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Frustração e incerteza marcam retorno de brasileiros deportados dos EUA

Getty Images
Imagem: Getty Images

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

24/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Apenas em 2020, quatro aviões já trouxeram mais de 370 pessoas dos EUA
  • Voos pousam em Minas Gerais, estado de origem de metade dos ilegais no país
  • Cultura de migração se estabeleceu em Minas na décade de 1960
  • 'Boom' migratório internacional se deu nos anos 1980
  • Número de brasileiros presos na fronteira americana cresceu dez vezes entre 2018 e 2019
  • Polícia Federal diz que voos fretados com deportados podem se tornar frequentes

Chegou na última quarta-feira (19) o quinto avião — o quarto só em 2020 — trazendo brasileiros deportados dos Estados Unidos. Desde outubro, os voos chegam ao aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, e trouxeram mais de 370 brasileiros até o momento.

O país é o principal destino daqueles que planejam deixar o Brasil em busca de ganhar dinheiro, porém, são poucos aqueles que conseguem por lá permanecer.

Segundo dados do Itamaraty de 2015 — os últimos disponíveis — há mais de 1.460.000 brasileiros vivendo atualmente nos EUA, a maior comunidade fora do Brasil.

Não é possível precisar números, mas, segundo o órgão, sabe-se que a grande maioria entra no país de maneira ilegal e busca meios para se legalizar ao longo dos anos.

O destino dos aviões com as centenas de deportados tem razão de ser. Segundo o adido de imprensa da embaixada dos Estados Unidos Mark A. Pannell, metade dos brasileiros que tentam entrar ilegalmente nos EUA são de Minas Gerais.

De acordo com a socióloga e professora da Univale, Sueli Siqueira, isso se dá por conta de uma "cultura de migração", a ideia de que migrar é possível e interessante, consolidada há mais de 50 anos especificamente em Minas Gerais.

A busca por melhores condições de é apontada como a principal razão para a viagem. Desde o início do movimento migratório, na década de 60, os brasileiros vão para o norte buscando melhores salários e para empreender.

Porém, ao chegar, as oportunidades encontradas costumam ser no mercado não qualificado.

"Todos os migrantes, desde a década de 60 até hoje, vão para o mercado de trabalho secundário. São poucos os que conseguem mudar esse padrão e ir para um mercado de trabalho mais qualificado", conta Sueli em entrevista ao UOL.

Retorno é marcado por dificuldades

Além da melhora de vida no exterior, outro objetivo desses migrantes é juntar dinheiro o suficiente para investir em sua terra natal, seja para ajudar a família, seja para retornar anos mais tarde e ter uma vida confortável aqui.

No entanto, as experiências ao longo dos anos mostram que poucos conseguem alcançar esse objetivo.

Em uma pesquisa conduzida com emigrantes de Governador Valadares que retornaram ao Brasil entre os anos de 2006 e 2011 — período de crise econômica nos EUA —, Sueli constatou que, apesar de muitos terem migrado buscando dinheiro para investir em sua cidade natal, "a maioria não fez nenhum investimento no Brasil e retorna sem alcançar o projeto inicial".

Mesmo quando o retorno é planejado, o migrante encontra dificuldades para se restabelecer na sociedade, principalmente se o tempo fora do país tiver sido muito longo.

"Ele não consegue mais se adaptar à rotina. Retornar é mais difícil do que ir, porque ele está voltando para um outro lugar, é um lugar que ele guardou na memória, mas que não existe mais. Depois de cinco, seis, dez anos, as pessoas não são as mesmas, nem o lugar é o mesmo."

No caso dos brasileiros que estão retornando agora pela deportação, a situação é ainda mais dramática, pois não há qualquer planejamento para esse retorno.

"É um retorno com uma série de problemas. É indesejado tanto para o migrante quanto para a família. Muitas vezes, parte da família ainda permanece lá, porque não foi deportada junto, e a família que vai receber eles aqui também não está preparada para isso. Ele volta em uma situação de extrema incerteza e de total precariedade", avalia Sueli.

Como Minas Gerais se tornou exportador de migrantes

O Brasil é naturalmente um país de migração, majoritariamente interna, rumo ao sudeste, e o "boom" migratório internacional no país se deu durante os anos 1980, a chamada década perdida.

