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Confissão de Battisti não visa "possíveis benefícios", diz defesa

14.jan.2019 - Cesare Battisti é conduzido por policiais italianos ao desembarcar no aeroporto de Ciampino, em Roma - Alberto Pizzoli/AFP
14.jan.2019 - Cesare Battisti é conduzido por policiais italianos ao desembarcar no aeroporto de Ciampino, em Roma Imagem: Alberto Pizzoli/AFP

Leonardo Martins*

Do UOL, em São Paulo

25/03/2019 12h39

Após a confissão do Cesare Battisti de ter participado de quatro assassinatos, Davide Steccanella, advogado de defesa do terrorista na Itália, afirmou que a admissão do seu cliente não visa "possíveis benefícios", mas, sim, retomar uma "imagem justa".

"A esperança é retomar uma imagem justa do meu cliente, que não é aquele monstro que pode atacar novamente como tem sido descrito. Mas uma pessoa que há 40 anos não comete nenhum delito e quis revisitar sua vida e reconstruir um período", afirmou Steccanella, de acordo com o jornal italiano "Il Messaggero".

Ainda segundo o veículo, Staccanella destacou também que a confissão remove de Battisti "aquela aura de periculosidade que não existe mais".

O UOL entrou em contato com Staccanella, mas ainda não obteve retorno.

Battisti admitiu no último fim de semana ao procurador Alberto Nobili, do Ministério Público de Milão, ser responsável por quatro homicídios cometidos por ele nos anos de 1970.

O terrorista teve sua extradição ordenada pelo então presidente Michel Temer em dezembro passado, fugiu para a Bolívia e foi detido no mês seguinte.

Ele cumpre prisão perpétua em uma penitenciária de Oristano, na Sardenha, a 458 quilômetros da capital italiana Roma, e tenta converter sua sentença para 30 anos de prisão, pena máxima da legislação brasileira.

"Eu falo apenas de minhas responsabilidades, não delatarei ninguém. Estou ciente do mal que fiz e peço desculpas aos familiares [das vítimas]", afirmou Battisti, de acordo com o procurador.

Segundo Nobli, a confissão abarca toda sentença contra Batistti, incluindo, além dos assassinatos, "uma maré de roubos e furtos para autofinanciamento". O jurista é responsável pelo inquérito que investiga as supostas ajudas recebidas pelo terrorista durante seu período de fuga.

Relembre o caso do italiano Cesare Battisti, extraditado à Itália

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Terrorismo e assassinatos

Battisti foi condenado na Itália por terrorismo e participação em quatro assassinatos cometidos nos anos de 1970, período conhecido como "Anos de Chumbo", marcado por violência política e guerrilhas revolucionárias extremistas em países da Europa e também da América Latina.

Em 1977, quando foi preso pela terceira vez e cumpriu pena na prisão de Udine, comunidade no nordeste da Itália, entrou para o PAC (Proletários Armados pelo Comunismo).

De ideologia de extrema esquerda, o grupo terrorista tinha cerca sessenta membros e foi extinto em 1979. Eles cometiam assaltos para sustentar seus militantes.

A primeira vítima do terrorista foi Antonio Santoro, um marechal da polícia penitenciária de 52 anos. Ele vivia uma vida tranquila com a mulher e três filhos em Údine, mas, em 6 de junho de 1978, foi morto pelo PAC.

Segundo os investigadores, os assassinos o esperaram na saída da prisão e o balearam. A Justiça diz que Battisti e uma cúmplice foram os autores dos disparos, e os dois teriam trocado falsas carícias até o momento do atentado.

Em 16 de fevereiro de 1979, o grupo fez uma ação dupla, assassinando o joalheiro Pierluigi Torregiani, em Milão, e o açougueiro Lino Sabbadin, em Mestre, parte de Veneza que fica em terra firme. Tanto Torregiani quanto Sabbadin haviam matado ladrões a tiros em tentativas de roubo, e os atentados teriam sido uma vingança.

O açougueiro também era militante do partido neofascista Movimento Social Italiano (MSI). "A admissão é um passo adiante, uma confirmação de sua culpa. Espero que ele não tenha admitido os homicídios por outros motivos, talvez para obter uma indulgência que ele não merece", disse à Ansa Adriano Sabbadin, filho de Lino Sabbadin. Ele reconheceu que não esperava a confissão.

A quarta vítima foi o policial Andrea Campagna, morto a sangue frio em 19 de abril de 1979, em Milão.

(Com informações da Ansa)

Errata: o texto foi atualizado
A matéria informou incorretamente que o terrorista Cesare Battisti foi extraditado pelo governo Jair Bolsonaro (PSL). Na verdade, foi o então presidente Michel Temer que ordenou sua extradição em dezembro passado. A informação foi corrigida.
Diferentemente do que informou esta matéria, Alberto Nobili é procurador do Ministério Público de Milão. A informação foi corrigida.

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