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"Brasileiros aprovaram candidato de 'extrema-direita' no 1º turno", diz The New York Times

Ernesto Londoño e Manuela Andreoni

No Rio de Janeiro

08/10/2018 13h23

Um candidato de extrema-direita que falou com carinho sobre a antiga ditadura militar no Brasil chegou muito perto de vencer a eleição para a Presidência do país no último domingo (7). Os brasileiros manifestaram decepção com a política como está e endossaram uma abordagem firme no combate ao crime e à corrupção.

Os eleitores deram a vitória no primeiro turno a Jair Bolsonaro (PSL), que surpreendeu o meio político ao alcançar o topo em uma disputa presidencial com muitos candidatos, apesar de seu longo histórico de declarações ofensivas sobre mulheres, negros e gays.

Com 96% dos votos apurados, Bolsonaro tinha conquistado pouco menos de 47%; ele precisava de 50% para vencer no primeiro turno. Seu adversário mais próximo terminou bem atrás, com 28% dos votos.

Com a Presidência à vista, Bolsonaro disse no domingo à noite que pretendia unir um país que está "à beira do caos". "Juntos vamos reconstruir nosso Brasil", declarou.

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Os brasileiros votarão no próximo dia 28 entre Bolsonaro e Fernando Haddad, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda. Os dois representam visões radicalmente diferentes do Brasil, a quarta maior democracia do mundo, onde a esquerda ganhou a Presidência em todas as eleições desde 2002.

Por mais forte que tenha sido o desempenho de Bolsonaro no domingo, ele continua sendo uma figura extremamente divisória, que durante a campanha alienou grandes segmentos da população brasileira, altamente diversificada.

Mas analistas políticos disseram no domingo à noite que Haddad tem uma tarefa desafiadora para o segundo turno: unir a maioria dos brasileiros ao seu lado.

A economista Laura Carvalho, da Universidade de São Paulo (USP), disse que a melhor aposta para o candidato do PT nas próximas três semanas seria enfocar as questões econômicas. "Em vez de se concentrar em racismo e misoginia, que não tiveram muito efeito, ele deveria se concentrar na agenda econômica e no aspecto antitrabalhista da candidatura Bolsonaro", disse ela.

Enquanto vários países vizinhos do Brasil rumaram politicamente à direita nos últimos anos, uma vitória de Bolsonaro, um populista conservador que deverá se somar ao grupo crescente de líderes anti-establishment em todo o mundo, seria uma mudança conservadora sísmica.

Críticos de Bolsonaro e analistas políticos observaram sua ascensão com alarme, temendo que ele possa se tornar um líder autoritário no tom de Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, e de Rodrigo Duterte, das Filipinas.

Antes de disputar a Presidência, Bolsonaro, um ex-capitão do Exército com pouco a mostrar por seus sete mandatos no Congresso, enfrentou acusações federais sobre discurso de ódio, com comentários homofóbicos, misóginos e racistas. Ele também falou com admiração e nostalgia sobre a ditadura militar brasileira (1964 a 1985), durante a qual 434 pessoas foram mortas ou desapareceram e milhares foram torturadas.

Rejeitado pelos partidos da corrente dominante, Bolsonaro teve dificuldade para encontrar um companheiro de chapa até o início de agosto, quando escolheu um general recém-aposentado que defendeu a intervenção militar como meio para expurgar a elite corrupta do país. Ele disse que pretende nomear outros líderes militares para funções centrais.

A vitória de Bolsonaro no primeiro turno foi ainda mais notável porque ele não teve o apoio de um grande partido e fez campanha com orçamento limitado, contando principalmente com as redes sociais para formar uma base. Em meados de setembro, a campanha de Bolsonaro informou ter gasto cerca de US$ 235 mil (aproximadamente R$ 1 milhão), uma pequena fração dos US$ 6,3 milhões (R$ 25 milhões) que a campanha de Haddad revelou ter gasto.

A ascensão de Bolsonaro foi possibilitada pelas divisões políticas que dilaceraram o país nos últimos anos.

Bruna Prado/UOL
Jair Bolsonaro vota na escola Rosa da Fonseca, na zona oeste do Rio de Janeiro Imagem: Bruna Prado/UOL

Os brasileiros ficaram indignados quando líderes dos partidos tradicionais foram envolvidos em uma investigação cada vez mais ampla de corrupção que começou em 2014, e se mostraram ainda mais desanimados conforme a economia vacilava, o desemprego crescia e a criminalidade disparava.

Enquanto alguns eleitores permaneceram fiéis ao PT, que governou de 2003 a 2016, por seus esforços para melhorar a vida dos brasileiros pobres e da classe trabalhadora, muitos passaram a responsabilizar o partido pelas dificuldades econômicas e a corrupção nos últimos anos.

Milhões de brasileiros abraçam com entusiasmo hoje a abordagem radical de lei e ordem de Bolsonaro, mesmo que isso signifique matar criminosos ou inimigos políticos, que foram temas frequentes do candidato.

Georgewlany Smith, funcionário público do Rio de Janeiro de 61 anos, disse que uma erosão das normas democráticas e liberdades civis é um preço que ele está disposto a pagar por um Brasil mais próspero e seguro.

"Você tem de avaliar quais foram os melhores tempos do Brasil", disse Smith pouco depois de votar em Bolsonaro no bairro de alta renda da Barra da Tijuca. "Infelizmente foi a ditadura."

Bolsonaro aproveitou a raiva fervente pela situação atual e o desejo de mudança que dominou muitos brasileiros. Ele se tornou a face de um crescente movimento conservador em um país onde os evangélicos representam 25% dos eleitores e têm mais de 90 legisladores federais.

