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O que esperar do encontro de Trump e Kim

Beatriz Montesanti

Do UOL, em São Paulo

11/06/2018 04h00

Nesta terça-feira (12) -- noite de segunda-feira, no horário de Brasília -- o presidente norte-americano, Donald Trump se encontrou com seu correspondente norte-coreano, Kim Jong-un.

A reunião tem gerado bastante furor e não à toa. Essa é a primeira vez que um presidente em exercício dos EUA se encontra com um líder da Coreia do Norte em quase 70 anos de inimizade entre os dois países. Além disso, espera-se que esse encontro pavimente um possível acordo de paz entre as Coreias.

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O contexto histórico da reunião

A Coreia do Sul e a Coreia do Norte estiveram em guerra por três anos durante a Guerra Fria (1947-1991). Na época, Washington e Moscou apoiavam lados opostos como forma de garantir seus espaços de influência no mundo. 

Sem um desfecho oficial para a guerra, em 1953 as Coreias assinaram um armistício em vigor até hoje, quase 70 anos depois. Ou seja, tecnicamente, as Coreias ainda estão em guerra.

Nesse período, o pequeno país ao norte tornou-se um poço de reclusão e hostilidade. Extremamente fechado e isolado da comunidade internacional, a Coreia do Norte teve momentos de maior e menor tensão com o vizinho e também com os Estados Unidos. A intensidade das ameaças variou de acordo com a disposição dos líderes no poder e do contexto mundial. 

A constante realização de testes com mísseis de longo alcance tornaram o país uma ameaça crescente. Em 2002, o então presidente norte-americano, George W. Bush, classificou o país como integrante do que chamou de "Eixo do Mal", conjunto de governos inimigos dos Estados Unidos.

Por que essa reunião é importante

Neste contexto de ameaças que se arrastam há décadas, com potencial de conflito global, o encontro entre Trump e Kim acena para a paz.

“O acontecimento é extremamente importante. A reunião é um passo muito positivo na direção de encontrar uma solução pacífica para a tensão causada pela escalada nuclear da Coreia do Norte”, explica Alberto Pfeifer, coordenador geral do grupo de análise da conjuntura internacional do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo).

“Há um ano, mais ou menos, estávamos lidando com hipóteses como uso desses mísseis, lançamentos, testes, desenvolvimento rápido da capacidade balística da Coreia do Norte. Hoje, estamos falando de um momento em que já houve um encontro entre os presidentes das duas Coreias, falando na unificação, falando em pacificação, no fim da guerra propriamente dita”, diz ele.

Por que a paz entre as Coreias depende dos EUA

Segundo o professor, o grande antagonista da Coreia do Norte são os Estados Unidos. A Coreia do Sul, nessa perspectiva, é vista como a mesma nação, dividida pelas disputas globais daquela época.

Por isso, uma solução de paz com os vizinhos necessariamente passa pelos americanos, considerados pelo norte os agressores e responsáveis por estourar a guerra da década de 1950.

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O que esperar do encontro

A agenda da reunião é desconhecida, mas muito se especula sobre o que será abordado, com base nos comentários das autoridades envolvidas - de Trump, em particular. 

Segundo Pfeifer, o objetivo de Donald Trump é desmantelar a capacidade da Coreia do Norte de jogar uma bomba atômica no território dos Estados Unidos ou de algum aliado de seu país. Já Kim busca extrair o maior valor que conseguir.

Ou seja, da completa desnuclearização da península à mera redução do potencial de agressão norte-coreano, o resultado dependerá do preço que os Estados Unidos e seus aliados estiverem dispostos a pagar. “E estou falando de dinheiro mesmo, oportunidades comerciais, investimentos etc”, explicita o professor.

Há hoje, também, a perspectiva para a assinatura de um acordo de paz entre as Coreias. “Vai depender da negociação, mas hoje é uma perspectiva positiva”, diz ele.

Pfeifer enfatiza, porém, a imprevisibilidade dos dois líderes envolvidos, o que torna os desdobramentos do encontro mais incertos.

“As personalidades de Trump e Kim são de difícil compreensão. Eles não agem de maneira protocolar, seguindo o manual. Então podemos esperar um resultado do encontro, mas depois podem desistir, um fala uma coisa, outro entende outra, enfim.”

Há que se considerar, também, que esse primeiro encontro é também um instrumento de marketing para os dois líderes, para que se conheçam e tirem fotos ao lado um do outro. As verdadeiras negociações vão acontecer entre as delegações dos dois países, em um processo que deve ser muito mais longo do que o aperto de mão em Singapura. 

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