Acesso à internet estreita laços de moradores com parentes que deixaram Cuba

Da Reuters

Encontrar pessoas olhando fixamente para seus celulares, com seus rostos sendo iluminados pelas telas destes aparelhos, é algo cada vez mais comum em Havana. Quando cai a noite, cubanos e cubanas de todas as idades enchem as praças e ruas da cidade para acessar a internet e conversar com seus familiares que vivem fora do país --ou, simplesmente, navegar em redes sociais e outros sites que mostram como é a vida longe da ilha caribenha.

Há dois anos, a introdução de pontos de Wi-Fi em espaços públicos em Cuba alterou a rotina de uma sociedade que se encontrava quase totalmente "offline" --de lá para cá, estes "hotspots" foram instalados em 432 diferentes pontos da ilha.

Para acessar a internet, os cubanos devem comprar cartões que dão uma hora de acesso e custam US$ 1,50, valor que equivale a 5% do salário médio mensal de US$ 30. Outra opção, ainda proibitiva para os padrões cubanos, é fazer uma assinatura mensal pelo valor de US$ 15 --estima-se que metade da população de 11 milhões de habitantes se conectou à internet ao menos uma vez em 2016. 

"Muita coisa mudou", afirmou à Reuters Maribel Sosa, de 54 anos, ao lado de sua filha, após passar cerca de uma hora conversando pelo celular com familiares que vivem nos Estados Unidos. À reportagem, ela lembrou como antes costumava passar horas na fila para usar um telefone público por apenas alguns minutos para conseguir falar com o irmão, que emigrou para a Flórida nos anos 1980. 

Alexandre Meneghini/Reuters
Maribel Sosa (à esq.) e sua filha Claudia Espinosa falam com parentes que vivem nos Estados Unidos pelo celular, em Havana

Sosa acredita, no entanto, que ainda falta muita coisa para mudar. "Por que não podemos ter internet em casa?", questionou. 

Pouca privacidade

Nas ruas e praças de Havana, há a opção, também, de apelar para o mercado negro para conseguir um cartão que dê acesso à internet. Privacidade para as conversas, porém, é um artigo raro.

"Não há absolutamente nenhuma privacidade aqui", disse o guia turístico Daniel Hernandez, de 26 anos, depois de conversar por chamada por vídeo com sua namorada britânica. "Quando tenho coisas sensíveis para falar, tento me fechar no meu carro e falar calmamente".

Hernandez afirmou que a qualidade das conexões é boa apenas em alguns pontos específicos e quando não há muitos usuários conectados. À reportagem, ele contou ainda que usa a internet para procurar notícias --em Cuba, o governo exerce monopólio sobre a mídia.

Rene Almeida, de 62 anos, também reclamou da falta de privacidade para conversar com seus dois filhos que vivem nos EUA e do preço que tem que pagar para realizar as conexões.

"É melhor do que nada", disse ele. "Mas deve melhorar. Vai melhorar".

Alexandre Meneghini/Reuters
Daniel Hernandez senta sobre o capô de seu carro para conversar com a namorada que mora na Inglaterra, utilizando a conexão de um Wi-Fi instalado em uma rua de Havana

Internet para todos?

Algumas casas na ilha já contam com internet de banda larga, mas este acesso ainda é restrito a alguns profissionais, como jornalistas estudantes acadêmicos.

A empresa estatal de telecomunicações cubana prometeu levar estas conexões a todo o país e conectou centenas de habitações no final de 2016. Em setembro, representantes do governo cubano disseram que esse serviço seria levado para todo o país até o final de 2017.

A população, no entanto, afirma que promessas anteriores sobre esta questão não foram cumpridas --há quem diga que o governo não investe em novas conexões por temer perder o "controle" da população.

Havana, por sua vez, afirma que o lento desenvolvimento da infraestrutura de internet no país se deve aos altos custos envolvidos na operação, atribuídos em parte ao embargo comercial norte-americano, em vigor desde 1960.

Alexandre Meneghini/Reuters
O taxista Rene Almeida conversa com parentes que vivem nos EUA a partir de uma chamada de vídeo de seu celular, em Havana

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