Passagens caras e paciência: como é viajar com os 'piores' passaportes do mundo

Beatriz Montesanti

Do UOL, em São Paulo

  • Mathias Pape/Arte/UOL

Brasileiros fazem filas nos consulados tentando obter passaportes de outras cidadanias. Mas para aqueles que têm os considerados piores passaportes do mundo, o documento brasileiro já é um grande avanço.

É o que ouviu o iraniano Vahid Chitzazian Nikoofard ao se casar com uma brasileira. "Um dos sonhos da classe média iraniana é ter outra nacionalidade. Quando falei que me casei com uma brasileira, meus amigos falaram: 'Que bom! Agora, você vai conseguir viajar tranquilamente", lembra o professor de engenharia da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Ter um passaporte do Irã, do Afeganistão ou do Iraque, países envolvidos em conflitos recentes ou com grupos terroristas no território, dificulta a entrada na Europa, nos Estados Unidos e até na América Latina. A nacionalidade não significa apenas mais obstáculos para o visto, mas exige tempo e até passagens mais caras para evitar uma escala impossível.

Melhores e piores

Um passaporte é considerado "melhor" ou "pior" conforme as relações diplomáticas de cada país, explica ao UOL Inez Lopes, professora de direito internacional na UnB (Universidade de Brasília).

Basicamente, boas relações diplomáticas facilitam a circulação de pessoas entre territórios. Assim, países próximos diplomaticamente permitem a entrada de cidadãos estrangeiros sem exigir visto por determinado de tempo. Se o Brasil não exige vistos de turistas alemães, a Alemanha não exigirá vistos de turistas brasileiros.

"Reciprocidade é um princípio que rege as relações internacionais para dar tratamento igual entre iguais. Não seria justo um país exigir de outro fronteiras abertas e ter condições severas no caminho inverso", explica Lopes.

Brasileiros podem entrar sem visto em 149 países --incluindo toda a Europa e a maior parte da América Latina. Já iranianos têm passagem livre em apenas 39 países --boa parte deles sendo ilhas no Caribe ou Polinésia.

Os números são do Passport Index, ranking da empresa Arton Capital que elenca os passaportes mais poderosos do mundo e é atualizado diariamente. A empresa, assim como outras que fazem esse tipo de lista, oferece serviços para quem busca uma segunda cidadania. 

Arquivo pessoal/Vahid Nikoofard
O iraniano Vahid Nikoofard com a esposa e filha no Vaticano, em 2017

Passagens mais caras

Para Vahid e seus compatriotas, o planejamento de uma viagem envolve enfrentar extensas filas por um visto, providenciar inúmeros documentos, esperar longos períodos de tempo para receber um resultado e, muitas vezes, descobrir que passagens já compradas não poderão ser usadas.

Esse foi o caso do também iraniano Masoud Ghanbari Kashani. Quando aprovado para um doutorado em engenharia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em 2016. Kashani reservou uma passagem da Lufthansa que voava de Teerã para o Rio de Janeiro, fazendo uma escala na Alemanha --as mais baratas que encontrou na ocasião. No entanto, a Alemanha, como vários países de Europa, exige de iranianos um visto de trânsito apenas para ficarem no aeroporto para a troca de avião.

"Eu fui fazer agendamento na embaixada da Alemanha no Irã, que é uma das mais cheias [no país]. Há muita gente querendo fazer agendamento para todos os casos: estudar, trabalhar, viajar. Eu não consegui fazer naquele dia, por ter muita gente, o site travou, ficou fora do ar, ia perder o prazo. Tive que comprar outra passagem."

Em outra ocasião, viajando para o ano novo persa via Londres, dois amigos que o acompanhavam tiveram o visto britânico negado e perderam as passagens da British Airways. "Eles tiveram que pagar 40% da multa da passagem aérea. Meu amigo conseguiu recuperar o restante do dinheiro só seis meses depois", lembra Masoud. O prejuízo para cada um foi de US$ 400 (cerca de R$ 1.300).

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A possibilidade de perder a passagem por ter um visto negado força iranianos a comprarem tíquetes mais caros, de empresas como a Emirates ou a Qatar Airways, cujos países mantêm acordos especiais com o Irã para o caso de escalas. O preço restringe ainda mais aqueles com condições de viajar. 

Uma passagem do Rio para Teerã na primeira quinzena de julho com escalas em Paris ou Amsterdã custam em torno de R$ 5.500 (valores de abril). Já a opção da Emirates, no mesmo período, com escala em Dubai, custa mais de R$ 8.300.

