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Aceno de Trump a Bolsonaro não significa aproximação entre Brasil e EUA, diz ex-embaixador

Foto: AFP
Imagem: Foto: AFP

Marcelo Freire

Do UOL, em São Paulo

2018-10-30T04:00:00

30/10/2018 04h00

"Tive uma conversa muito boa com o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, que venceu por uma vantagem substancial. Concordamos que o Brasil e os Estados Unidos trabalharão juntos em comércio, segurança e todo o resto! Ligação ótima, dei a ele os parabéns!", disse Donald Trump nesta segunda-feira, sobre o início da relação com o futuro chefe de Estado brasileiro, eleito no domingo (28).

Apesar do aceno de Trump, e da semelhança entre os discursos e estratégias de Trump e Bolsonaro, isso não significa que as relações bilaterais entre os países irão melhorar, de acordo com Melvyn Levistky, ex-embaixador norte-americano no Brasil entre 1994 e 1998 e que hoje é professor de política internacional na Escola de Política Pública Gerald R. Ford, da Universidade de Michigan, nos EUA.

Jefferson Rudy/Folhapress
Melvyn Levitsky, então embaixador dos EUA no Brasil, em 1995 Imagem: Jefferson Rudy/Folhapress

A história de Levitsky com o Brasil é longa. O país foi um dos primeiros locais em que o diplomata trabalhou durante seus anos no Departamento de Estado americano, vivendo em Belém e Brasília entre 1963 e 1972, no início da ditadura militar brasileira (1964-1985).

Anos depois, retornaria para o cargo de embaixador, representando o governo Bill Clinton (1993-2001) num Brasil chefiado por Itamar Franco (1992-1994) e depois Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Segundo ele, as relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos "não estão muito ativas", e a aparente afinidade ideológica entre Trump e Bolsonaro, por si só, não tem capacidade de mudar isso. "A relação pessoal não se transforma automaticamente entre uma relação próxima entre os países", diz Levitsky ao UOL.

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De acordo com o ex-embaixador, Trump não considera o Brasil e a América do Sul como prioridades, já que os dois líderes estão mais preocupados com os problemas internos de seus países. Segundo Levisky, questões diplomáticas como comércio e imigração podem gerar, inclusive, atritos entre os dois governos.

Bolsonaro, no entanto, pode ter um ponto a seu favor. "Trump admira líderes que desafiam o sistema político, como ele fez. Por isso, talvez ele tenha uma admiração pelo Bolsonaro."

UOL - Um governo Bolsonaro, com um discurso de direita mais radical, poderia aproximar o Brasil dos Estados Unidos de Donald Trump? O que achou do primeiro contato entre eles, com Trump parabenizando Bolsonaro pela eleição?

Melvyn Levistky - É praxe que o presidente dos Estados Unidos parabenize um presidente recém-eleito de um país grande e importante como Brasil. Mas, mesmo que eles tenham estilos parecidos, a relação pessoal não se transforma automaticamente em uma relação próxima entre Brasil e EUA. 

Não acho que Bolsonaro, por ser populista e parecer um pouco com Trump, terá uma afinidade natural com a gestão Trump. Nada no governo Trump indica que o Brasil seria uma prioridade, e nada que Bolsonaro disse recentemente indica que a relação com os EUA seja prioridade também.

Não significa que os países não se considerem importantes --eles são importantes no comércio, na relação diplomática na ONU [Organização das Nações Unidas]--, mas não acho que essa relação [entre os discursos] levará Trump a pensar que tem um aliado no Brasil agora. Na verdade, pode ser o oposto. Porque, se Bolsonaro e Trump se preocupam em "tornar seus países grandes", há pontos de conflito que podem surgir. A questão ideológica não importa muito.

O Brasil está preocupado com todas as mudanças políticas e as acusações de corrupção, e Trump está preocupado com imigração, comércio e saída de acordos internacionais. As duas agendas políticas não são semelhantes

Melvyn Levistky, ex-embaixador

Como poderia haver uma aproximação?

Uma maneira de medir essa aproximação seria realizando um encontro entre os dois líderes após a eleição. Quando eu era embaixador no Brasil, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso fez uma visita aos EUA logo após ter sido eleito.

[NR: Onyx Lorenzoni (DEM-RS), anunciado como ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, disse nesta segunda que os EUA serão um dos primeiros países para os quais o presidente eleito viajará]

Bolsonaro e Trump são bem erráticos. Ambos podem mudar de ideia do dia para a noite. Mas nesse ponto, olhando a campanha do Bolsonaro, e o jeito que o Trump conduz sua Presidência, não há construção de uma relação próxima [entre Brasil e EUA].

