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Pesquisadores descobrem 15 novas espécies de aves na Amazônia

Marcos Pivetta

Da Revista Pesquisa Fapesp

18/05/2013 06h00

Desde a segunda metade do século 19, a ornitologia brasileira não dava uma contribuição tão significativa para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade: 15 novas espécies de aves da Amazônia serão formalmente descritas pela primeira vez no próximo mês.

As descobertas serão publicadas em uma série de artigos científicos previstos para junho, em volume especial do Handbook of the birds of the world (Enciclopédia dos pássaros do mundo, em tradução livre), da editora espanhola Lynx Edicions. Esse tomo fecha uma coleção de 17 livros que, por seu caráter enciclopédico e didático, é adotada como fonte de consulta por ornitólogos profissionais e amadores.

Os autores das descrições pertencem a três instituições nacionais de pesquisa: o Museu de Zoologia da USP (Universidade de São Paulo), na capital paulista; o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), com base em Manaus; e o MPEG (Museu Paraense Emílio Goeldi), sediado em Belém. A pesquisa contou, ainda, com o apoio do Museu de Ciência Natural da Universidade Estadual da Louisiania, nos Estados Unidos.

Das novas espécies, 11 são endêmicas do Brasil e o restante pode também ser encontrado no Peru e na Bolívia. Entre as recém-descobertas, oito delas ocorrem somente a oeste do rio Madeira, na parte ocidental da Amazônia; cinco habitam exclusivamente terras entre esse curso d’água e o rio Tapajós, no centro da região Norte; e duas vivem apenas a leste do Tapajós, no Pará, na porção mais oriental da floresta tropical. 

Em termos numéricos, as novas espécies amazônicas representam um acréscimo de quase 1% na biodiversidade nacional de aves. "Somos o segundo país com maior número de espécies de aves conhecidas, cerca de 1.840", afirma Luís Fábio Silveira, curador do setor de ornitologia do Museu de Zoologia da USP, um dos coordenadores da iniciativa.

Os ornitólogos não apresentavam ao mundo, de uma só vez e em uma única obra, um conjunto tão numeroso de novas aves brasileiras desde 1871, quando saiu o livro Zur Ornithologie Brasiliens. Nessa obra, o austríaco August von Pelzeln (1825-1891) divulgou 40 espécies de aves coletadas pelo naturalista Johann Natterer (1787-1843), também austríaco, em suas viagens pela Amazônia brasileira.

Publicação de impacto

No volume especial, os autores descrevem a morfologia (formas e estruturas), a genética e  o canto das novas espécies. Por meio de mapas específicos para cada ave, mostram ainda seus locais de ocorrência. No entanto, até que o livro seja oficialmente publicado, o nome científico e alguns detalhes sobre a anatomia e o modo de vida das novas espécies não podem ser divulgados.

Há apenas duas décadas, a descrição de uma nova espécie de ave, como ocorria com a maioria dos seres vivos, baseava-se apenas na singularidade de sua anatomia e aparência externa. Se a plumagem e as estruturas ósseas de um exemplar eram diferentes significativamente dos traços encontrados nas espécies conhecidas, esse animal podia ser rotulado como sendo de uma nova espécie.

Hoje, além da morfologia, outros dois critérios fundamentais são usados para propor a existência de novas espécie de aves: a análise de suas vocalizações (canto e sons) e de seu material genético. "Atualmente há pesquisadores que propõem a existência de uma nova espécie de ave mesmo quando apenas um desses três parâmetros se mostra distinto das demais espécies conhecidas", explica Silveira. "Fomos conservadores em nosso trabalho e propusemos uma nova espécie apenas quando encontramos divergências em pelo menos dois desses três critérios."

Das aves até agora desconhecidas e sem registro na literatura científica, a maior e mais espetacular é uma espécie de gralha, do gênero Cyanocorax, com cerca de 35 centímetros de comprimento, que vive apenas na beira de campinas naturais situadas em meio à floresta existente entre os rios Madeira e Purus, no Amazonas.

"Essa gralha está ameaçada de extinção", diz Mario Cohn-Haft, curador da seção de ornitologia do Inpa, principal descobridor do cancão-da-campina, nome popular cunhado para a ave. "Seu habitat está em perigo e podemos perder a espécie antes de ter tido tempo de estudá-la a fundo."

Sua principal região de ocorrência é um complexo de campinas, distante 150 quilômetros ao sul de Manaus, numa área próxima à rodovia BR-319, que liga a capital amazonense a Porto Velho. A estrada está sendo reformada e os pesquisadores temem que o acesso facilitado ao local coloque em risco o habitat da espécie.

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