Impedimento para viagens de trabalho

A restrição de vistos impede viagens acadêmicas, reencontros familiares, reuniões de negócios, participações em festivais, entre tantas outras atividades.

Em fevereiro, por exemplo, o produtor sírio  Kareem Abeed, indicado ao Oscar pelo documentário "O Último Homem em Aleppo", quase deixou de comparecer à cerimônia. Seu visto para viajar aos Estados Unidos foi concedido em cima da hora. A Síria aparece entre os últimos países no ranking de passaporte, com apenas 32 lugares que permitem entrada sem visto. 

No ano anterior, a proibição de viagem imposta por Donald Trump a diversos países árabes impediu que o diretor iraniano Asghar Farhad recebesse seu Oscar de melhor filmes estrangeiro por "O Apartamento". Para citar apenas alguns exemplos mais ilustres.

'Não viajo para não passar transtorno'

"Eu basicamente preciso de um visto para todo lugar que for", diz Aisha*, estudante paquistanesa que hoje vive na China. "Não viajo com a frequência que gostaria, simplesmente porque não quero passar por todo o transtorno", diz ela, que já deixou de participar de conferências por não conseguir um visto em tempo ou por não conseguir se deslocar a outra cidade para entrar na fila do consulado.

É bastante inconveniente. Eu entendo que haja ameaças políticas e globais que impactam alguns países mais do que outros. No entanto, pessoas como eu, que não têm nada a ver com as burocracias políticas, sofrem com o resultado disso."

Aisha lembra ainda de constrangimentos comuns a paquistaneses após desembarcarem em um país. Muitos são levados para salas reservadas para questionamentos e revistas, além de terem as bagagens reviradas, pelo simples motivos de serem portadoras dos "green passports" - os passaportes verdes, cor do documento paquistanês.

"Eu sempre coopero e respondo às questões. Não adianta reclamar ou argumentar com seguranças. Eles estão apenas fazendo o trabalho deles."

Mathias Pape/Arte/UOL
Portadores de determinados passaportes passam por constrangimentos maiores em aeroportos

Fronteiras fechadas

No geral, embora por vezes tarde demais, Aisha teve seus pedidos de vistos aprovados. Muitos colegas, no entanto, não tiveram a mesma sorte. "Acho que no final das contas, não se trata tanto de uma questão de passaporte, mas em que cidade tal pessoa vive e qual é a sua condição social", diz ela.

A observação é válida. Os rankings não levam em consideração diversos outros fatores que dificultam ou impedem a entrada de pessoas em países estrangeiros, como a facilidade de comprovar grandes quantidades de dinheiro em conta ou emprego fixo.

"Eles [europeus] querem que você comprove que vai voltar para o seu país, então você tem que mostrar que tem um emprego bom, mostrar seu extrato bancário, atestado de antecedentes criminais. Até o Brasil exige isso", conta o iraniano Vahid.

O Nomad Passport Index, feito pela empresa Nomad Capitalist, é o único que elenca as cidadanias levando em consideração quatro outros coeficientes. Para além da exigência de visto, o ranking analisa também taxas para conseguir documentos, a percepção global sobre a cidadania, a possibilidade de dupla cidadania e a liberdade dos indivíduos. Para chegar ao resultado final, a empresa atribui um determinado peso a cada um desses itens.

Como resultado, Luxemburgo, Irlanda, Suíça e Portugal lideram atualmente o ranking da Nomad Capitalist. Iêmen, Eritréia, Iraque e Afeganistão fecham a lista.

O iraniano Vahid ainda não adquiriu o passaporte brasileiro --seu processo de cidadania está parado desde que foi promulgada a nova Lei de Imigração, em 2017. Acredita, porém, que o fato de ser casado com uma brasileira e viver no Brasil facilita suas intenções de viagens.

Há três anos quando foi visitar a família no Irã, por exemplo, precisou de um visto para fazer uma escala em Zurique, na Suíça. No consulado, pediram que levasse também as passagens de sua esposa, o que acelerou o processo. O mesmo aconteceu no começo deste ano, dessa vez no consulado da Itália.

"No Irã a situação é bem pior. As pessoas ficam esperando por um agendamento por até seis meses e as filas são quilométricas. Aqui eu não tenho esse problema de agendamento, essas coisas", diz.

Essa fila para nacionalidade italiana, comparada às filas que estou falando no Irã, não é nada."

*A entrevistada pediu para não ter o nome verdadeiro revelado

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