Trump dá "Prêmio Fake News" a jornalistas dos EUA. Como a imprensa respondeu?

Do UOL, em São Paulo

  • Evan Vucci/ AP

    16.jan.2018 - Presidente dos EUA Donald Trump fala com a imprensa durante encontro com o presidente do Cazaquistão Nursultan Nazarbayev, na Casa Branca

    16.jan.2018 - Presidente dos EUA Donald Trump fala com a imprensa durante encontro com o presidente do Cazaquistão Nursultan Nazarbayev, na Casa Branca

O presidente dos EUA Donald Trump divulgou na noite de quarta-feira (17) o previamente anunciado 'Prêmio Fake News', ironizando os jornalistas e veículos de imprensa que, segundo Trump, publicam notícias falsas sobre sua gestão na Casa Branca.

Em um texto publicado no site do Partido Republicano, e destacado por Trump em seu Twitter, foram listados dez itens - que inclui reportagens de veículos como "The New York Times", "The Washington Post" e CNN, um artigo opinativo e até tuítes de jornalistas - que são apontados como 'vencedores' entre as fake news.

Como 'bônus', foi incluído o tema do suposto complô entre a campanha de Trump e agentes russos para interferir na eleição presidencial de 2016, que o presidente rejeita como 'boato'. Apesar das reclamações de Trump, o caso é oficialmente investigado pelo FBI, sob comando de um procurador independente.

A relação conflituosa de Trump com a imprensa americana - particularmente CNN e "The New York Times", contra quem o presidente fez duros ataques - marcou sua campanha à presidência e também o primeiro ano do republicano na Casa Branca.

"2017 foi um ano de parcialidade incessante, de cobertura noticiosa injusta e até mesmo notícias falsas. Estudos mostraram que mais de 90% da cobertura midiática sobre o presidente Trump é negativa", diz o texto do 'Prêmio Fake News', antes de apresentar a lista de vencedores.

Dos veículos e jornalistas citados, alguns deles admitiram os erros nas reportagens em questão e responderam, geralmente citando acusações sem provas e informações divulgadas pelo próprio Trump ao longo de sua ascensão à presidência.

"Ganhei o prêmio de fake news do cara das 2.000 mentiras", diz economista

Em primeiro lugar da lista de Trump, aparece um artigo do colunista Paul Krugman, que ganhou o prêmio Nobel de Economia de 2008, publicado no "New York Times". O texto, escrito no dia em que Trump venceu as eleições presidenciais, previa que a economia nunca se recuperaria da passagem do magnata pela Casa Branca. Ele se retratou três dias depois do texto, admitindo que a previsão era incorreta. "Cedi à tentação de prever um imediato colapso econômico, mas rapidamente percebi que foi um erro", escreveu Krugman à época.

Logo depois de ter seu nome anunciado como 'vencedor', o colunista, crítico de Trump, atacou o presidente. "Recebi um 'prêmio fake news' por uma previsão de mercado errada, da qual me retratei três dias depois, pelo cara das 2.000 mentiras, que até hoje não admite que perdeu o voto popular [na eleição]. Triste!", escreveu Krugman no Twitter, citando um bordão comum de Trump em seus tuítes.

"O que essa lista patética mostra é que as tais 'fake news' anti-Trump são como as fazendas que quebraram por causa dos impostos sobre propriedades: eles têm certeza que aconteceu, mas não conseguem encontrar nenhum exemplo", acrescentou Krugman.

Publicação é ato "semiformal contra a imprensa livre", diz o "New York Times"

Além do texto de Krugman, o "New York Times" foi citado por causa de outra reportagem, que dizia que o governo Trump havia mantido secredo um estudo oficial que alertava para o aquecimento global, tema frequentemente rebatido pelo presidente. Dois dias depois, o jornal admitiu que havia cometido um erro ao dizer que o estudo não havia sido divulgado pelo governo.

