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Conselheiro de Trump, John Bolton vira estrela de reunião anti-Maduro

Jim Young/Reuters
Imagem: Jim Young/Reuters

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

06/08/2019 04h00

No começo deste ano, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, chegou para uma entrevista coletiva sobre a crise na Venezuela com um bloco de notas nas mãos com uma anotação bem visível, que dizia "5.000 soldados para a Colômbia".

A imagem, registrada pelos fotógrafos, provocou especulações sobre o apoio americano a uma intervenção militar no país --algo que o próprio Bolton defendeu em inúmeras ocasiões. Hoje, ele é uma das estrelas de uma reunião que será realizada no Peru, com representantes da região para debater a crise no país comandado por Nicolás Maduro.

Anotação exibida por John Bolton citando tropas americanas na Colômbia - Jim Young/Reuters
Anotação exibida por John Bolton citando tropas americanas na Colômbia
Imagem: Jim Young/Reuters

Bolton é bem próximo do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Esteve no Brasil em novembro, onde reuniu-se com o então presidente eleito --na ocasião, Bolsonaro prestou continência ao conselheiro do presidente dos EUA, Donald Trump.

O americano viu no brasileiro um aliado contra o que apelidou de "troika da tirania", em referência à Venezuela, Cuba e Nicarágua. Como subsecretário de Estado de George W. Bush após o 11 de Setembro, Bolton ampliou a definição de "Eixo do Mal" para os seis países: além Iraque, Irã e Coreia do Norte, incluiu Cuba, Líbia e Síria.

Nas redes sociais, é o conselheiro de Segurança quem vocifera contra Nicolás Maduro, e não Trump. No Twitter, a maior parte dos seus posts são com críticas ao governo do líder chavista. Bolton ainda provoca publicamente o ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino, e repete em entrevistas que "todas as opções estão sobre a mesa", sem confirmar --nem negar-- a possibilidade de os EUA apoiarem uma intervenção militar internacional para derrubar Maduro.

"@vladimirpadrinho, Você quer ser responsabilizado pela prisão, tortura e execuções extrajudiciais de seus companheiros venezuelanos, incluindo membros do FANB [Força Armada Nacional Bolivariana]? As atrocidades estão sendo documentadas para o mundo ver"

Organizada pelo Grupo de Lima, criado por alguns países da região para buscar uma solução democrática para a Venezuela --e a saída de Maduro do poder--, a conferência internacional da qual Bolton virou estrela também terá a participação de mais de 60 países no Peru. Nenhum representante de Maduro participará do evento, tampouco o autoproclamado presidente venezuelano, o deputado opositor Juan Guaidó. China e Rússia, principais apoiadores de Maduro, também estarão presentes.

Bolsonaro toma café com John Bolton, conselheiro de Trump, antes de tomar posse como presidente brasileiro - Divulgação
Bolsonaro toma café com John Bolton, conselheiro de Trump, antes de tomar posse como presidente brasileiro
Imagem: Divulgação

Bolton derrubou brasileiro na Opaq

O atual conselheiro de Trump foi o responsável pela queda do diplomata brasileiro José Maurício Bustani na chefia da Opaq (Organização para a Proibição das Armas Químicas), em 2002, antes de os EUA invadirem o Iraque.

Na época, o brasileiro tentava convencer Saddam Hussein a integrar a entidade, para que inspeções anuais fossem feitas no Iraque. Os EUA acabaram invadindo o país no ano seguinte em um "ataque preventivo", sob a justificativa de que o ditador teria armas de destruição em massa --que nunca foram encontradas.

Em entrevistas a diferentes veículos de comunicação, Bustani relatou como Bolton (como subsecretário de Estado para o Controle de Armas) o ameaçou. "Ele entrou no meu escritório e me deu 24 horas para renunciar", relatou o diplomata. O americano ainda teria dito: "É melhor você pensar sobre isso, porque sabemos onde estão seus filhos". Na época, os filhos de Bustani moravam em Nova York.

Ligado à NRA (Associação Nacional do Rifle), Bolton chegou a ser indicado como embaixador dos EUA na ONU por George Bush filho, mas teve sua candidatura retirada quando percebeu que não seria aprovado pelo Senado americano.

Diplomata e militar, foi figura presente nas últimas quatro décadas da política externa americana, dos tempos do ex-presidente Ronald Reagan até as críticas ao ex-presidente Barack Obama, quando aparecia como comentarista em canais pró-republicanos como a Fox News.

Como conselheiro de Trump, tem sido um dos maiores incendiários na condução de negociações recentes dos EUA com o Irã e a Coreia do Norte, saindo dos bastidores da Casa Branca. Chegou a defender um ataque aos norte-coreanos antes de assumir o cargo na Casa Branca de Trump --no fim do mês passado, Pyongyang lançou dois mísseis de curto alcance enquanto Bolton visitava a Coreia do Sul.

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