"Já pedimos perdão às vítimas", diz ex-guerrilheira que disputa eleição na Colômbia

Bruno Aragaki

Colaboração para o UOL, em Bogotá

  • Bruno Aragaki

    Victoria Sandino disputa as eleições legislativas pela Farc, na Colômbia

    Victoria Sandino disputa as eleições legislativas pela Farc, na Colômbia

Um ano e meio depois do acordo de paz com o governo colombiano, os ex-rebeldes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) se preparam para o julgamento das urnas. Em 11 de março, pela primeira vez, o grupo participará das eleições legislativas no segundo país mais populoso da América do Sul, com 48 milhões de habitantes.

"Já pedimos perdão às vítimas", disse a candidata ao Senado Victoria Sandino, ao UOL. Nascida Judith Herrera, decidiu manter o nome que usou durante os 22 anos na insurgência agora que entrou para a política.

De maneira similar, o partido formado pelos antigos guerrilheiros conservou as iniciais que estremeceram o país durante cinco décadas, com alterações nas palavras que as compõem. Agora, são Força Alternativa Revolucionária do Comum.

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Apesar de reconhecer os benefícios trazidos pelo acordo de paz, que pôs fim a um conflito cujo saldo estimado é de 220 mil mortes em 50 anos, a candidata Sandino relativiza o sucesso dessa implementação.

Em entrevista exclusiva realizada em 5 de fevereiro em Bogotá, a capital colombiana de 6 milhões de habitantes, uma das líderes do partido falou sobre culpabilidade, planos de governo e relações internacionais.

Confira os principais trechos da conversa:

UOL - Depois de tanto tempo na guerrilha, como é levar uma vida civil"?

Victoria Sandino - Estávamos no meio de uma guerra, com conflito armado permanente, mas o meu trabalho sempre foi político. O que mudou é que agora não tenho tiros passando tão perto.

UOL – O taxista que me trouxe disse que era um 'absurdo ver gente que assassinou fazendo política'. O que você diz aos colombianos que pensam assim?

Sandino – Existe uma campanha de ódio contra nós. O que muita gente não sabe é que já pedimos perdão às vítimas. Nós erramos, reconhecemos e queremos reparar. Pedimos desculpas pelo atentado no Clube El Nogal [que deixou 39 mortos, em 2003], pela tomada da base militar de Las Delicias  [quando 27 militares e 450 militares foram mortos, em 1996], pelo episódio em Bojayá [atentado que resultou em 74 mortos em 2002]. Agora, as guerras não têm só um lado. Não fomos os únicos, nem os maiores culpados. Também houve mortes e violações por parte do governo e dos paramilitares. E é preciso investigar todo mundo, não só a guerrilha.

UOL – Você é a candidata que encabeça as questões de igualdade de gênero. E há denúncias de ex-guerrilheiras obrigadas a abortar. Não é incoerente?

Sandino – Quando a mulher decidia integrar a insurgência, ela sabia das condições. Repito: era guerra. No entanto, a mulher que quisesse levar adiante a gravidez e ter o bebê poderia tê-lo. Tanto é que, não faz muito tempo, uma companheira engravidou. Estávamos encurralados e o exército não permitia a passagem de medicamentos, pílulas ou preservativos. Começaram os bombardeios e os tiros, e ela se feriu gravemente. Nossos companheiros arriscaram suas vidas para evacuá-la.

UOL – Você teve filhos?
Sandino –
Eu me incorporei à guerrilha aos 25 anos. E foi uma decisão minha não ter filhos.

UOL – E se quisesse ter tido...

Sandino – Teria tido. Mas talvez não chegasse à posição de comando que eu cheguei. Foi uma escolha, e não uma imposição. Tivemos que conviver com os abortos, foi uma realidade. Mas não era uma política.

Bruno Aragaki
Victoria Sandino retoca a maquiagem em seu escritório em Bogotá

UOL – Qual a proposta de vocês em relação ao aborto, quando estiverem no governo?

Sandino – Eu, pessoalmente, acho que é um direito da mulher. Que aqui na Colômbia está limitado a situações muito pontuais, como estupro. Mas sei que a sociedade colombiana não está preparada para essa mudança. Não queremos impor nada que não seja consensual e debatido.