Segundo Sueli, a escolha específica dos EUA remonta 1964, quando um grupo de 17 jovens de Governador Valadares, em Minas Gerais, foi ao país fazer um intercâmbio.

"A notícia de que lá era possível trabalhar e ganhar dinheiro veio dos primeiros intercambistas, que viajaram a fim de aperfeiçoar o inglês e, ao voltar, trouxeram essa informação", conta Sueli, que entrevistou os 17 jovens para sua pesquisa sobre o tema.

Eram em sua maioria jovens de classe alta, que falavam inglês e entravam com visto de trabalho.

Quando a história começou a se espalhar, brasileiros da elite passaram a viajar ao país com visto de turista e, após o vencimento do visto, ficar como não documentados.

Esse efeito aumentou após a década de 1980, no período da hiperinflação brasileira, quando a classe média fez o mesmo movimento, principalmente porque já existia no país de destino uma rede de brasileiros para ajudar.

"Já existia a facilidade de ligar para um amigo [que mora nos EUA], perguntar ele se podia ir fazer a recepção no aeroporto. Esse amigo recebe, arranja um emprego", explica Sueli.

Tanto a classe alta quanto a classe média se consolidaram no país e se tornaram empreendedores, em especial nas áreas de construção civil e limpeza. Esse sucesso foi o que motivou um novo "boom", nos anos 2000, quando a classe baixa passou a emigrar em busca desses melhores salários.

De acordo com Sueli, a existência dessa dinâmica e de uma comunidade de brasileiros nos EUA disposta a ajudar quem chega torna a migração uma opção palpável nessas cidades do leste mineiro.

"Tem cidades na região de Governador Valadares em que quase 90% da população tem experiência migratória. Ou seja, em 90% dos domicílios alguém já emigrou", conta.

O mesmo fenômeno explica a forte concentração de brasileiros na região de Boston, em Massachusetts. A formação de uma rede de falantes de língua portuguesa dispostos a receber e ajudar quem chega explica a alta procura pelo local.

Segundo dados do Itamaraty, o consulado de Boston registrou em 2015 mais de 350 mil cidadãos, seguido por Nova York, com 285 mil.

Naturalmente, as cidades se adaptaram para acomodar essa cultura migratória tão forte.

Fluxo migratório deve continuar, e deportações também

Sueli avalia que, mesmo com as inúmeras histórias de frustrações ou perigos passados pelos que chegam, são suficientes para desfazer esse fluxo migratório.

"Mesmo que a imprensa faça alarido em torno dos migrantes presos, mostrando como é que eles voltam, entrando algemados no avião, é algo que não se fixa no imaginário popular. Quantas reportagens foram feitas sobre os perigos da travessia? Até novela foi feita sobre isso, mas as pessoas continuam indo. No imaginário popular, a ideia é de que ao se chegar lá a vida vai ser melhor para todo mundo".

Uma vez que um fluxo migratório é criado, é muito difícil de se quebrar, mesmo com aumento de deportações, dificuldades para obter vistos ou muro na fronteira.

"Esse fluxo é uma coisa muito forte. Está dificultado? Está. Causa mais medo? Causa. Dá mais estresse? Sim. Mas o movimento continua a acontecer", diz.

Nem mesmo a chegada de Donald Trump ao governo do país com sua política de tolerância zero com imigrantes ilegais afastou os brasileiros.

Segundo dados do serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, o número de brasileiros presos tentando cruzar a fronteira ilegalmente cresceu dez vezes no último ano fiscal norte-americano (outubro de 2018 a setembro de 2019), chegando a 17.900, contra 1.500 no ano fiscal anterior.

Em nota sobre o quinto voo fretado trazendo deportados, a Polícia Federal brasileira informou que "voos com essas características podem se tornar frequentes".

De acordo com Sueli, a tendência é que as pessoas busquem outros mecanismos para tentar a entrada além da travessia pela fronteira. Ela contou que a nova tática tem sido viajar para diversos países meses antes de tentar o visto para os EUA na intenção de ter o passaporte carimbado e, assim, convencer que a viagem é apenas turística.

"Eles inventam tudo quanto é jeito e vão tentando. Essa cultura é algo que impregna a pessoa", conta.

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