O candidato ofereceu pouco em termos de um mapa político detalhado, especialmente em relação aos fracassos econômicos do país. Quando pressionado por perguntas, apresentou Paulo Guedes, um economista liberal que ele disse que nomeará como ministro da Fazenda para conter os gastos sociais que cresceram sob o PT.

Os mercados se recuperaram conforme ele assumia a liderança nas pesquisas, mas Bolsonaro "não é o liberal pró-mercado que finge ser", advertiu Monica de Bolle, economista brasileira que dirige o Programa de Estudos Latino-americanos na Universidade Johns Hopkins, nos EUA.

"Ele realmente se destaca por ter soluções claramente simplistas para problemas muito complexos, característica que certamente não dará resultados", disse ela.

A vitória de Bolsonaro provavelmente será denunciada por muitos à esquerda como o resultado antidemocrático de uma eleição que excluiu o político dominante na história brasileira recente: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-metalúrgico e líder sindical vigoroso que alcançou a proeminência nos anos 1970 e 1980 como opositor da ditadura militar.

Lula, que serviu dois mandatos e deixou o cargo em 2011 com um índice de aprovação recorde, foi o candidato mais aprovado durante a maior parte do ano passado e parecia bem situado para voltar ao palácio presidencial. Mas se tornou inelegível depois que, no início deste ano, um tribunal de apelações manteve sua condenação por corrupção e lavagem de dinheiro.

Depois que Lula foi enviado à prisão em abril, para cumprir uma sentença de 12 anos, ele continuou fazendo campanha de sua cela. Aproximadamente um mês antes da votação, o PT se definiu por Haddad, ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, para ocupar seu lugar na cédula.

Haddad, 55, que aparece como um intelectual honesto e não tem o carisma incendiário de Lula, era desconhecido pela maior parte do país e não conseguiu galvanizar a base do PT que se identificava com as origens operárias e a história de vida de Lula.

Mas alguns eleitores permaneceram totalmente leais a Lula.

Anita Silva Lima, 38, garçonete, moradora da Rocinha, uma comunidade de baixa renda do Rio de Janeiro, disse no domingo que ela e seus sete parentes próximos votaram no "candidato do Lula", resistindo à pressão de seu patrão, que lhe pediu para votar em Bolsonaro.

"Eu não quero uma ditadura. Muita gente morreu naquela época", disse Lima, que é originalmente da pobre região nordeste, um bastião do PT. "Não acredito nessa conversa de corrupção. Diga o nome de um político que não rouba. Bolsonaro também rouba", afirmou.

Outros perderam a fé no PT e sentem que a atual corrida os deixa sem boas opções.

"São todos iguais", disse Carlos Alberto da Silva, motorista de 59 anos do Rio, que apoiou o PT em 2014 e disse que quis indicar sua frustração anulando seu voto neste ano.

Uma das surpresas notáveis na eleição de domingo foi a derrota da ex-presidente Dilma Rousseff, do PT, que disputava um lugar no Senado. Pesquisas de opinião pública sugeriram que ela ganharia com facilidade em seu Estado natal, Minas Gerais, mas Rousseff ficou em quarto lugar.

Ricardo Matsukawa/UOL
Fernando Haddad deixa o sindicato dos metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, ao lado de sua mulher, Ana Estela Haddad, Luiz Marinho e Eduardo Suplicy. Ele segue rumo ao colégio no qual votará em São Paulo Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

Clara Araújo, socióloga na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, disse que os eleitores demonstraram um forte desprezo pelas facções políticas dominantes.

"A insatisfação com a crise econômica, me parece, foi canalizada juntamente com um discurso sobre moral conservadora", disse ela. Os que votaram em Bolsonaro o viram como "a opção por uma certa ordem, uma certa estabilidade, mesmo que essa ideia se baseie em saídas fáceis", disse ela.

Bolsonaro advertiu os eleitores de que devolver o PT ao poder perpetuaria uma cultura de suborno que foi revelada nos últimos anos e manchou todos os grandes partidos e várias das maiores empresas do país.

Ele também afirmou que sob um regime de esquerda o Brasil correria o risco de cair numa crise econômica como a que provocou o êxodo em massa da vizinha Venezuela.

A atração de Bolsonaro cresceu constantemente depois que ele foi esfaqueado enquanto era carregado nos ombros de apoiadores em um comício em Minas Gerais, no mês passado.

Enquanto a maioria de seus adversários viajavam pelo país e participavam de debates, Bolsonaro ficou praticamente fora do último mês de disputa, recuperando-se em um hospital em São Paulo e depois em sua casa no Rio de Janeiro.

Nos últimos dias ele registrou vídeos transmitidos diariamente ao vivo no Facebook, avaliando as notícias do dia. Os clipes trêmulos e sem roteiro foram ilustrativos de uma campanha que teve uma sensação improvisada e rebelde desde o início.

Enquanto a vitória de Bolsonaro parecia cada vez mais provável, opositores ardentes protestavam online e nas ruas sob o lema #EleNão, advertindo que as instituições democráticas do país poderiam ser desgastadas.

Mas lobbies influentes de evangélicos e do agronegócio se uniram ao seu lado na última etapa, enquanto investidores e brasileiros ricos o apoiavam, por acreditarem que Bolsonaro conterá os gastos sociais e implementará reformas pró-mercado.

Diante do apartamento de Bolsonaro à beira-mar no Rio, no domingo à noite, apoiadores cantaram o hino nacional e entoaram "O capitão chegou", conforme os primeiros resultados mostravam sua vitória por uma grande margem.

"Livrar-se do PT somente não é uma solução, mas é um primeiro passo para consertar o país", disse a empresária Barbara Laureano, 25. "Isto não tem a ver com ele como pessoa, mas com uma ideia", acrescentou.