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Governo começou guerra, mas povo é que sofrerá sanções, diz youtuber russa

Olga em visita à Rússia em 2021 - Instagram
Olga em visita à Rússia em 2021 Imagem: Instagram

Saulo Pereira Guimarães e Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, no Rio de Janeiro e em São Paulo

04/03/2022 04h00Atualizada em 04/03/2022 15h37

"O governo russo começou com a guerra, mas quem vai sofrer com sanções é o próprio povo russo, que está manifestando agora mesmo nas ruas contra tudo que está acontecendo e sendo preso por isso", afirmou a youtuber russa Olga Kovalenko.

Formada em seu país natal em pedagogia, sociologia e psicologia aplicada a jovens, Olga mantém no Youtube o canal Olga do Brasil. Ela tem compartilhado vídeos sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada na semana passada.

Numa das gravações, ela comenta sobre um amigo russo que, por conta do banimento da Rússia do sistema swift, ficou sem poder mandar dinheiro do Canadá para seus pais e avós em seu país de origem.

"Acreditem em mim: um russo médio tem vários outros problemas e pesadelos (maiores) do que entrar em alguma guerra que claramente vai causar montes de problemas econômicos e na vida dele", afirma ela na gravação.

  • Veja as últimas informações sobre a guerra na Ucrânia e mais notícias no UOL News com Fabíola Cidral:

Mais de 50 milhões de visualizações

Olga Kovalenko, do canal Olga do Brasil - Reprodução/YouTube - Reprodução/YouTube
Olga Kovalenko, do canal Olga do Brasil
Imagem: Reprodução/YouTube

Criado em março 2019, o canal de Olga conta mais de 560 mil inscritos e já ultrapassou 50 milhões de visualizações. A youtuber vive em São Paulo e fala português fluentemente.

"Estou no Brasil há quase 3 anos e meio", contou Olga ao UOL. Ela começou o canal motivada pelos amigos russos que a incentivaram a criar um canal em russo para mostrar a eles sua vida no Brasil.

"Mas, bem rapidamente, a audiência brasileira foi chegando, aumentando e passei a fazer vídeos em português para os brasileiros", conta. Num vídeo publicado no último dia 27, ela comenta como o conflito no leste europeu tem impactado sua rotina:

"Estou com insônia, provavelmente vocês perceberam (apontando olheiras). Eu não tenho apetite. Às vezes, eu tento dormir e não posso, por causa da ansiedade", conta.

Essa permanente vontade de chorar, quando você entende que não pode fazer nada, mudar nada. O pior é que eu sei que várias pessoas que eu amo estão passando pela mesma coisa agora mesmo e até alguns deles estão em risco".
Olga Kovalenko, no Youtube

Na mesma gravação, ela lembra que a aprovação de Putin entre os russos era de 32% no fim de 2021 —embora as medições independentes apontassem índices ainda menores.

"Não consigo medir a popularidade do presidente. O que posso dizer é que a absoluta maioria dos russos com quem falei é contra o que está acontecendo", disse ela ao UOL.

"O povo inteiro da Ucrânia está em pânico obviamente. Mas acredite que até os russos que não têm conexão de sangue com os ucranianos estão sofrendo", afirma ela. "Na Rússia, ninguém nem sabe exatamente quantos filhos tem o Putin. Então, poucas sabem o que exatamente passa na cabeça dele."

Olga tem familiares na fronteira

Olga tem familiares que vivem no sul da Ucrânia que, "ainda bem", no momento não estão no país, "mas não sabem se suas casas vão estar inteiras quando voltarem".

Tenho parentes de amigos dormindo no metrô em Kiev para se protegerem. Também tenho familiares em uma cidade russa a menos de 70 km da fronteira com a Ucrânia que estão muito tensos com a quantidade de tanques, helicópteros e aviões passando dia e noite."
Olga Kovalenko, para o UOL

"Vocês podem imaginar o nervosismo da minha avó —ela tem 82 anos— por o que está acontecendo agora na cidade dela. Muitos tanques e batalhões militares estão passando na direção da Ucrânia pela cidade dia e noite", contou ela em vídeo no dia 27.

"Ontem [26], quando a gente estava falando pelo celular, a gente precisava parar, porque o barulho dos helicópteros e aviões era tão forte que eu não conseguia ouvir as vozes deles", disse.

Preconceito contra o povo russo?

Olga teme que os desdobramentos da guerra resultem em xenofobia contra o povo russo:

"Uma coisa que eu tenho medo agora e às vezes passa na minha cabeça é a futura xenofobia que pode acontecer com todo povo russo porque o mundo vai associar o país, as pessoas, àqueles que começaram a guerra", diz ela em um vídeo.

Ao UOL, afirma que a grande maioria das mensagens que recebeu é de apoio, "mas existe, sim, um pequeno grupo de pessoas totalmente desinformadas que se sentem no direito de atacar cidadãos e descendentes russos sem saber ou entender que nós não apoiamos nenhuma violência aos nossos próprios irmãos".

"Sempre digo que uma coisa é o governo russo e outra é o povo russo", afirma. "Nós russos sempre fomos muito orgulhosos da nossa história, das nossas conquistas em diversas áreas e da nossa cultura, mas agora todos nós ficamos preocupados com o futuro do país e com o olhar do mundo para nós."

Ela discorda da percepção geral de que os embargos econômicos contra seu país atingirão em cheio a oligarquia russa.

"Na realidade é só o povo russo que vai sofrer com embargos e sanções, muito mais do que qualquer oligarca", diz ela. "Vários países já fecharam as fronteiras para aviões russos e cidadãos russos comuns, que precisavam de visto e agora não podem mais viajar ou sair do país."

Ela lembra que os preços de produtos, de alimentos a eletrônicos, dispararam, e o rublo —a moeda local— perde valor a cada dia, refletindo diretamente no bolso e na qualidade de vida dos russos.

"O povo russo também começa a sofrer muitas dificuldades bancárias, de utilização de redes sociais bloqueadas, de serviços online e comunicação com o exterior", afirma. "Vários sites e lojas internacionais já não estão mais funcionando para os russos: Apple, Nokia, Siemens, iHerb. Várias marcas de carros como Audi, Mercedes, Citroen, BMW pararam de exportar para a Rússia."

Ela prevê que em breve faltem produtos básicos, "matéria-prima", na Rússia.

Nossa economia já não estava muito boa e as sanções vão piorar tudo para os cidadãos comuns. Isso sem contar o sofrimento de muitas pessoas que têm parentes e amigos na Ucrânia e não podem se manifestar sob risco de prisão e multa."
Olga Kovalenko, para o UOL

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