Mas tem uma coisa: se o Bolsonaro começar a agir, digamos, estranhamente, desafiando os EUA de alguma forma, as relações podem até ficar pior. Porque os dois estão olhando praticamente para o apoio que têm internamente, então isso poderia trazer problemas em áreas como o comércio.

Quais seriam esses possíveis pontos de conflito?

Na área de comércio, a relação é bem competitiva. O Brasil compete nos mesmos mercados agropecuários que os EUA --soja, frango, suco de laranja concentrado e congelado etc.-- e a economia de exportação brasileira poderia ser prejudicada por eventuais tarifas dos EUA, particularmente sobre aço laminado e autopeças.

Se o Bolsonaro fizer mesmo algumas coisas que ele prometeu na campanha, como utilizar militares em áreas civis, neutralizar os partidos e esquerda, violar direitos humanos daqueles que discordam dele e tentar atentar contra a democracia do Brasil, a afinidade entre os dois não importará. O Congresso dos EUA pode tomar medidas contra o Brasil. Há um limite para o quanto a afinidade pessoal pode afetar as relações gerais entre os países.

Bolsonaro anunciou sua intenção de mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém e tem um discurso pró-israelense semelhante ao de Trump. Essa visão compartilhada poderia aproximá-los?

Isso poderia melhorar a relação, mas, francamente, prejudicaria o Brasil com muitos países --particularmente a Arábia Saudita, que é um grande importador de produtos agropecuários do país.

Já tivemos alguns exemplos de outros países fazendo isso [mudar a embaixada para Jerusalém] e não acho que há uma grande recompensa para eles em termos de melhora na relação com os EUA. Apesar de isso ser algo importante para o Trump, não houve exigência do governo norte-americano para que outros países fizessem isso. Não haverá um movimento em cascata nesse sentido.

Certamente Bolsonaro pode fazer isso, mas acho que o Ministério das Relações Exteriores do Brasil o orientaria a não tomar essa atitude. Claro que isso também depende de quem ele colocar como chanceler, mas a maior parte do ministério é feita de diplomatas profissionais, que pensam que isso seria um desastre para o Brasil --e provavelmente estão certos.

Como a administração Trump se alinha com outros países onde o populismo de direita ascendeu, como Filipinas, Hungria, Polônia e Itália?

Acho que Trump, pessoalmente, admira líderes fortes. Como o [Vladimir] Putin, por exemplo, com quem ele tentou muitas vezes melhorar a relação. Mas Putin e os russos continuam fazendo coisas que não permitem que Trump consiga essa aproximação. E ainda há essa investigação [sobre as ligações da campanha de Trump com a Rússia], que não sabemos como ela será encaminhada.

Acho que Trump admira líderes que sacodem um pouco as coisas, que criam caos e desafiam o sistema político, como ele fez. Políticos que as pessoas dizem que nunca poderiam ser presidente e depois ganham a eleição. Por isso, talvez ele tenha uma admiração pelo Bolsonaro. Vamos ver o que vai acontecer.

Mas os olhos de Trump estão nos países mais industrializados, como na Europa Ocidental. Imagino que ele pense que, se essa onda do populismo se espalhar nesses lugares, especialmente entre países da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte], haverá mais afinidade deles com os EUA. Se ele pensa do mesmo jeito a respeito do Brasil? Não há indicação disso. A América do Sul, tirando as coisas que irritam Trump, como imigração e comércio, não tem sido um ponto importante para ele.

Acho que Bolsonaro é popular porque a liderança política do país fracassou

Melvyn Levistky, ex-embaixador

Outros países da América Latina podem ser influenciados por essa onda de direita que aconteceu no Brasil nas últimas eleições?

O Brasil é um país bem diferente na América do Sul, muito mais forte economicamente e com uma herança portuguesa, não espanhola. Acho que Bolsonaro é popular porque a liderança política do país fracassou. Há muita corrupção, em todos os níveis. Um ex-presidente preso, outro que sofreu impeachment e o atual indiciado por corrução. As pessoas são eleitas fazendo acordos, ministérios são fechados de acordo com as coligações, cargos são oferecidos a familiares.

Há uma razão para as pessoas apoiarem o Bolsonaro, que fala sobre fazer coisas desumanas e ilegais, com uma certa nostalgia com o regime militar, e usa palavras repugnantes para falar de mulheres e outros assuntos.

Vimos em eleições nos EUA, na Europa e na América Latina essa ascensão de políticos da extrema-direita. Nem sei se podemos chamar de "extrema-direita", me parece mais um apelo demagógico às preocupações das pessoas, que estão enojadas com a estrutura política. E o sistema político do Brasil, com esse número grande de partidos, nunca mudou de verdade, mesmo com algumas regras recentemente estabelecidas para diminuir essa quantidade.

