Discriminada pela sociedade, ex-presa supera barreira e luta contra estigma

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

Quando deixou a cadeia depois de dois anos cumprindo pelo crime de fraude, a norte-americana Leyla Martinez não imaginava que viraria uma ativista em defesa da reinserção digna de ex-presidiários na sociedade. Sua única certeza era retomar os estudos. Hoje, Leyla estuda Direitos Humanos na Universidade de Columbia e preside uma organização que ajuda ex-presos a superar as barreiras e um dia chegar ao ensino superior, como ela, sem serem discriminados.

Depois que seu parceiro foi preso, Leyla e o filho pequeno acabaram sem ter onde viver e como se manter. Se mudaram para um pequeno apartamento, compartilhado com muita gente da família. "No meu desespero de nos tirar desta situação, recorri a uma fraude e acabei presa também", disse Leyla em entrevista ao UOL --ela evita comentar sobre o crime que cometeu. Ela foi presa em 2002.

Quando foi libertada, em 2004, decidiu voltar para a universidade que ela tinha deixado há uma década --ela abandonou os estudos na Hunter College em 1994. Mas as dívidas com a instituição não foram sua única dificuldade. "Foi muito difícil porque, por causa da minha condenação, eu não conseguia trabalho em lugar nenhum", disse. Além do emprego e do estudo Leyla cita ainda problemas para encontrar uma moradia com o filho e até mesmo suporte psicológico para superar os traumas causados na cadeia.

Reprodução/Instagram
Além da falta de um programa nos EUA para ajudar na reintegração à sociedade, a ativista cita ainda a falta de recursos e serviços de apoio para as famílias das pessoas que são presas. "Sempre me pedem para compartilhar a minha experiência e conhecimento sobre os impactos negativos do encarceramento nas famílias, que são inocentes, formas de como apoiar as famílias durante o período em que algum parente está detido e fazer recomendações para eliminar práticas ofensivas dentro do sistema prisional e melhorar os trabalhos de reinserção de mulheres na sociedade", diz Leyla.

Entre as questões que ela cita, com base em sua própria experiência, estão a revista de mulheres feita por guardas masculinos "em áreas sensíveis", segundo Leyla, e a proibição de estudar durante o período da prisão. "A educação é a única coisa que reduz a probabilidade de que as pessoas voltem para a cadeia, mas não tive aval para fazer cursos universitários enquanto estava presa", conta.

Em 2015, Leyla levou o filho de 16 anos para conhecer a Universidade de Columbia. Ela se inscreveu, já que só perderia a taxa para participar do processo caso não fosse aceita. Mas foi aprovada e transferiu o seu curso para lá. "Isto me deu a oportunidade de mudar a Columbia, ajudando as pessoas a entender que pessoas que foram presas são normais, mas nem sempre tomaram as melhores decisões e merecem uma oportunidade de reconstruir suas vidas", disse.

Reprodução/Instagram
Leyla estuda Direitos Humanos na Universidade de Columbia, nos EUA

Com a sua organização, a Beyond the Box (além da caixa, em referência ao espaço que é assinalado durante as inscrições universitárias), Leyla quer que as universidades americanas deixem de perguntar sobre condenações passadas para os candidatos, evitando assim que eles se sintam constrangidos ao tentar a carreira acadêmica. 

"A ideia é ajudar estudantes que já foram presos --atuais e futuros-- a ter sucesso, dando o suporte necessário durante o processo de admissão e posterior", diz a estudante. "Queremos ainda eliminar as barreiras estruturais ao ensino superior, à habitação, ao emprego e da participação cívica para as pessoas que têm condenações criminais, aumentando o acesso ao ensino superior e outras oportunidades para pessoas que voltam para casa depois de terem sido presas. Estamos trabalhando com legisladores estaduais e federais para fazer com que as universidades removam 'a caixa' perguntando sobre prisões das inscrições escolares".

No Brasil, segundo o MEC, as universidades brasileiras têm autonomia e os processos seletivos são administrados somente por elas. Dessa forma, cada instituição decide se pergunta ou não os antecedentes criminais dos alunos.

Arquivo pessoal

Além de manter seus trabalhos em prol de ex-presos e apoiar suas famílias, Leyla quer agora comprar uma casa para oferecer moradia para as pessoas que deixam a prisão e querem mudar suas vidas por meio da educação.

"Pessoas, e não condenados"

Leyla defende ainda uma mudança na forma como a sociedade vê os que já foram presos. "Precisamos nos referir a eles como 'pessoas', porque quando você usa palavras como 'criminoso', 'condenado', 'presos' ou 'infrator', ou qualquer outro termo depreciativo, fazemos a associação negativa automática que é ligada a estes rótulos. Isto tira a nossa humanidade. Se queremos fazer mudanças reais nas políticas que nos impedem de ser membros produtivos da sociedade, a primeira coisa que precisamos fazer é parar de usar esta terminologia e nos tratar como 'pessoas'".

"As prisões deveriam implementar programas que ajudem na transição de retorno à sociedade, que poderiam ajudar ex-presos a encontrar emprego, para que eles possam voltar a se levantar e se tornar membros produtivos da sociedade", afirma. "Uma vez que estas pessoas tenham cumprido suas sentenças, elas não deveriam continuar sendo punidas por ações para as quais já pagaram suas penitências".

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