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Disfarçar espiões como diplomatas é prática comum e aceita por diversos países

Mladen Antonov/AFP
Imagem: Mladen Antonov/AFP

Do UOL, em São Paulo

27/03/2018 14h55

Mais de 100 espiões russos estão em território americano disfarçados como diplomatas. Os números foram divulgados por altos funcionários dos Estados Unidos à Associated Press. Segundo o governo americano, 60 deles foram expulsos, mas ao menos 40 vão permanecer no país livremente.

Para especialistas, a espionagem pode até ser obscura, desagradável e, muitas vezes, ilegal. No entanto, é uma prática internacional aceita e, por isso, nem todos os espiões serão expulsos.

Em maior ou menor medida, todos os países do mundo espionam. E a prática de enviar espiões disfarçados de diplomatas também é comum e feita inclusive pelos Estados Unidos.

"Embaixadas e missões diplomáticas por centenas e centenas de anos foram usadas para espionar as terras dos adversários", disse o coronel aposentado Christopher Costa, diretor executivo do Museu Internacional de Espionagem, em Washington, à AP.

Segundo ele, mesmo quando espiões são descobertos, muitas vezes é mais proveitoso segui-los discretamente do que expulsá-los.

"O jogo de contraespionagem de gato e rato é sobre entender com quem o espião está em contato", completou.

Outra razão para os Estados Unidos não expulsarem todos os espiões é porque a Rússia pode tomar a mesma medida com os americanos como ato de reciprocidade. Em 2016, quando o governo Obama expulsou 35 diplomatas russos, Moscou fez o mesmo com 35 americanos.

Quando trabalham em países aliados, os espiões, geralmente, são declarados e o anfitrião sabe quem eles são. Embora publicamente trabalharem como diplomatas, esses agentes atuam em conjunto com os serviços de inteligência do país anfitrião. No entanto, em nações com relações mais hostis, como o caso de Estados Unidos e Rússia, os governos não dizem quem são os espiões.

Por isso, todo novo diplomata russo designado para uma missão nos Estados Unidos é avaliado pelo FBI e por outros oficiais de contrainteligência dos EUA, segundo John Schindler, ex-oficial de contrainteligência e atual analista da Agência Nacional de Segurança.

Alguns espiões podem ser rapidamente identificados com base em onde trabalharam anteriormente e em quais posições. A base de dados disponível atualmente na internet auxilia bastante nesse tipo de checagem. Certas posições em embaixadas são notórias por serem preenchidas por espiões, como oficiais de segurança, oficiais políticos e especialistas em comunicações, que muitas vezes estão secretamente envolvidos em interceptação de telefonemas ou comunicações eletrônicas.

Se não é possível descobrir rapidamente, os agentes do país anfitrião aguardam a chegada dos estrangeiros e analisam suas atividades. Muitas vezes, esses agentes disfarçados participam de reuniões clandestinas e se utilizam de técnicas para evitar a vigilância.

Os Estados Unidos, há muito tempo, alegam que não costumam usar determinados postos, como a Agência dos Trabalhadores para o Desenvolvimento Internacional dos EUA e os voluntários do Corpo da Paz, para acobertar agentes de inteligência. A teoria é que qualquer percepção de que esses funcionários possam ser espiões criaria sérios riscos de segurança para os trabalhadores humanitários reais.

"Há regras de cavalheiros sobre isso, e tem sido há muito tempo", afirmou Schindler.

Durante a Guerra Fria, as capitais em todo o mundo desenvolveram reputação por estarem inundadas de milhares de agentes que trabalhavam para agências de inteligência rivais sob cobertura diplomática.

Após a queda da União Soviética, esse tipo de atividade diminuiu, mas nunca desapareceu completamente. E agora está de volta com uma vingança.

"As taxas de espionagem agora são tão altas, se não mais altas do que na Guerra Fria", disse Angela Stent, professora da Escola de Relações Exteriores da Universidade de Georgetown e ex-especialista sobre a Rússia no Conselho Nacional de Inteligência do governo. "Há um enorme grau de desconfiança mútua entre os serviços de inteligência que nunca foram embora".

De fato, foi apenas no ano passado que a Rússia se queixou de maneira veemente aos EUA sobre diplomatas americanos postados em Moscou e outras cidades. O Kremlin alegou que eles estavam realmente lá para espionar.

"Há muitos funcionários da CIA e da unidade de espionagem do Pentágono trabalhando sob o teto da missão diplomática americana, cuja atividade não corresponde ao status deles", disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova. (Com AP)

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