A classe política tradicional vê Bolsonaro como ameaça, mas acho que, de certa maneira, ela ajudou a criar isso. Como um admirador de tudo o que o Brasil atingiu no mundo, acho isso muito triste.

E eu gostaria de dizer algo sobre o PT. Quando eu era embaixador no Brasil, o PT tinha muitos políticos que faziam um bom trabalho. Lembro-me dos prefeitos, considerados honestos e eficientes em várias cidades do país. Essa era a reputação do partido e isso se perdeu por causa dos escândalos e das pessoas do PT que foram presas.

Juca Varella/Folhapress
Levitsky com Lula, então líder da oposição, durante encontro em 1995 Imagem: Juca Varella/Folhapress

Considerando sua experiência no Brasil, tendo vivido aqui nos anos 60, em meio à ditadura, e nos anos 90, pós-redemocratização, o senhor considera que a democracia está em risco no país?

Na época do regime militar, eles governavam por decreto. Eles tinham os atos institucionais e eram bem dominantes. Havia um Congresso que não tinha nenhum poder. Hoje, isso vai depender de Bolsonaro e do Congresso. Bolsonaro vai precisar de uma coalizão para trabalhar com o Congresso e isso pode exigir que ele fique mais moderado.

Bolsonaro pode tentar agir por meio de ordens executivas, mas acho que ele seria desafiado pelo Congresso brasileiro. Acho que seria difícil para ele mudar o sistema [democrático], mas ele poderia levantar dúvidas [sobre as instituições]. Se ele é demagogo, como o Trump, pode agitar as massas e sua base e ganhar apoio com isso.

Por não ter o descrédito dos três últimos presidentes, provavelmente ele teria mais apoio para tomar decisões autocráticas. Mas há um limite para isso, e o Brasil dificultaria qualquer movimento que ameaçasse a democracia. O sistema democrático do Brasil passou por algum estresse e, apesar do descontentamento público com os políticos, não acho que seja um caso de se transformar numa ditadura.

E há o sistema judiciário, que tem liderado a investigação contra a corrupção e hoje tem grande força no Brasil. Sinto que a democracia do país é forte para se resguardar mesmo com um líder que tente agarrar mais as rédeas do poder. Bolsonaro tem essa nostalgia pelo regime militar, mas acho que há linhas vermelhas que ele não pode cruzar.

Houve apreensão semelhante nos Estados Unidos quando Trump foi eleito. Como o senhor analisa essa situação agora?

Eu acho o mesmo sobre Trump nos EUA. Ele tenta agitar as massas e os eleitores que gostam do que ele está fazendo --e gostam até de algumas coisas absurdas e insultos que ele diz sobre mulheres e outros grupos--, mas nossa democracia permanece forte.

É claro que há coisas que qualquer líder democrático eleito pode fazer para passar por cima dos legisladores. O presidente [Barack] Obama, que é certamente um democrata, fez isso, decretando ordens executivas que os congressistas achavam que deveriam ser submetidas aos parlamentares. Trump tentou fazer o mesmo.

Como foi trabalhar no Brasil na época do regime militar?

Eu estava bem no início da carreira. Fiquei em Belém. Meu chefe era um bêbado que gastava todo o cartão consular em uma boate de prostitutas [risos]. Ele ficava fora de órbita e, como a equipe era apenas eu e ele, acabei gerenciando essa área da Amazônia. Fiz pesquisas, relatórios e por causa disso acabei sendo homenageado pelo Departamento de Estado dos EUA por meus estudos sobre o desenvolvimento interno do Brasil. Foi um grande impulso para minha carreira.

Mas, do lugar onde eu estava, não tínhamos uma relação de verdade com o governo. Tive mais contato com Jarbas Passarinho e Alacid Nunes, que foram governadores do Pará. Eu não tinha acesso aos militares; apenas os víamos nas recepções e coisas do tipo.

Na época, tentamos conversar com membros do Congresso, mas não tinha muito propósito, porque eles não tinham nenhum poder. E, após os atos institucionais, muitas pessoas tiveram seus direitos políticos cassados. O regime militar fez algumas coisas positivas para a economia, mas não havia política. Era difícil para um diplomata descobrir o que estava acontecendo, e o acesso a tudo também era um problema. Foi interessante, mas meio triste, porque não havia sistema político, a não ser entre os militares e seus apoiadores.

Muitos brasileiros consideravam os EUA completamente responsáveis pelo golpe militar. Certamente, houve indicações de que, levando em conta o direcionamento do governo João Goulart, não nos importamos com os militares tomando o poder.

Mas, no nível em que eu estava, eu apenas me concentrei em aprender o máximo. Nunca imaginei que voltaria como embaixador. Isso tudo me fez entender como é a cultura do Brasil, como as pessoas pensam.