Em uma reportagem publicada nesta quinta-feira (18), com o título "Trump entrega 'Prêmio Fake News sem o tapete vermelho", o jornal adotou tom crítico contra a lista de Trump. O jornal citou a acusação de Trump no caso conhecido como Central Park Five, quando cinco jovens foram condenados pelo estupro de uma mulher em Nova York em 1989 apesar de o exame de DNA apontar que eles não eram os criminosos. A sentença dos cinco homens foi anulada em 2002, quando o verdadeiro autor do estupro admitiu a culpa e o DNA comprovou sua participação.

"O presidente Donald Trump - que alegremente questionou o local de nascimento do presidente Barack Obama sem provas, insistiu na culpa do 'Central Park Five' apesar das evidências provarem o contrário e alegou que milhões de urnas ilegais lhe custaram o voto popular em 2016 - quis dar sua palavra ao público americano sobre apuração correta", diz o texto do NYT.

O jornal também chama o 'prêmio' de "projeto antimídia que assustou defensores de liberdade de imprensa e alegrou a base política" de Trump. "O conteúdo da lista de 11 itens foi provavelmente menos notável do que sua premissa: um presidente em exercício valentão usando seu púlpito para um ataque semiformal na imprensa livre", escreve o NYT.

"Washington Post" faz fact-checking da lista

O "Washington Post" recebeu uma citação - que na verdade nem foi uma reportagem do jornal, e sim um tuíte equivocado de um de seus repórteres, sobre o público de um comício de Trump na Flórida em dezembro. O jornalista Dave Weigel publicou uma foto do local vazio, mas a imagem foi tirada horas antes do evento. Ao ser confrontado com o erro, ele deletou a postagem e pediu desculpas. Sobre esse item, o jornal esclareceu que nunca foi produzida uma reportagem sobre o assunto, que só foi citado pela publicação para informar sobre o erro do repórter.

A publicação ainda fez uma checagem da lista e lembrou que praticamente todos os itens citados por Trump renderam correções dos veículos. Em uma reportagem equivocada da CNN, três jornalistas foram demitidos; em outro, da ABC News, o repórter foi suspenso pelo que foi chamado de "grave erro".

A atitude dos veículos, segundo o "Washington Post", é diferente da de Trump, considerando "as mais de 2.000 afirmações distorcidas ou falsas" feitas pelo presidente, listadas com frequência pelo jornal. Trump "praticamente nunca admite os erros" mesmo quando é contestado pelos fatos, diz a publicação.

Senador republicano compara Trump a Stálin

Dois senadores republicanos do Arizona - que são colegas do partido de Trump mas frequentemente se opõem a ele - atacaram o presidente pela postura contra a imprensa, horas antes da divulgação da lista.

Jeff Flake comparou o discurso de Trump ao do ditador soviético Josef Stálin pelo uso do termo 'inimigo do povo' ao descrever a imprensa.

"É um testemunho da condição da nossa democracia que o nosso próprio presidente use palavras infamemente pronunciadas por Stálin para descrever seus inimigos. Tão carregada de malícia era a frase que Nikita Kruchev proibiu seu uso, dizendo ao Partido Comunista Soviético ela tinha sido introduzida por Stálin com o propósito de 'aniquilar essas pessoas' que não estavam de acordo com o líder supremo."

Já o veterano John McCain, em uma coluna no "Washington Post", pediu que Trump pare com os ataques à imprensa.  "Se Trump sabe ou não, suas ações são observadas de perto por líderes estrangeiros que já usam suas palavras como uma desculpa para silenciar ou fechar um dos principais pilares da democracia", escreve McCain.

"Enquanto as pessoas responsáveis muitas vezes condenam a violência contra jornalistas no exterior, Trump continua seus implacáveis ataques à integridade dos jornalistas e da mídia americana. A expressão 'fake news', legitimada pelo presidente, é usada pelos autocratas para silenciar jornalistas.

"A liberdade de informação é crucial para o sucesso da democracia. Os jornalistas desempenham um papel central na promoção e proteção da democracia e nossos direitos inalienáveis e devem ser capazes de fazer seu trabalho livremente", diz o senador.

Trump bate boca com jornalista da CNN (janeiro/2017)

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