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Para analista internacional, crise com Mourão reflete temor que vice assuma

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Ian Bremmer, da Eurasia, em Congresso da Anbima em São Paulo Imagem: Divulgação

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

2019-04-26T04:00:00

26/04/2019 04h00

Ian Bremmer, presidente de uma das maiores agências de consultoria de risco do mundo, a Eurasia Group, diz que não está surpreso com o fogo amigo entre o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão (PRTB).

Em entrevista ao UOL após uma palestra ontem em São Paulo, o analista norte-americano afirmou acreditar que esse tipo de controvérsia entre os dois ainda deve ocorrer mais vezes. Para ele, o motivo é que muitos temem a possibilidade de Mourão ocupar o poder.

"Os militares, é claro, são provavelmente a instituição mais confiável e legítima do Brasil atualmente. O que é importante. E penso que muitas pessoas não gostam do fato de que, como o vice-presidente não pode ser demitido no Brasil, e se algo acontecer com Bolsonaro --como aconteceu com os presidentes anteriores--, os militares podem assumir o poder", disse Bremmer, que foi palestrante do Congresso da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

"É preciso reconhecer também que Bolsonaro tem uma base de apoio muito dividida. Ele tem uma base de apoio econômica, uma base militar e a dos conservadores. São muito diferentes entre si, então não me surpreenderia que esse tipo de controvérsia sobre uma figura militar, que é seu número dois, continue a ocorrer. É muito diferente do que existe nos EUA, por exemplo, onde o vice de Trump, Mike Pence, não é um problema", disse Bremmer, especialista em países emergentes.

Alan Santos/Presidência
17.mar.2019 - Presidente Jair Bolsonaro (PSL) transmite o cargo para seu vice, general Hamilton Mourão (PRTB) antes de viajar para os EUA Imagem: Alan Santos/Presidência

Durante o evento, Ian Bremmer ainda falou sobre a sua impressão do "Trump dos trópicos". "Existe uma grande diferença entre Trump e Bolsonaro: o brasileiro ouve seus conselheiros e sua equipe econômica. Isso é muito importante. Eu gostaria muito que Trump fizesse o mesmo", afirmou o presidente da Eurasia.

Ele disse ainda que, mesmo que Bolsonaro tenha adotado uma retórica anti-China e contra a mudança climática como Trump, "a verdade é que, quando virou presidente, precisou focar nas limitações, e as limitações são enormes", destacou.

"Ele é um líder que disse que faria a política do seu jeito. Mas, quando vemos o Brasil hoje, acho que ainda fazem a velha política. Bolsonaro precisa ter pessoas no Congresso que concordem com ele em determinados temas", afirmou Bremmer.

Em entrevista ao UOL antes do segundo turno, Bremmer já apostava na vitória de Bolsonaro nas urnas, mas também afirmava que a lua de mel seria curta tanto com a opinião pública quando com o Congresso.

Bremmer foi o autor do perfil de Jair Bolsonaro na lista das 100 personalidades mais influentes da revista Time. Disse ao descrever o presidente brasileiro: "O ex-oficial do Exército também é um garoto-propaganda da masculinidade tóxica, um homofóbico ultraconservador com objetivo de lançar uma guerra cultural e talvez reverter o progresso do Brasil em combater as mudanças climáticas".

No texto, defende também que Bolsonaro representa a "melhor chance em uma geração para o Brasil avançar em reformas que podem domar o endividamento crescente".

Segundo pesquisa do Ibope, desde o começo do governo Bolsonaro, caiu a popularidade dos militares entre os brasileiros. De acordo com o levantamento, divulgado pela revista Piauí, logo após a posse, 62% dos consultados apoiavam os militares no poder. Em abril, o número caiu para 49%.

A queda de apoio a figuras militares, de 13 pontos percentuais, coincide com a redução da popularidade do presidente no mesmo período --sua aprovação caiu 14 pontos, de 49% para 35%, segundo dados do mesmo instituto.

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