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Discriminada pela sociedade, ex-presa supera barreira e luta contra estigma

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

29/01/2018 04h00

Quando deixou a cadeia depois de dois anos cumprindo pelo crime de fraude, a norte-americana Leyla Martinez não imaginava que viraria uma ativista em defesa da reinserção digna de ex-presidiários na sociedade. Sua única certeza era retomar os estudos. Hoje, Leyla estuda Direitos Humanos na Universidade de Columbia e preside uma organização que ajuda ex-presos a superar as barreiras e um dia chegar ao ensino superior, como ela, sem serem discriminados.

Depois que seu parceiro foi preso, Leyla e o filho pequeno acabaram sem ter onde viver e como se manter. Se mudaram para um pequeno apartamento, compartilhado com muita gente da família. "No meu desespero de nos tirar desta situação, recorri a uma fraude e acabei presa também", disse Leyla em entrevista ao UOL --ela evita comentar sobre o crime que cometeu. Ela foi presa em 2002.

Quando foi libertada, em 2004, decidiu voltar para a universidade que ela tinha deixado há uma década --ela abandonou os estudos na Hunter College em 1994. Mas as dívidas com a instituição não foram sua única dificuldade. "Foi muito difícil porque, por causa da minha condenação, eu não conseguia trabalho em lugar nenhum", disse. Além do emprego e do estudo Leyla cita ainda problemas para encontrar uma moradia com o filho e até mesmo suporte psicológico para superar os traumas causados na cadeia.

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Além da falta de um programa nos EUA para ajudar na reintegração à sociedade, a ativista cita ainda a falta de recursos e serviços de apoio para as famílias das pessoas que são presas. "Sempre me pedem para compartilhar a minha experiência e conhecimento sobre os impactos negativos do encarceramento nas famílias, que são inocentes, formas de como apoiar as famílias durante o período em que algum parente está detido e fazer recomendações para eliminar práticas ofensivas dentro do sistema prisional e melhorar os trabalhos de reinserção de mulheres na sociedade", diz Leyla.

Entre as questões que ela cita, com base em sua própria experiência, estão a revista de mulheres feita por guardas masculinos "em áreas sensíveis", segundo Leyla, e a proibição de estudar durante o período da prisão. "A educação é a única coisa que reduz a probabilidade de que as pessoas voltem para a cadeia, mas não tive aval para fazer cursos universitários enquanto estava presa", conta.

Em 2015, Leyla levou o filho de 16 anos para conhecer a Universidade de Columbia. Ela se inscreveu, já que só perderia a taxa para participar do processo caso não fosse aceita. Mas foi aprovada e transferiu o seu curso para lá. "Isto me deu a oportunidade de mudar a Columbia, ajudando as pessoas a entender que pessoas que foram presas são normais, mas nem sempre tomaram as melhores decisões e merecem uma oportunidade de reconstruir suas vidas", disse.

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Leyla estuda Direitos Humanos na Universidade de Columbia, nos EUA Imagem: Reprodução/Instagram

Com a sua organização, a Beyond the Box (além da caixa, em referência ao espaço que é assinalado durante as inscrições universitárias), Leyla quer que as universidades americanas deixem de perguntar sobre condenações passadas para os candidatos, evitando assim que eles se sintam constrangidos ao tentar a carreira acadêmica. 

"A ideia é ajudar estudantes que já foram presos --atuais e futuros-- a ter sucesso, dando o suporte necessário durante o processo de admissão e posterior", diz a estudante. "Queremos ainda eliminar as barreiras estruturais ao ensino superior, à habitação, ao emprego e da participação cívica para as pessoas que têm condenações criminais, aumentando o acesso ao ensino superior e outras oportunidades para pessoas que voltam para casa depois de terem sido presas. Estamos trabalhando com legisladores estaduais e federais para fazer com que as universidades removam 'a caixa' perguntando sobre prisões das inscrições escolares".

No Brasil, segundo o MEC, as universidades brasileiras têm autonomia e os processos seletivos são administrados somente por elas. Dessa forma, cada instituição decide se pergunta ou não os antecedentes criminais dos alunos.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Além de manter seus trabalhos em prol de ex-presos e apoiar suas famílias, Leyla quer agora comprar uma casa para oferecer moradia para as pessoas que deixam a prisão e querem mudar suas vidas por meio da educação.

"Pessoas, e não condenados"

Leyla defende ainda uma mudança na forma como a sociedade vê os que já foram presos. "Precisamos nos referir a eles como 'pessoas', porque quando você usa palavras como 'criminoso', 'condenado', 'presos' ou 'infrator', ou qualquer outro termo depreciativo, fazemos a associação negativa automática que é ligada a estes rótulos. Isto tira a nossa humanidade. Se queremos fazer mudanças reais nas políticas que nos impedem de ser membros produtivos da sociedade, a primeira coisa que precisamos fazer é parar de usar esta terminologia e nos tratar como 'pessoas'".

"As prisões deveriam implementar programas que ajudem na transição de retorno à sociedade, que poderiam ajudar ex-presos a encontrar emprego, para que eles possam voltar a se levantar e se tornar membros produtivos da sociedade", afirma. "Uma vez que estas pessoas tenham cumprido suas sentenças, elas não deveriam continuar sendo punidas por ações para as quais já pagaram suas penitências".