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4 meses

Fauci responde críticas após divulgação de emails: "são ataques à ciência"

Anthony Fauci é referência no acompanhamento da pandemia nos Estados Unidos - REUTERS/Jonathan Ernst
Anthony Fauci é referência no acompanhamento da pandemia nos Estados Unidos Imagem: REUTERS/Jonathan Ernst

Do UOL, em São Paulo*

05/06/2021 17h35

O médico e principal conselheiro da Casa Branca, Anthony Fauci, respondeu ontem aos ataques que vem recebendo após terem seus emails divulgados. "Estou mais preocupado com o fato de serem ataques à ciência".

O diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos deu uma entrevista ontem à noite à MSNBC, em que falou das consequências da publicação de seus emails conseguidos por meio de pedidos de acesso à informação.

Fauci tem sido um alvo frequente de conservadores americanos e adeptos de teorias conspiratórias. Entre os vários assuntos dos emails vazados, o que tem sido mais usado é um que fala sobre a origem do novo coronavírus. Nele, o médico questiona a versão de Pequim de que o vírus não teria surgido de laboratório.

Conspiratórios se apropriaram das mensagens descontextualizadas para endossar ainda mais a teoria, enquanto críticos do infectologista —muitos deles republicanos— utilizam para questionar a credibilidade do médico.

Questionado sobre outros ataques que já sofreu, Fauci comparou esse momento com o período em que atuou na epidemia de HIV nos anos 80 nos estados Unidos. Segundo ele, enquanto naquela época os ataques se deviam a desconhecimento, agora a abordagem é totalmente anticientífica.

"A lógica que passa pelo que está acontecendo agora é uma abordagem anticientífica. Portanto, essa é uma grande diferença", disse. "Eu sou uma figura pública, vou receber flechadas e ataques. Mas eles são apenas fabricados."

"Meu trabalho era fazer uma vacina e usar meu instituto e os cientistas talentosos que temos lá. E conseguimos. Isso é o que eu faço, todas as outras coisas são apenas um tipo de distração terrível e nada feliz", acrescentou.

Fauci já foi alvo de ataques do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chegou a sugerir que ele era "idiota". "As pessoas dizem: 'Deixem-nos em paz'. Estão cansadas. As pessoas estão cansadas de ouvir Fauci e todos esses idiotas".

Esta semana, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) também utilizou os eails vazados, mas antigos, sobre uso de máscaras para atacar o médico e compará-lo ao seu ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. Ele citou uma mensagem que Fauci escreveu no início do ano passado no qual ele sugere o uso de máscara apenas por pessoas infectadas com a covid-19.

"O que ele [Fauci] diz: 'a máscara é para ser usada por quem está infectado'. A nossa linha, nosso protocolo é de quem está infectado, fique em casa. Eu fiquei em casa 9 dias. Então, aqui dá a entender que quem está infectado por ir à rua, de máscara", disse Bolsonaro.

Na época, o mundo passava por uma escassez de EPIs e a própria OMS (Organização Mundial da Saúde) sugeriu que as máscaras fossem usadas apenas por profissionais de saúde. Posteriormente, tanto o governo americano quanto a OMS passaram a defender o uso de máscara por todos, incluindo as de fabricação caseira.

As teorias de origem da pandemia

Os emails de Fauci foram publicados em um momento em que o governo americano voltou a questionar a origem da pandemia de covid-19. Trump era um grande defensor de que o vírus havia sido criado em laboratório, porém nunca apresentou provas disso. Agora, o governo de Joe Biden quer uma revisão do assunto, o que irritou a China.

A teoria da fuga de laboratório ganhou força nas últimas semanas após informações de que seis mineradores teriam ficado doentes em 2012 e três pesquisadores do Instituto de Virologia de Wuhan foram hospitalizados em novembro de 2019 com sintomas compatíveis com a covid-19 - embora também sejam compatíveis com os de uma "infecção sazonal"-, após visitarem uma caverna com morcegos na província chinesa de Yunnan.

Na semana passada, Biden pediu aos serviços de inteligência dos Estados Unidos que elaborassem um relatório em um prazo de 90 dias sobre a origem da covid-19.

No email vazado, Fauci recebia o agradecimento de um executivo de uma instituição de caridade de saúde de Wuhan por declarar que as evidências científicas não apoiam a teoria de vazamento de laboratório.

Em outra entrevista esta semana, desta vez à emissora americana CNN, Fauci disse que o email foi retirado do contexto pelos seus críticos e que ele tinha uma "mente aberta" sobre a origem do vírus.

"Você pode interpretar errado da maneira que quiser", disse ele, "esse email era de uma pessoa me agradecendo e dizendo 'obrigado' por algo que ela pensou que eu disse, e eu disse que acho que a origem mais provável é um salto entre espécies. Eu ainda acho que é, ao mesmo tempo que estou mantendo a mente aberta de que pode ter sido um vazamento de laboratório."

Essa semana, o médico pediu à China para compartilhar as histórias clínicas de nove pessoas que tiveram uma doença semelhante ao coronavírus antes do início da pandemia, e disse que elas podem ajudar a determinar se o vírus surgiu de um laboratório.

A China, que tenta ferozmente descartar a hipótese do laboratório, acusou Washington de espalhar "teorias da conspiração" e negou informações sobre a hospitalização de pesquisadores em Wuhan publicadas pela imprensa americana.

A tese da origem natural, considerada a mais provável por um estudo conjunto de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e chineses que visitaram Wuhan no início deste ano, afirma que o vírus apareceu em morcegos antes de ser transmitido aos humanos, provavelmente via outro animal.

Nesta sexta-feira, o ministério chinês das Relações Exteriores se baseou nas descobertas dessa equipe para rejeitar as declarações de Fauci, citando afirmações infundadas de que o vírus apareceu pela primeira vez no laboratório militar americano em Fort Detrick.

Consultado sobre a possibilidade de que Pequim compartilhe os registros médicos, o porta-voz do ministério, Wang Wenbin, recorreu a uma declaração do Instituto de Virologia de Wuhan de março.

"Esperamos que as pessoas que não acreditam em teorias da conspiração, que respeitam os fatos e a verdade, possam encontrar respostas factuais nesta declaração", disse Wang.

*Com AFP

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