UOL – Sua plataforma tem também como bandeira os direitos LGBT. Vocês acreditam que devem desculpas àqueles que dizem ter sido humilhados por sua condição sexual nas Farc?

Sandino – Éramos uma organização muito grande, um Estado dentro do Estado. Chegamos a ter mais de 10 mil combatentes que discutiam as normas de convivência entre todos. Tínhamos líderes LGBT. Eu mesma ouvia dores de amor de pessoas gays, que sofriam dos mesmos problemas que nos afetam a todos.

UOL – Há relatos de gays obrigados pela guerrilha a fazer testes de HIV, expulsos de casa...

Sandino – Como disse, éramos uma organização de mais de dez mil pessoas. E por mais que as diretrizes fossem de igualdade, um ou outro líder podem ter tomado decisões equivocadas. Mas não era e nem vai ser essa a política da Farc.

UOL – Por outro lado, a inclusão de questões de gênero no Acordo de Paz levou muitos colombianos, principalmente os evangélicos (que são 12% da população), a votar "Não" no plebiscito. Vocês se surpreenderam?

Sandino – Depois do plebiscito, nos reunimos com as pessoas do "Não" e explicamos: vocês acham de verdade que existem pessoas que não têm direito a existir? Ou que não têm direito a se casar? É um grande trabalho de pedagogia que temos pela frente.

UOL – Esse Acordo de Paz será duradouro?

Sandino – Eu estou confiante que sim. Vai depender das garantias da implantação. Nós entregamos as armas e estamos fazendo a nossa parte. Mas o Estado não cumpre a sua parte, no que se refere à nossa proteção. Vários de nossos líderes, sem armas agora, estão sendo assassinados. A classe dominante não quer o acordo de paz. Por isso, entramos na política para fazê-lo cumprir.

UOL – Se essas garantias de implantação não vierem, então...

Sandino – Vamos apelar à Comunidade Internacional. Esse acordo de paz não é só do povo colombiano, tem a ONU e países garantidores envolvidos. E já há um balanço positivo: acabou a guerra, diminuíram as mortes. Quem vai rasgar um acordo com esses benefícios? A Colômbia não são os Estados Unidos, que cumprem e descumprem o que bem entenderem. Se não cumprirmos o acordo de paz, estou segura de que haverá sanções internacionais.

UOL – Qual você acredita ser a principal proposta da Farc?

Sandino – O que propomos é uma nova maneira de fazer política. Precisamos acabar com essa diferença social brutal, com este Estado violento. As Farc entregaram as armas. Mas se essas condições não mudarem, outras guerrilhas surgirão. E as pessoas estão cansadas disso.

UOL – Muitos têm medo de que o programa econômico que vocês propõem seja o mesmo que levou a Venezuela à crise atual...

Sandino – Por que comparar com a Venezuela? Por que não comparar com a Finlândia? Queremos uma nova Finlândia, uma nova Suíça. O povo venezuelano tem sua própria história e suas dificuldades. Agora que não tem mais guerrilha para provocar o medo, inventaram o fantasma do "Castro-chavismo" por aqui. O nosso programa de governo não é revolucionário no plano econômico. Queremos, isso sim, recuperar a indústria colombiana, fazer reforma agrária, estimular a economia solidária e tantos outros modelos que existem hoje em dia. Não somos contra a propriedade privada, mas acreditamos que ela pode trabalhar pelo interesse de muitos, e não de poucos.

UOL – Você se sente preparada para ser senadora?

Sandino – Muito. Tanto pela minha trajetória política, dentro da guerrilha, como profissional. Sou formada em Comunicação Social, tenho mestrado e um amplo entendimento do que deseja o povo. Se comparar com o que oferecem os outros senadores, então, me sinto totalmente apta para representar o povo colombiano.

UOL – Já falaram que você lembra a ex-presidente Dilma Rousseff?

Sandino – (Risos) Ela também foi guerrilheira, certo? Mas fora isso, por quê?

UOL – Não a conheço pessoalmente, mas ela também passa essa imagem de mulher dura.

Sandino – Somos sociedades machistas e passamos por muitas coisas. Se não for assim, não nos fazemos ouvir.

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