Programa nuclear e até música pop afetam relação entre Coreias; entenda

Do UOL, em São Paulo

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    O presidente sul-coreano, Moon Jae-in (esq.), e o líder norte-coreano Kim Jong-un

    O presidente sul-coreano, Moon Jae-in (esq.), e o líder norte-coreano Kim Jong-un

Menos de duas semanas após a Coreia do Norte realizar um teste do seu primeiro míssil intercontinental, o novo presidente da Coreia do Sul ofereceu conversas na tensa fronteira que separa as duas Coreias, no que poderia ser a primeira reunião cara a cara entre os países 'rivais' desde 2015.

A abertura do presidente Moon Jae-in desta segunda-feira (17) mostrou que ele prefere diplomacia sobre pressão ou sanções econômicas para tentar melhorar os laços entre os dois países e persuadir a Coreia do Norte a desistir do seu programa de armas nucleares. Essa foi a primeira proposta formal do governo Moon para a Coreia do Norte desde o começo do seu governo em 10 de maio.

O governo Moon propôs duas rodadas de conversas para discutir uma forma de diminuir as tensões e retomar os encontros entre coreanos idosos que foram separados pela Guerra da Coreia (1950-1953).

Ainda não está claro se essas conversas serão realizadas. A Coreia do Norte recentemente expressou suspeitas sobre a política de Moon a respeito do Norte e alguns conservadores na Coreia do Sul se preocupam com a abertura, pois ela pode enfraquecer a pressão internacional sobre a Coreia do Norte.

Os norte-coreanos ainda não responderam à proposta do governo da Coreia do Sul.

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O que o presidente sul-coreano está planejando

Com a Coreia do Norte pressionando para expandir seu arsenal nuclear, a relação entre as duas Coreias encontra-se no ponto mais baixo em décadas. Dois governos conservadores anteriores a Moon, suspenderam envios de grande ajuda e projetos de maior cooperação e a comunicação entre as fronteiras foram encerrados. As negociações oficiais entre os lados não existem desde dezembro de 2015.

O presidente sul-coreano, que chama a política de seus antecessores de 'linha-dura' e de um fracasso total, disse que usaria o diálogo e a pressão para resolver o impasse entre os países. Depois que a Coreia do Norte disparou o míssil intercontinental, Moon rapidamente condenou o lançamento como uma provocação "imprudente" e "irresponsável". Mas ele ainda não recuou diante da Coreia do Norte, em um discurso recente ele disse que ambas Coreias devem parar as atividades "hostis" ao longo da fronteira e retomar os encontros familiares.

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Diálogo raro

Durante um período de distensão de 1998 a 2008, houve uma série de conversas e programas de intercâmbio entre as duas Coreias. Durante esse período, dois presidentes liberais sul-coreanos foram para Pyongyang e realizaram importantes conversas com o líder Kim Jong-il, pai do atual governante norte-coreano Kim Jong-un. Kim jong-il enviou o seu principal assessor, um espião-chefe e outros altos funcionários para conversas em Seul.

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Ex-presidente sul-coreano Kim Dae-jung em encontro com o ex-presidente norte-coreano, Kim Jong-il, em 2000

Porém, ao longo da última década, os dois lados recuaram os programas de conversas e de reconciliação. Embora ainda tenham ocorridos alguns encontros de alto perfil.

Em agosto de 2015, o segundo na hierarquia norte-coreana, Hwang Pyong, e o diretor de segurança nacional da Coreia do Sul, Kim Kwan-kin, se encontraram em Panmunjom, vila localizada na fronteira entre os dois países, e chegaram a um acordo para evitar possíveis mortes em um local onde ocorreram explosões de minas terrestres que mutilaram dois soldados sul-coreanos. Em dezembro de 2015, também ocorreram outras negociações que terminaram sem avanços, em um parque de fábricas na Coreia do Norte.

Enquanto as duas Coreias têm uma história de não cumprirem alguns acordos de aproximação que foram estabelecidos em raras conversas, qualquer diálogo entre os países é considerado um passo positivo para aliviar as tensões.

Clima de Guerra Fria

As duas Coreias recomeçaram a guerra psicológica da Guerra Fria após quatro testes nucleares da Coreia do Norte em janeiro de 2016. Seul começou a transmitir mensagens anti-Pyongyang e músicas de k-pop, um estilo musical pop sul-coreano, em alto-falantes na fronteira e a Coreia do Norte respondeu com suas próprias transmissões também na fronteira e com o lançamento de balões que carregavam folhetos anti-Coreia do Sul.

Especialistas acreditam que as transmissões e os folhetos da Coreia do Sul atingem mais a Coreia do Norte porque desmoralizam as tropas e os moradores e isso pode enfraquecer o apoio ao líder Kim Jong-un.

A Coreia do Norte poderá aceitar as propostas de conversa feitas por Moon. Mas eles podem estabelecer uma condição prévia para as negociações, como a suspensão de exercícios militares sul-coreanos em conjunto com o americano, pois enxergam isso como um exercício de invasão, de acordo com Koh Yo-hwan, professor da Universidade de Dongguk de Seul.

Se as conversações ocorrerem, as transmissões em alto-falantes, lançamento de folhetos de propaganda e os exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul devem estar entre os principais tópicos a serem abordados.

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Reencontro de parentes separados

As possibilidades de conversas sobre reuniões de familiares separados são menores, já que a Coreia do Norte deixou claro que não irá concordar com uma nova reunião a menos que Seul devolva alguns dos desertores norte-coreanos que vivem no Sul, que eles acusam de estarem sendo sequestrados por agentes sul-coreanos.

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Foto do reencontro de coreanos com seus familiares, no resort 'Diamond Mountain', na Coreia do Norte em 2015

As raras reuniões realizadas aconteceram pela última vez em um resort em uma montanha na Coreia do Norte em outubro de 2015, onde centenas de idosos coreanos e os membros de sua família se encontraram com outros familiares que estavam 'perdidos' desde que foram separados durante a Guerra da Coreia.

As reuniões são uma questão emocional porque a maioria dos participantes está em idade avançada e desesperados para ver os seus entes queridos antes de morrerem. Ambas as Coreias proíbem que seus cidadãos troquem cartas, telefonemas e e-mails com pessoas do outro país sem autorização do governo.

Autoridades sul-coreanas há muito tempo pedem a realização de reuniões com mais regularidade e a expansão do número de pessoas que participam. A Coreia do Norte olha isso com preocupação, já que fazer isso poderia abrir o país para influências sul-coreanas que podem ameaçar o controle do partido que está no poder.

*Com informações da AP

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