mas o governo insiste. Acredito em fraude na votação, já enviei minhas assinaturas ao Comitê da Bandeira e não tive resposta", analisa Lester.

Apesar de a Nova Zelândia ser considerada o quarto país menos corrupto do mundo, segundo ranking da ONG Transparência Internacional, um grande furor tomou conta das redes sociais após os resultados da primeira etapa do referendo. Suspeitas de manipulação foram levantadas, especialmente pelo grande número de votos considerados inválidos (9,7%). Em nota, o Comitê Eleitoral afastou a hipótese: "havia um espaço em código QR nas cédulas que não podia ser preenchido, quem escreveu por cima teve o voto invalidado, assim como todos que marcaram incorretamente os campos solicitados para votação".

Estrelas do rúgbi apoiam mudança

O grande trunfo da nova bandeira é o apoio de personalidades admiradas no país. Mais do que eliminar a marca do colonialismo britânico, o novo desenho finalmente pode dar status oficial à folha de silver fern, a planta que representa a Nova Zelândia e é mundialmente conhecida por estar no símbolo da vitoriosa seleção nacional de rúgbi, os All Blacks.

Alguns dos jogadores mais importantes do time, inclusive, emprestam suas imagens à campanha pela mudança. "Como personalidade do rúgbi, notei a união patriótica que tomou a África do Sul quando mudaram de bandeira [em 1994, marcando o fim do Apartheid]. Espero que façamos o mesmo, a Nova Zelândia também mudou e precisamos de símbolos como a silver fern para nos representar", declarou o ex-capitão Colin Meads em anúncio veiculado na mídia.

Outro ídolo, o ex-capitão dos All Blacks, Richie McCaw, sofreu represálias no Facebook após opinar sobre o assunto. Em um post, o atleta mostrava as flâmulas de Nova Zelândia e Austrália lado a lado e dizia que "uma nova bandeira seria ótima". Embora seja bicampeão mundial e tenha vencido o prêmio de "neozelandês do ano" em 2015, McCaw foi bombardeado com comentários indignados, inclusive o acusando de ter sido "comprado pelo primeiro-ministro".

O curioso é que a flâmula defendida pelo político foi criada despretensiosamente, há 15 anos, por um estudante universitário que sequer vive no país. Hoje aos 39 anos, morando na Austrália, Kyle Lockwood conta ter elaborado esboços do desenho durante uma aula da faculdade de arquitetura, em um trabalho sobre bandeiras mastreadas à frente de edifícios. Com alguns aperfeiçoamentos, tornou sua obra pública em 2003 e, desde então, a viu ser difundida.

David Rogers/Getty Images
Richie McCaw (centro), ex-capitão dos All Blacks, é a favor da mudança da bandeira

Cidadãos comuns aderem ao debate

Em meio à forte mobilização gerada pelo referendo, parte da população questiona sua importância. É o caso do contador Malcolm Ridling: "a maioria dos neozelandeses nem sabe quantas estrelas temos na bandeira. Não existe aquele orgulho que se vê em outros países, aqui o símbolo da seleção de rúgbi é mais conhecido que o do país", declara.

Mesmo considerando pouco relevante, Ridling enviará seu voto: "quero que siga como está, já lutamos guerras pelo Império Britânico e eles foram fundamentais na construção do que somos". Para ele, o povo neozelandês "está acostumado a engolir mudanças impostas pelo governo sem questionar" e provavelmente aceitará passivamente qualquer resultado na eleição.

Já os simpatizantes da mudança, mesmo que discordem da maneira como o referendo foi implantado, enaltecem a nova flâmula, descrita como "moderna", "forte" e "vibrante". Um deles, Malcolm Howeel, acredita que até a economia neozelandesa se beneficiará dela. "Viajei muitos países e é comum que nossos produtos apareçam em prateleiras de supermercados como sendo australianos. Precisamos acabar com essa confusão. A nova bandeira fará isso. Com a atual, a Austrália colhe nossos méritos. O quão patético é isso?", comenta.

Para Howeel, a vitória do novo representa um grande passo rumo ao futuro, desde que seus conterrâneos tenham "coragem de mudar para a melhor". Mesmo que não afete significativamente a vida no país, o referendo já serviu de motivação a movimentos semelhantes, sobretudo na vizinha Austrália, e colocou a Nova Zelândia em evidência.

Uma amostra da torcida internacional surgiu em um dos últimos episódios da série "The Big Bang Theory", quando o protagonista Sheldon Cooper, fanático por bandeiras, mostrou não estar indiferente: "boa sorte, seus neozelandeses loucos, estamos torcendo por vocês".

(A bandeira neozelandesa é a da esquerda, com as estrelas vermelhas; a da direita é a da Austrália)

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